O projeto de duplicação da BR-101 enfrenta uma série de problemas e está sendo executado com lentidão. O superintendente do DNIT (Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes), José Narcélio Marques de Sousa, admite que as construções estão atrasadas e atribui à demora do processo de licenciamento ambiental de alguns trechos e à negociação com os proprietários das áreas desapropriadas. As chuvas também atrapalham o andamento das obras porque os operários e as máquinas permaneceram parados por longos cinco meses.

O sonho de deslizar através da BR-101 ampliada vai demorar uns meses para ser concretizado. Narcélio acredita que a duplicação dos 80 km da BR em território potiguar será entregue em julho de 2009. A execução da duplicação foi dividida em dois lotes. O Exército Brasileiro é responsável por 46,2km (entre Natal e Arês) e executou 50% do projeto. O DNIT tem planos de entregar um trecho da rodovia (de Parnamirim a São José de Mipibu) no próximo mês. A partir de Arês até à divisa com a Paraíba, cerca de 35 km, a obra está a cargo de um consórcio de empresas privadas.

O trecho é menor e tem apenas 30% do projeto executado, no entanto, guarda algumas particularidades. As empresas estão construindo 14 obras de artes especiais (pontes, viadutos, muros de contenção e passagens inferiores, que darão acesso às usinas), além de ampliar sete pontes já existentes. “Essas obras estão bastante adiantadas”, assegura Narcélio. Os processos de desapropriações das áreas que são da competência do consórcio estão no início das negociações, dificultando a execução da obra. “Realizamos o cadastro de algumas propriedades situadas no centro de Goianinha”.

Ao todo, foram pagos mais de 500 indenizações, de Parnamirim à divisa dos estados. As interferências de tubulações e fiações das empresas de distribuição de água, energia e gás também contribuem para o atraso das obras. “Felizmente, estamos resolvendo tudo isso com as prestadoras de serviço”, destacou Narcélio. O superintendente do DNIT citou a frase “Governar é abrir estradas”, famoso slogan do governo do ex-presidente Washington Luís, como a melhor forma de caracterizar o avanço significado pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para a área de transportes, que possibilita a duplicação da BR-101.

Ao mesmo tempo, a frase pode ser empregada no sentido literal, porque muitas áreas estão sendo devastadas para dar lugar a mais uma via de rolamento da rodovia. As obras são complexas e em muitos trechos implicam abertura de barrancos, desmatamento de terrenos à beira da estradas e aterramento de brejos. Tudo isso requer licenciamento ambiental.

“Somos muito criticados porque a obra é demorada, porque somos obrigados a desapropriar as famílias, mas nada disso tira a importância da obra, que contribuirá para o desenvolvimento do RN na prestação de serviços, no que se refere ao turismo, ao comércio e à indústria”, aponta Narcélio. A duplicação da BR-101 no RN foi orçada em R$ 350 milhões, porém, pode representar até 20% do valor inicial, devido à variação dos custos de material, mão-de-obra e serviços.

Trecho em Parnamirim está mais adiantado

Quem viaja com freqüência pela rodovia BR-101 reclama que a conclusão da duplicação está longe do fim, no entanto, é inegável perceber que a região Agreste se delineia em prol do desenvolvimento. As mudanças da paisagem comprovam a realidade: os imóveis que dificultavam a execução do projeto estão em processo de demolição e pequenas elevações de terra são desbravadas.

Contrapondo-se ao aspecto pacato das pequenas cidades localizadas às margens da BR-101, viadutos e pontes são erguidos. A rodovia respira progresso e será parecida com as estradas dos grandes centros urbanos. Os muros de contenção no canteiro central inibirão a travessia de pedestres, que só poderá ser realizada próximo aos retornos. O superintendente do DNIT, José Narcélio, garante que serão construídas passarelas, para evitar acidentes.

A reportagem da Tribuna do Norte percorreu a rodovia até o município de Mamanguape, na Paraíba. Por todo o caminho, enxerga-se vestígios da execução do projeto. O trecho onde a obra está mais avançada é entre Parnamirim e São José de Mipibu, prevista para ser liberada no próximo mês. A visão de uma longa malha dupla pode ser observada dos locais mais altos.

Um pouco antes do terminal rodoviário de São José, as demolições tomam conta da paisagem. Os processos de desapropriação foram concluídos com sucesso na maioria dos casos. Onde houve demora dos licenciamentos ambientais, a execução da obra está em fase inicial. A pista de rolamento por enquanto é apenas uma extensão avermelhada de barro. Seguindo até a divisa com a Paraíba, pode-se notar obras grandiosas em certos lugares, como em Goianinha, que receberá dois viadutos.

Quando se cruza a tênue linha da divisa, tem-se impressão de que o estado paraibano está mais próximo de concretizar o sonho da duplicação. O caminhoneiro paulista Juliano Ramos, 30, partiu do interior de São Paulo, rumo a Natal, e considera o trecho de Pernambuco o mais desolador. “Espero que essa obra seja concluída logo, para oferecer mais segurança para nós que vivemos nas estradas”.

Moradores admiram novidades da estrada

Pessoas adquirem novos hábitos e admiram a imensidão de ferro, concreto e asfalto que se forma ao longo da BR-101. Do alto de um barranco, um grupo de homens jovens e idosos joga conversa fora. Eles são alguns dos três mil moradores do distrito de Pitanga da Estrada, a 30 km do centro de Mamanguape. O agricultor Valdemar Antônio da Silva, 58 anos, diz que eles gostam de observar as novidades da estrada. “Aqui é nossa praça. Falamos de esportes, das olimpíadas e de política. Hoje estava chovendo e não fomos para o roçado. Ficamos só observando o andamento dessa obra enorme”, comentou o agricultor

A duplicação da BR-101 afetou diretamente o pequeno comerciante José Ricardo da Silva, 48 anos de idade, que vende balas, coco verde, água e refrigerante no km 37 após a divisa. Tão logo a obra começou, ele perdeu o ponto de comércio, localizado abaixo de uma árvore. O vendedor ambulante e uma colega vivem migrando às margens da rodovia. Ambos sonham com a conquista de um ponto fixo, quando a obra for concluída.

Na altura do km 160 do município de Canguaretama, moradores do distrito de Areia Branca se despedem da rodovia, substituindo as casas de taipa por imóveis construídos em alvenaria. Com o dinheiro conseguido com a indenização, eles estão vislumbrando mudanças quanto à qualidade de vida, como é o caso do agricultor Jorge Roberto da Conceição, 51. “Recebi R$ 8 mil e comprei uma casa do mesmo valor. Tenho oito filhos e agora será muito mais confortável, porque a nova casa tem três quartos”.

Subúrbio

O vizinho José Marcelino do Nascimento, 67, construiu seu casebre de taipa na rodovia há pelo menos 30 anos. Na última década, ele passou a morar sozinho e agora comemora a transferência para uma área do subúrbio da cidade. “Com as desapropriações, o valor dos imóveis subiu. O pessoal dizia um preço e agora pede outro valor. Estamos negociando da melhor forma possível. O fato é que agora podemos considerar que temos uma casa. Estava todo mundo apreensivo com essa situação”.

Em áreas mais valorizadas, o processo de desapropriações estão em fase inicial. No centro de Goianinha, duas idosas não fazem idéia de como o imóvel será avaliado. “Espero que seja pelo menos uma quantia que dê para nós comprarmos uma casa próximo à igreja. Estamos aguardando para saber quanto vai ser”, disse dona Bonina (apelido de Maria Umbelina Ribeiro, 76).