Pesquisa da UnB mostra que incidência entre motoristas chega a 26%, enquanto média da população é de 10%

João Sérgio da Silva, 48 anos, é caminhoneiro há 25 anos e há dez viaja pelo Brasil na companhia da mulher, Maria Lúcia Pereira, 53. Os catarinenses recordam com tristeza e saudade a perda de dois amigos de profissão que foram vítimas da Aids. O último deles morreu há cerca de três anos, no município de Simões Filho, a 21km de Salvador. “Eles contraíram o vírus em suas viagens e passaram para as esposas. Essa é uma realidade muito triste entre alguns caminhoneiros”, lamenta. Fora de casa durante longos períodos, caminhoneiros têm se tornado mais vulneráveis a contrair Adis e outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), segundo uma pesquisa realizada pela Universidade de Brasília (UnB).

O estudo revelou que 76% dos motoristas de caminhão admitiram já ter procurado mulheres durante as viagens e 26% dos caminhoneiros já tiveram alguma DST. O número representa mais do que o dobro da média de incidência destas patologias entre a população brasileira, que é de 10%, de acordo com o Ministério da Saúde. O percentual de caminhoneiros que afirmam conhecer algum colega de profissão que tenha contraído Aids ou tenha morrido com a doença foi de 33%.

As histórias são mais comuns do que se imagina, segundo João Sérgio da Silva, e compartilhar as viagens ao lado das esposas ainda é uma raridade entre os que aventuram a vida nas rodovias do país. No entanto, é também uma segurança para que motoristas e suas companheiras corram menos riscos de contrair (DSTs). João conta que hoje prefere a companhia da esposa para suprir a carência dos longos dias que passa fora de casa. “A gente sabe que muitos caminhoneiros fazem da viagem uma diversão”, salienta.

A esposa Maria Lúcia, que não desgruda do marido, diz que ainda se surpreende com algumas histórias. “A gente que anda na estrada acaba conhecendo até as garotas de programa. Elas contam que a maioria dos caminhoneiros não quer usar camisinha. É um absurdo que eles não tenham consciência do risco que estão correndo e que podem levar para suas esposas”, avalia.

Doenças reveladas – O levantamento foi realizado pelo Serviço de Enfermagem da UNB com 240 caminhoneiros de Rondônia. O objetivo da pesquisa foi mostrar os riscos a que estão expostos os caminhoneiros que cortam as rodovias do país. Entre os 64 motoristas que já admitiram ter alguma DST, 72,5% foram acometidos por gonorréia, 8,7% por cancro e 7,2% por sífilis. Os outros 11,6% estão distribuídos entre escabiose (sarna), uretrite (inflamação na uretra), entre outras. A pesquisa não questionou se os caminhoneiros eram portadores de HIV/Aids para não inibir os entrevistados, receosos de que suas declarações comprometessem seus trabalhos.

“Existem vários fatores que colocam os caminhoneiros mais vulneráveis. Há uma forte cultura do machismo que ainda é muito grande entre eles. Muitos ainda têm a idéia de que não podem recusar nenhum tipo de oferta, como forma de mostrar virilidade. Os caminhoneiros se expõem porque há uma grande oferta de garotas de programa nas rodovias”, afirma a coordenadora da pesquisa, a professora Dirce Guilhem, do Departamento de Enfermagem da UNB.

Apesar dos riscos, poucos deles buscam serviços médicos. A pesquisa aponta que a maioria dos motoristas evita ir ao médico para não atrasar a viagem e comprometer a jornada de trabalho. Outro grande entrave é que eles geralmente são proibidos de circular com caminhões de carga pesada dentro do perímetro urbano, o que dificulta o acesso aos postos de saúde.

Dados semelhantes entre as regiões

Embora seja um levantamento regional, os números da pesquisa da UNB revelam uma situação semelhante em quase todo o país, levando-se em consideração que os condutores entrevistados ultrapassam as fronteiras de seus estados. Na Bahia, a situação não é diferente. A maioria admite que a preocupação com as doenças sexualmente transmissíveis só forçou o uso de preservativo há cerca de dez anos e o assunto ainda é tabu.

Joilson Reis Souza, 45 anos, caminhoneiro há 25, diz que antes do casamento já saiu com algumas mulheres durante as viagens e que não usava preservativos. “Nunca tive nada. Tive sorte, mas tenho muito mais cuidado”, revela. O motorista conta ainda que raramente vai ao médico. “Quando tenho qualquer coisa, vou à farmácia e peço indicação sobre um remédio”, confessa. Além das dificuldades de acesso ao atendimento médico, muitos caminhoneiros confessam não gostar de ir ao urologista por receio ou puro tabu.

Na Bahia, assim como em todo o Brasil, há poucas iniciativas dos poderes públicos no sentido de orientar e conscientizar os caminhoneiros sobre os riscos das DSTs. Não há ação por parte das secretarias da Saúde dos estados e municípios. As iniciativas esporádicas partem de organizações não-governamentais. De acordo com Dirce Guilhem, as transportadoras têm assumido um papel importante e realizam campanhas e palestras para os funcionários. Uma importante iniciativa é realizada pelo Serviço Social do Transporte (Sest), entidade da Confederação Nacional do Transporte (CNT).

O órgão presta serviços médicos aos motoristas, além de realizar palestras e campanhas educativas esporádicas em parceria com Polícia Rodoviária Federal (PRF).