Placas pichadas, danificadas e encobertas pelo mato atrapalham o tráfego na rodovia Fernanda Carvalho Danificadas, as sinalizações não orientam em nada os motoristas nas rodovias Faltam placas de sinalização e sobra medo para quem trafega na BR-324.

Diante da precariedade da sinalização, motoristas que circulam ao longo dos 108km da mais movimentada rodovia baiana – 113 se contar o entorno da cidade de Feira de Santana – são obrigados a redobrar a atenção para evitar acidentes. Delimitação de faixa horizontal apagada, placas verticais pichadas, danificadas, encobertas pelo mato e até viradas de costa para o sentido do fluxo de veículos são alguns dos problemas mais comuns que, associadas aos buracos, tornam o trajeto Salvador-Feira um perigo. “Isso aqui é uma vergonha. E não é só a BR-324, não. As estradas brasileiras estão abandonadas. A gente dirige no escuro: no tato”, reclama o caminhoneiro José Antônio Gonzaga, motorista profissional há 33 anos.

Na tentativa de minimizar o risco, o governo lançou o Programa de Sinalização de Rodovias Federais (Pro Sinal), apresentado pelo Ministério dos Transportes. O anúncio de que R$275,3 milhões de recursos do Orçamento Geral da União serão revertidos em sinalização das estradas não tranqüiliza quem convive diariamente com o descaso com a segurança no trânsito. “Eles sempre prometem, até começam a fazer, mas nunca acabam”, queixa-se o descrente Gonzaga, que na manhã de sábado prestava solidariedade a um amigo vítima de acidente recentemente, ajudando-o a rebocar a carreta vermelha Truck 1620. O governo promete implantar nova sinalização horizontal e vertical em 48 mil quilômetros de rodovias do país.

Há 15 dias, a precariedade da sinalização resultou em mais de uma colisão nas imediações do município de Amélia Rodrigues. “O tráfego foi interrompido por causa de um acidente que já tinha sido causado pela falta de sinalização. Como não tinha policial sinalizando o local, um outro caminhão bateu no fundo do meu”, conta o motorista Everaldo Melo de Brito, que estima um prejuízo de R$30 mil com o acidente. “E ainda tenho que agradecer por não ter perdido a vida”.

A inexistência de acostamento em alguns trechos da BR-324 expõe ainda mais motoristas que enfrentam algum tipo de imprevisto, como colisão e quebra do veículo. “Se um caminhão desse pára, é acidente na certa”, comenta o caminhoneiro paulista Alcebíades Pereira que, diante da precariedade da estrada, é obrigado a concordar com a cobrança de pedágio nas rodovias. “Em São Paulo, a gente paga pedágio, mas tem estrada boa, bem sinalizada e com socorro imediato para qualquer situação de emergência”, compara.

Com menos quilômetros rodados, os motoristas de carros de passeio que eventualmente circulam pela BR-324 têm ainda maior dificuldade para trafegar na rodovia. Além das constantes e ineficientes operações tapa-buraco apagarem as sinalizações horizontais que delimitam pistas, a ausência de placas indicativas de limite de velocidade e de acesso a cidades faz muitos se perderem pelo caminho. “O mato cresce, ninguém corta e a gente não consegue enxergar as poucas placas que existem. Já errei o caminho algumas vezes andando aqui, principalmente à noite”, conta o comerciário Carlos Moura.

Morador de Feira de Santana, o autônomo Glauber Macedo confessa sentir medo quando, por trabalho, precisa dirigir até a capital. “Principalmente, depois do acidente que sofri há dois meses na entrada de Humildes, tenho medo”. O temor é partilhado pelos pedestres que se arriscam em cruzar a pé a perigosa via mal sinalizada. “Aqui, a gente tem que ter bastante atenção na hora de atravessar porque não tem travessia para pedestre”, conta o vendedor ambulante Roberto Gomes, que na luta pela sobrevivência não tem, muitas vezes, como deixar de expor os filhos pequenos ao perigo em alta velocidade. “Os carros aqui passam a mais de cem por hora. Já vi muita gente morrer aqui, inclusive parentes”.

Superintendente admite problema

Reconhecendo a insuficiência de placas de sinalização ao longo da BR-324, o superintendente do Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes (Dnit), Saulo Pontes, considera a rodovia que, de acordo com o último levantamento registra um volume médio diário de 35 mil veículos – há estimativas de que o fluxo seja bem maior, em torno de 45 mil – local prioritário para as intervenções de melhoria de sinalização. “Temos que colocar mais placas na BR-324”, admite Pontes, prevendo a chegada dos primeiros equipamentos no prazo de 15 dias.

Com projeto de intensificação da sinalização em fase de conclusão, Pontes explica que as placas que integram a sinalização vertical já estão sendo confeccionadas e devem ser assentadas em breve. Por ser considerada uma rodovia de forte caráter turístico, além das placas que regulamentam limite de velocidade e alertam para curvas acentuadas, declives, avisos de marco quilométrico também serão refeitos para facilitar a localização de turistas. “Vamos instalar também placas educativas com orientações à segurança do trânsito e preservação do meio ambiente”, acrescenta.

Até dezembro, a sinalização horizontal da BR-324 será refeita apenas nos trechos mais críticos, já que o Dnit espera aprovar até lá uma concorrência para restauração completa da rodovia que mobilizará investimento na ordem de R$250 milhões. No esboço do projeto, conta uma antiga reivindicação, a instalação de um paredão de concreto que separe as duas vias e impeça a invasão de pistas de carros que seguem em sentido contrário. Taxas refletivas, conhecidas popularmente como olho de gato, também devem garantir mais segurança para quem trafega no local à noite.

Outras rodovias já estão sendo contempladas pelo projeto que está sendo executado há uma semana. Além das BRs 101, 020, 242, e 116, as rodovias que foram estadualizadas pela Medida Provisória 082 – BA 110, BA 330 e BA 122 – e restauradas em caráter emergencial ganharão também nova sinalização. No trecho da BR-101, que liga Entre Rios a Cruz das Almas, os trabalhos já foram iniciados, mas por conta da chuva, a demarcação que tinha sido iniciada no km-75,5, na altura de Entre Rios, teve que ser transferida para o km-225,3, nas imediações de Cruz das Almas. “Já temos 10km sinalizados lá”, calcula Pontes. No km-32 da BR-116, divisa de Pernambuco com Bendegó, a demarcação já está sendo também executada. Já na BR-242, o serviço iniciado na estrada que liga Guanambi a Candiba, teve que ser interrompido por causa da chuva. “Estamos tendo que escolher os segmentos mais enxutos para trabalhar já que a reação da tinta com a chuva, diminui a vida útil da sinalização”, explica o superintendente do Dnit na Bahia.

Dos 48 mil quilômetros de rodovias brasileiras que ganharão nova sinalização, 4.332,2km integram a malha rodoviária do estado. Com previsão de investimento de R$26 milhões, o superintendente do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes ( Dnit), Saulo Pontes, já tem empenhado R$11 milhões em projetos para serem executados pelo Pro Sinal até dezembro. Como a meta nacional, a intenção é concluir metade do trabalho proposto até o final deste ano.