É preciso coragem e fé para pegar estrada rumo a Brasília, Vitória e Rio de Janeiro. Trechos arrasados das BRs 040 e 381 são um convite à morte. Viagem melhor só para São Paulo

Dezenas de rodovias rasgam ou acompanham as sinuosas curvas das montanhas de Minas Gerais, mas duas são fundamentais para o desenvolvimento socioeconômico do estado: transportam milhares de vidas e riquezas e ligam Belo Horizonte a relevantes regiões do Brasil. A BR-040, caminho para Brasília e Rio de Janeiro, e a BR-381, para São Paulo, Vitória e ligação com importantes estradas que levam ao Nordeste do país, são comparadas a veias e artérias que mantêm vivo o coração de muitas cidades mineiras.

Ambas têm importantes obras em execução ou planejadas para sair do papel nos próximos meses, mas a situação atual de boa parte de seus trechos é caótica: imensos buracos, curvas acentuadas, falta de acostamento, afunilamento de pista, carência de postos de pesagem e sinalização precária. Estatística da Polícia Rodoviária Federal (PRF) reforça o perigo: dos 10.536 mil acidentes registrados na malha federal de Minas, entre janeiro e junho deste ano, 55,44% ocorreram na BR-381 (3,7 mil ocorrências) e na BR-040 (2,1 mil).

O Estado de Minas percorreu partes das duas rodovias e constatou a via-crúcis vivida, diariamente, por motoristas e passageiros que chegam ou saem de BH. Na BR-040, foram analisados 195 quilômetros até Felixlândia, no trecho entre a capital e Brasília, e os 100 quilômetros até Conselheiro Lafaiete, em direção ao Rio. Na BR-381, os 108 quilômetros de BH a João Monlevade, trecho conhecido como rodovia da morte, e os 100 quilômetros da capital a Itaguara (rumo a São Paulo). Juntos, os quatro trechos somam pouco mais de 1 mil quilômetros (ida e volta), percurso suficiente para constatar os bons e maus exemplos na aplicação dos impostos pagos pelos contribuintes.

Na BR-040, onde 75 pessoas perderam a vida no primeiro semestre deste ano (a estatística se refere a toda a extensão da malha), uma notícia positiva é a construção da variante que vai substituir o trágico Viaduto Vila Rica, no km 592. A negativa é a grande quantidade de operações tapa-buracos feitas na via nas últimas décadas e muitas dessas “cirurgias” não passaram de medidas paliativas. O Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes (Dnit) informou que a contratação dos serviços de recuperação dos trechos entre BH e Conselheiro Lafaiete e entre Felixlândia e o trevo de Curvelo está em fase de licitação.

O Dnit acrescentou que, nos dois casos, houve recursos e impugnações que atrasaram o trabalho. “As licitações já têm os vencedores homologados, dependendo apenas de parecer da Procuradoria Federal quanto à legalidade ou não dos processos. Tão logo eles saiam da Procuradoria haverá a assinatura dos contratos e início das obras.” Mas o asfalto só ficará em boas condições se as barreiras que fiscalizam caminhões com excesso de carga voltarem à atividade. Segundo o governo, seis postos serão reativados na 040, possivelmente, em setembro: dois próximos a Carandaí, um em João Pinheiro, outros dois (móveis) em Paracatu e um no trevo de Curvelo. O último será em Ribeirão das Neves, mas esse entra em funcionamento até dezembro.

OPOSTOS

Os dois sentidos da BR-381, saindo de Belo Horizonte, têm perfis totalmente opostos. É só ver a diferença na média de velocidade nos dois trechos: 60 km/h entre BH e Monlevade e 110 km/h para a mesma distância que separa a capital de Itaguara, no sentido São Paulo. Quem segue rumo ao Sul de Minas pega uma estrada em obras, com faixas pintadas, boa sinalização e sem buracos. Desde o início do ano, ela foi repassada à iniciativa privada em contrato de concessão, que prevê cobrança de pedágio ainda este ano. Já na direção do Espírito Santo, principalmente nos 108 quilômetros críticos até João Monlevade, as curvas, os congestionamentos, a sinalização precária e as pontes estreitas e inacabadas preocupam.

Os problemas começam na saída de BH, no Anel Rodoviário que dá acesso à rodovia. Os representantes do Dnit prometem licitação rápida para construção do anel de contorno Norte da região metropolitana, que vai sair de Betim e passar por sete municípios. Os R$ 700 milhões necessários sairão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Logo em seguida, a lenta obra do trevo de Santa Luzia, que causa muitas retenções e transtornos.

O trabalhador rural Geraldo Cruz, de São Gonçalo do Rio Baixo, amarra o cavalo no mato e atravessa correndo a pista da 381, passando antes por uma improvisada plataforma de madeira ao lado da ponte do Coronel, uma das cinco inacabadas na 381. “Isso é um açougue”, diz, mostrando um buraco no meio da mureta de proteção da ponte. Ele lembra do jovem filho de um fazendeiro que passava pela ponte de madrugada e foi encurralado por uma carreta. O rapaz caiu no rio e só saiu de lá retirado por amigos, já sem vida. Segundo o Dnit, a construção das pontes foi iniciada em 2005 e as obras pararam em janeiro de 2007 por questionamentos do Tribunal de Contas da União (TCU).