Cerca de 200 índios de 9 etnias, incluindo caiapós, apiacás, panarás, terenas e caiabis, interditaram ontem – pela segunda vez em menos de dois dias – a BR-163, entre os municípios de Santa Helena e Itaúba, no norte de Mato Grosso. O bloqueio isolou o Pará de Mato Grosso e ameaça o abastecimento de combustível e o transporte de comida entre os dois Estados.

Apenas ambulâncias são autorizadas a trafegar por este trecho da rodovia, entre Cuiabá e Santarém, que foi fechado pelos manifestantes com pedras e troncos de madeira. Os índios protestam contra o projeto de asfaltamento da estrada no trecho entre esses dois municípios, numa extensão de 1,7 mil quilômetros.

Eles argumentam que a obra pode causar impacto ambiental e social nas 11 aldeias próximas da estrada, que corta o Centro-Oeste e Norte do País. Nas 9 aldeias da região, vivem cerca de 4 mil índios.

Para justificar o protesto de ontem, os índios lembraram o impacto causado pela construção de outras rodovias, no ano passado. Um dos exemplos é a BR-163, que quase levou os panarás à extinção. A mesma obra causou transtornos também na área indígena Baú, localizada no sul do Pará.

Escoamento – Com 1.764 quilômetros de extensão, a Cuiabá-Santarém é considerada hoje a nova rota para escoar boa parte da produção do Centro-Oeste, exportada pelos portos do Sul e do Sudeste. Ontem, uma equipe da Polícia Rodoviária Federal tentou negociar com os índios a suspensão do bloqueio, mas eles se recusaram a liberar o tráfego de veículos. Os índios só aceitam negociar com algum representante da Presidência.

“As cidades estão avançando sobre as terras indígenas e crescendo cada vez mais. O governo tem que ter cuidado e ajudar a gente”, protestou o líder caiapó, cacique Megaron Txucarramãe, que foi administrador da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Colider.

Além de tentar assegurar uma garantia de que a rodovia não afetará as comunidades indígenas, os manifestantes cobram a revisão de limites das aldeias e projetos de infra-estrutura, como a abertura de novas estradas e acesso facilitado às comunidades. “Nós nos acostumamos às coisas dos brancos e não vamos ficar isolados o resto da vida”, afirmou o cacique Txucarramãe.