Chuvas castigam a única estrada entre o Acre e o Purus, retardando as viagens entre os dois Estados

BR-317, Amazonas – Domingo, 14h30: cargas de gêneros alimentícios, medicamentos e passageiros dos ônibus da empresa Real Norte estão parados no km 80. Em fila, motoristas e caminhoneiros olham para o barro, para o céu e para a floresta. Alguns blasfemam, outros se queixam de fome sede. Sem qualquer socorro, os usuários da BR-317 param entre os dois lados da Reserva Indígena dos Apurinãs, entregues à própria sorte no Sudoeste Amazônico. As propriedades rurais ficam distantes dali.

Chove regularmente e os atoleiros vão se multiplicando na rodovia federal de 208 quilômetros que liga Rio Branco, capital acreana, ao município de Boca do Acre, na região do Purus. Três caminhões da Distribuidora Coimbra com cerca de 60 toneladas de cargas impedem a passagem de outros veículos. Os condutores se embrenham, buscando contornar os trechos precários. Nem todos conseguem êxito na manobra e voltam ao atoleiro.

Em 48 horas, o taxista Delcides Dantas de Paiva, 34 anos, vive mais uma experiência nos seus 12 anos de profissão. “Ontem (sábado), vi crianças e mulheres famintas aqui nesse trecho”, relata. O taxista transporta semanalmente pessoas doentes para os hospitais e Rio Branco. A única ambulância de Boca do Acre também utiliza a estrada.

Neste começo do inverno amazônico, a estrada fica novamente intransitável. Não há um só trator, nem patrulheiros rodoviários nos trechos enlameados. Por isso, ninguém sabe a que horas prosseguirá viagem. “A gente conta que a situação é essa, mas eles não acreditam”, lamenta o motorista José Rios, 37. Segundo ele, os patrões ignoram seus relatos e desabafos.

A partir da divisa entre os dois estados, a situação muda. A viagem é tranqüila numa das rodovias mais modernas da Amazônia.

Cidade-entreposto depende da estrada

Boca do Acre (AM) – O abastecimento de Boca do Acre, 38 mil habitantes, depende dessa estrada. Esta cidade banhada pelo Rio Purus situa-se a 1.280 quilômetros de Manaus e funciona como entreposto de todo o Sudoeste Amazônico. É também servida por embarcações que utilizam o Rio Acre, no entanto, as viagens às vezes demoram mais de dez horas.

“Nada mais justo que asfaltar logo o trecho da BR-317 no Amazonas”, cobra o empresário Sebastião Araújo, 65, um dos diretores do Grupo Supermercados Varejão Popular, de Rio Branco. “Nossa cidade é totalmente dependente do Acre; se hoje for feito um plebiscito aqui, o povo vai preferir pertencer ao Acre”, ele opina. No mês passado, o Governo do Acre inaugurou 90 quilômetros de asfalto da rodovia.

Faltam 110 quilômetros para completar a pavimentação. Um pequeno trecho já está pronto, perto de Boca do Acre. No lado amazônico, a sucessão de buracos e atoleiros contrasta com os trechos em boas condições de tráfego. O gado magro dos índios Apurinã do Km 45 está solto nas margens da BR-317. A cerca de dez quilômetros do maior atoleiro, uma voçoroca medindo dez metros e largura por dez metros de profundidade ameaça o leito da rodovia. Começou há quatro anos e, conforme conta Delclides Paiva, já serviu para a desova de dois corpos de ladrões de fazenda, mortos a tiros em 2007.

Em Boca do Acre, comerciantes ouvidos pela Agência Amazônia esperam para breve a mobilização de parlamentares da bancada do Amazonas, no sentido de reivindicar o asfaltamento do trecho ao Departamento Nacional de Infra-Estrutura do Transporte (DNIT).

A situação chegou ao conhecimento do diretor geral do DNIT, Luiz Antonio Pagot, que já trabalhou no sistema hidroviário Rondônia-Amazonas, a serviço do Grupo Maggi, pertencente à família do governador de Mato grosso, Blairo Maggi. O deputado Fernando Melo (PT-AC) pretende reunir as bancadas acreana e amazonense, em fevereiro próximo, a fim de fortalecer o pleito para o asfaltamento do trecho da rodovia no Amazonas.

A BR-317 é um eixo de integração continental que começa na fronteira com o Peru e termina na divisa com o Amazonas. Ela integra a Estrada do Pacífico, que ligará o Brasil aos portos do Pacífico por um caminho mais curto. Quando chegar a Boca do Acre deverá criar um novo modal desde Belém, passando por Manaus até as cidades ao Sul do Amazonas. Também ampliará a integração entre o Brasil, o Peru e a Bolívia.

A melhor fase de sua história começou em dezembro: depois de 52 anos, a rodovia está totalmente asfaltada dentro do território acreano. Houve festa. Em parceria com o governo federal, o Acre pavimentou dois trechos compreendidos pelo lote 1, que vai do entroncamento da BR-364 (Cuiabá-Porto Velho-Rio Branco), em Quatro Bocas, até a divisa com o Amazonas; e o lote 2, da BR-364 até o município de Senador Guiomard.