As filas irritantes e cada vez mais freqüentes a que são submetidos os motoristas do Rio Grande do Sul têm uma explicação estatístisca.
A frota de veículos no Estado aumentou 101% entre 1988 e 2001, enquanto a população cresceu 13% – de 8,8 milhões para 10,1 milhões de habitantes.
Em resumo, a taxa de crescimento de carros foi quase oito vezes maior do que a de pessoas. Em Porto Alegre, em duas décadas, essa proporção foi de cinco vezes, sem que esse crescimento tenha sido amparado em obras viárias de porte. O resultado é o congestionamento crescente das vias. Foram 111% de aumento da frota da Capital, contra 20% na população.
A explosão da frota acompanha a gangorra da economia brasileira nas últimas décadas. Entre 1988 e 1989, quando o país vivia sob a torturante hiperinflação, o crescimento no número de carros foi de meros 2,83% – o mais baixo nesses 13 anos.
Com o Plano Collor em 1990 e a busca dos brasileiros por um refúgio seguro para suas economias, o crescimento foi de 6,69%. O novo salto de consumo de veículos ocorreu em 1994, primeiro ano do Plano Real e da estabilização monetária, quando a frota gaúcha cresceu 7,6%, recorde jamais batido desde então. Em 1999 o real foi desvalorizado em relação ao dólar, e o percentual voltou a cair, mantendo-se o crescimento da frota entre 4% e 5% ao ano, desde então. O tamanho da frota é calculado com base no total de veículos (de todos os tipos) registrados no Estado, subtraindo-se a quantidade de unidades que recebem baixa no sistema para irem para os ferros-velhos.
O certo é que os gaúchos gostam muito de carros – e podem pagar por eles. Em Porto Alegre, a média é de um veículo para cada duas pessoas. Cada família tem, no mínimo, um automóvel. No país, a média é de um carro para cada cinco habitantes, o que resulta numa frota de 30 milhões de veículos.
No Rio Grande do Sul, o crescimento médio da frota está em torno de 5% ao ano – o mesmo que em Brasília, campeã no país em uso de automóvel – enquanto a média no Brasil é de 4% ao ano.
O consultor David Duarte Lima, doutor em Segurança no Trânsito pela Universidade Livre de Bruxelas, assinala que o fenômeno da multiplicação de carros atinge todos os Estados brasileiros, sem exceção. Ele culpa o transporte coletivo no país pela proliferação da frota de automóveis. Entre outros defeitos apontados pelos especialistas, os ônibus não oferecem preço competitivo aos passageiros (é comum que o dono de carro gaste menos em gasolina do que numa passagem de ônibus) e são desconfortáveis.
Além disso, o passageiro tem de caminhar alguns metros (ou centenas de metros) para pegar o ônibus ou depois que é deixado na parada, enquanto o automóvel o conduz diretamente ao destino. Tudo alimenta o sonho do carro próprio.
O diretor-técnico do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), Renato Rohden, assinala que o automóvel se transformou em um dos bens mais preciosos da população e culpa os vários governos federais pelo incentivo a esse tipo de transporte. Ele considera que o aumento da frota traz um problema de difícil solução para as autoridades, sobretudo na Região Metropolitana.
– A saída é ônibus ou trem. Se todos os 1,2 milhão de carros da Grande Porto Alegre inventassem de se dirigir para o centro da Capital num dia, jamais conseguiríamos desatar o nó. Seria o congestionamento permanente – alerta.
Um outro fã dos trens, como alternativa subterrânea, é o vereador e presidente da Câmara, Luiz Fernando Záchia, um dos mais ácidos críticos da situação de transportes em Porto Alegre.
Ele define como muito lento o crescimento da malha viária, se comparado com o da frota de carros. O vereador reconhece que ampliações de vias já existentes, como a Avenida do Trabalhador e a Terceira Perimetral, ajudam a melhorar o fluxo, mas não resolvem.
– Se estacionarem todos os carros da cidade junto aos meios-fios, vai faltar lugar. Isso porque a última grande avenida aberta foi a Beira-Rio, ainda no governo Alceu Collares. A saída seria o metrô, ligando o Centro à Zona Norte, a um custo aproximado de US$ 500 milhões.


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