As rodovias federais brasileiras estão em estado de agonia. Dos 57.122 quilômetros de estradas pavimentadas, quase a metade (46,4%) está em mau estado de conservação. Outros 35,4% estão em condições apenas regulares e só 18,2% se encontram em bom estado. Para reverter esse cenário caótico, que causa prejuízos à economia, ao impor custos maiores ao escoamento da produção industrial e agrícola, o governo federal prepara uma mudança de política para o setor, aumentando os investimentos na recuperação e conservação das rodovias e diminuindo os recursos para construção e duplicação de estradas.

Ao longo dos próximos quatro anos, a União vai investir R$ 1,2 bilhão por ano na recuperação e conservação de nossas esburacadas rodovias. O volume é 57,3% maior que a média anual de R$ 762,6 milhões aplicada ao longo dos últimos oito anos. Em compensação, a aplicação de recursos em novas rodovias cairá 23,7% nos próximos quatro anos (R$ 939 milhões por ano), na comparação com a média anual de 1996 a 2003 (R$ 1,23 bilhão por ano). No total, as estradas devem receber R$ 2,1 bilhões por ano.

A meta, otimista, é fazer com que, ao final de 2007, nenhum quilômetro de rodovia federal esteja em mau-estado de conservação, 41% estejam regulares e 59%, bons. A informação é do coordenador de Planejamento do Departamento Nacional de Infra-Estrutura em Transportes (DNIT), Jony Lopes. Temos hoje um passivo muito grande em estradas mal conservadas e precisamos reverter esse quadro , diz ele. Nos próximos quatro anos, vamos atuar em 35 mil dos 57,2 mil quilômetros da malha federal , afirma. Da malha rodoviária total, cerca de 5,5 mil são administrados por meio de concessões à iniciativa privada.

A recuperação da malha viária é crucial para a atividade econômica. Segundo dados da Associação Nacional de Empresas de Transportes de Cargas (NTC), 63% da movimentação de cargas no mercado interno é feita por meio de rodovias – as ferrovias representam 20% e as hidrovias, 13%. Influenciado também pelas más condições das estradas, o custo do transporte rodoviário acaba sendo até 3,5 vezes maior que o ferroviário. Além disso, estradas ruins aumentam em até 40% o custo do frete, segundo estimativa da Associação Nacional de Empresas de Transportes de Cargas (NTC).

Além de restaurar 35 mil dos 57,2 mil quilômetros, o DNIT também pretende, nos próximos quatro anos, investir R$ 939 milhões por ano na construção de novas rodovias e na duplicação de algumas já existentes. O montante é 23,7% inferior a média de R$ 1,23 bilhão aplicados por ano entre 1996 e 2003. Entre as obras previstas está a duplicação da BR-381 (Governador Valadares-Belo Horizonte, em Minas Gerais) e na pavimentação da BR-163, que liga Cuiabá a Santarém, no Mato Grosso.


Transportar fica 40% mais caro

O mau estado de conservação das rodovias federais brasileiras atinge diretamente o setor produtivo da economia, que escoa 63% de sua produção por meio do transporte rodoviário. Segundo dados da Associação Nacional de Empresas de Transporte de Cargas (NTC), as péssimas condições das estradas provocam um aumento de até 40% no custo operacional de um caminhão de carga. Entram nessa conta o aumento do tempo de viagem e do consumo de óleo diesel, o gasto com eventuais consertos dos veículos danificados em função de buracos e o risco de acidentes.

As estradas foram abandonadas, mesmo o Brasil sendo um País rodoviário , afirma Wágner Cardoso, secretário-executivo do Conselho de Infra-Estrutura da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A indústria se modernizou nos últimos anos, mas não houve investimentos que acompanhassem esse crescimento , completa.

Para o consultor em Logística de Transportes da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Luiz Antonio Fyet, as rodovias são hoje o grande gargalo do setor produtivo brasileiro. O Brasil não tem como crescer sem melhorar as condições para o escoamento de sua produção, e isso passa diretamente pela recuperação da malha viária , afirma.

A falta de infra-estrutura rodoviária afeta diretamente o setor de cargas, que emprega 3,5 milhões de pessoas e fatura por ano cerca de R$ 24 bilhões. A estimativa do setor é de que esse cenário comprometa cerca de 50% da produtividade das transportadoras. O péssimo estado das rodovias fazem com que as empresas sejam menos produtivas , afirma Flávio Benatti, presidente da Seção de Cargas da Confederação Nacional do Transporte (CNT). Temos rodovias de 5º mundo. Não se desenvolve a economia de um país sem investimentos em infra-estrutura , analisa.


Roubo de carga

Outro fator que impulsiona os custos do transporte rodoviário de cargas é a insegurança. O número de roubos de carga no país subiu de 2,6 mil ocorrências em 1994 para cerca de 8 mil em 2001, um crescimento superior a 200%. Os prejuízos financeiros cresceram ainda mais: de R$ 100 milhões em 1994 para R$ 500 milhões em 2001, um aumento de 400%.

Dados da NTC mostram que o chamado gerenciamento de risco – medidas adotadas pelas transportadores para reduzir as probabilidades de assaltos – representa cerca de 15% do custo do frete. Esse custo adicional envolve, por exemplo, serviços de escolta e rastreamento via satélite. Segundo a Associação Brasileira dos Transportadores de Carga, o custo com segurança pode corroer até 20% do valor do frete.

O aumento da violência nas estradas também pressiona o preço dos seguros das carretas. Além disso, são raras as seguradoras que aceitam fazer seguro da carga, segundo a Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e de Capitalização (Fenaseg). Tem lugares (rotas) onde as seguradoras não querem fazer seguro , diz o representante da CNI. A situação física e a insegurança de nossas rodovias é um dos grandes problemas vividos hoje por nossa indústria , resume.

DEIXE UMA RESPOSTA

Você digitou um endereço de e-mail incorreto!
Por favor, digite seu nome aqui