Teófilo Otoni – O Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG) instaurou 114 processos administrativos contra empresas e cooperativas de fretamento acusadas de praticar ilegalmente o transporte rodoviário intermunicipal de passageiros no estado. Desses, 56 autos foram concluídos e todos confirmaram a denúncia. A pena imposta foi a suspensão, por até um ano, da licença para operar o serviço de fretamento. Os outros 58 casos ainda estão em investigação.

A lei permite que as empresas e cooperativas de fretamento aluguem ônibus, microônibus ou vans apenas para transporte “em grupo para viagem turística, cultural, recreativa, religiosa ou assemelhada, com pontos de origem e destino preestabelecidos”, mas muitas firmas, como o Estado de Minas informou ontem, vendem passagens como se fossem autorizadas a operar no sistema regulamentado, como ocorre com as empresas instaladas no terminal rodoviário.

Uma das empresas flagradas foi a Natália Turismo, que oferece viagens diárias entre Belo Horizonte e Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, a 446 quilômetros da capital, por R$ 50. O preço é 38,5% menor do que o bilhete vendido na rodoviária, que custa R$ 80. Mas a quantia preservada no bolso (R$ 30) pode representar um grande risco, como constatou o EM, que embarcou num dos coletivos piratas no último dia 12, para acompanhar de perto, numa viagem de Teófilo Otoni a BH, a rotina dos usuários que alimentam o sistema irregular.

A viagem, marcada para as 9h30, começou às 10h10, em frente da Loja da Natália Turismo, que funciona no Centro de Teófilo Otoni. O ônibus, ano 1986, não tem banheiro, mas, se necessário, o motorista faz uma parada extra, a pedido dos passageiros, em postos de combustível. Mas a falta do mictório preocupou alguns usuários, como dona Leni, de 45 anos, cujo nome é fictício, para preservá-la: “O ruim é ter que aguardar a parada para ir ao banheiro. Não é bom, mas fazer o quê, né?”, diz a mulher, que vai à capital pelo menos uma vez a cada mês.

Sentada na janela, a senhora observa a bela paisagem do Vale do Mucuri. Cerca de duas horas depois da partida, se rendeu ao sono e só acordou quando o ônibus parou próximo de Governador Valadares, e um recado do motorista fez todos se levantarem: “Gente, parada de meia hora para o almoço”. Depois de se alimentar, dona Leni se aconchegou na poltrona e voltou a fechar os olhos. Já a reportagem decidiu, depois de quase 150 quilômetros, acompanhar o restante da viagem no carro próprio.

Dona Leni, sonolenta, não soube os riscos que correu. Em alguns trechos, o condutor do genérico desrespeitou a sinalização e fez ultrapassagens arriscadas na faixa contínua. Na BR-381, entre Governador Valadares e Nova Era, a manobra arriscada poderia se transformar em desastre, pois, enquanto ultrapassava um caminhão, uma carreta, pesada, trafegava em sentido contrário. Cerca de dois quilômetros antes de João Monlevade, onde há um posto da Polícia Rodoviária Federal (PRF), o motorista parou o ônibus no acostamento.

Preocupado com a possibilidade de a PRF ter planejado uma blitze, aguardou, pacientemente, que alguém o avisasse que o sinal estava verde para seguir viagem. A estratégia foi repetida próximo de Santa Luzia, na região metropolitana, onde há outro posto da corporação. O pirata chegou a BH por volta das 19h30. Deixou passageiros no Anel Rodoviário e na Avenida Antônio Carlos. O ponto final foi no quarteirão da Rua Curitiba, entre Afonso Pena e Tupinambás. Procurada pela reportagem, a direção da empresa não retornou o pedido de entrevista.

Táxi

O assessor técnico da Subsecretaria de Transportes, Lindberg Ribeiro Garcia, adianta que outro problema grave ocorre no Norte de Minas, onde táxis fazem viagens intermunicipais irregulares. “O táxi é um serviço público de interesse local. Pode levar passageiros para outra cidade, mas não pode arrebanhar usuários (fora da praça na qual é cadastrado). Se levar para outro município, tem que voltar vazio. Mas, no Norte de Minas, (muitos) fazem o serviço (intermunicipal) rotineiramente, de forma contínua”, diz.