A lei seca virou conversa obrigatória nas rodas dos boêmios brasilienses. Embora a norma seja de tolerância zero de álcool ao volante, motoristas discutem até quanto podem beber sem ter problemas com a fiscalização. O mais curioso nos bares, porém, são os debates sobre estratégias capazes de mascarar a bebedeira no bafômetro. Para provar o que é mito ou verdade, o Correio e o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran) convidaram o administrador de empresas Breno Lima Sant’Ana, de 31 anos, para experimentar alguns truques sugeridos pelos brasilienses e tirar a prova no equipamento que já flagrou 66 motoristas embriagados ao volante desde o último dia 20, quando a Lei Federal nº 11.705/08 entrou em vigor.

Breno, que mede 1,75m e pesa 85kg, tomou duas latas de cerveja e fez o teste do bafômetro em seguida — o índice de alcoolemia detectado foi de 0,21 decigrama de álcool por litro de ar expelido. Se ele estivesse dirigindo, teria a carteira apreendida, pagaria multa de R$ 957 e, caso não houvesse alguém abstêmio e habilitado no carro, teria o veículo recolhido ao pátio do Detran. O teste dos mitos começou com o antisséptico bucal, passou pela bala de aroma forte e terminou com um chiclete. Em todos os casos, houve variação do teor etílico detectado pelo bafômetro, mas não o suficiente para livrar o administrador da multa ou da suspensão da habilitação por um ano: ele só seria preso após a combinação cerveja e antisséptico bucal (confira quadro com resultados).

Segundo o chefe do Núcleo de Policiamento e Fiscalização do Detran, Francisco Saraiva, mesmo sem o teste do bafômetro estava claro que Breno havia ingerido bebida alcóolica, apesar de ele não estar cambaleante ou apresentar a fala enrolada. “À medida em que você foi bebendo mais, seu comportamento mudou. Você está bem mais extrovertido”, disse Saraiva ao convidado. “Mas, se o cidadão ingerir pequenas quantidades de bebida, a probabilidade de ser flagrado é mínima”, afirmou.

O representante do Detran explicou que os agentes de trânsito só convidam a soprar o bafômetro aqueles motoristas com claros sinais de embriaguez. São observados os olhos do condutor e seu comportamento. “O alcoolizado gesticula muito é mais crítico à abordagem”, completou Saraiva.

Pelos bares da cidade, alguns clientes revelaram outras saídas para evitar problemas com a fiscalização. O estudante de biologia Luiz Souza e Silva, 23, já dormiu no carro para não dirigir. Agora, ele e a colega de faculdade Natasha Kerr, 21, passaram a chegar mais cedo no bar. “Tomamos umas cervejas e depois ficamos horas sem beber, comemos alguma coisa e vamos embora bem mais tarde”, disse ela.

Dinheiro extra
Enquanto os donos de bares começam a se desesperar com a queda no movimento — em alguns casos de mais de 40% —, outra categoria de empresários comemora a lei seca. Os serviços de transporte de passageiros têm faturado com a turma que deixa de dirigir, mas sequer admite se divertir sem beber.

O empresário Pedro Neto, 53, experimentou o serviço no casamento do filho, em 26 de junho. A festa foi em Goiânia e todos os convidados de Brasília viajaram em uma van e dois carros alugados. “Teve uísque, cerveja, vinho e todo mundo bebeu”, contou. Os convidados voltaram para Brasília às 4h30 nos carros e vans contratados por Pedro.

O prestador do serviço, Deomindo Souza Neto, 30, está acostumado a transportar diplomatas e empresários que vêm à cidade. Mas, com a nova lei, vislumbrou a oportunidade de aumentar o uso da frota e o faturamento da empresa. “Tenho que aproveitar o momento”, resumiu.

Ele ainda não sabe quanto vai ganhar a mais, mas está comemorando o filão que abriu para seu negócio. “Na sexta-feira, fui buscar um cliente no aeroporto à noite e passei por seis blitzes do Detran”, afirmou. “Antes o contrato era por turno de 10 horas, agora vou passar a cobrar por hora. Ninguém vai precisar ficar esperando a van lotar, quem for pedindo, a gente já leva embora”, concluiu.

Outra opção para quem nem pensa em abandonar a cervejinha é tomar o produto sem álcool. Em um bar na 409 Norte, as vendas de cerveja cujo rótulo indica 0,0% de álcool mais do que duplicaram. “Antes da lei, vendíamos três caixas por final de semana. No último, saíram sete caixas”, comemorou o atendente Wellington Ramalho Leite, 40.