Como o cerco contra os motoristas alcoolizados só deve começar a ser fechado a partir da próxima quinta-feira (veja box), condutores aproveitaram mais um fim de semana regado a bebida. O anúncio do início das blitze pela Superintendência de Engenharia de Tráfego (SET) ainda não intimidou a maioria dos motoristas, que continua infringindo a lei de trânsito. Ontem, bares, restaurantes e barracas de praia de diversos pontos de Salvador estavam lotados de condutores que não dispensaram um copo de cerveja. Mesmo sabendo das novas restrições, motoristas desafiavam as fiscalizações. Alguns estavam visivelmente embriagados e dispostos a encarar o trânsito.

Na Praia de Piatã, quatro amigos bebiam desde às 14h. Dois deles estavam dirigindo. Os motoristas, que não quiseram ser identificados, apresentavam reflexos alterados. “Estou acostumado a beber e nunca me aconteceu nada”, justificava um deles. O condutor criticou a nova lei de tolerância zero e diz que não pretende acatá-la. “Acho isso uma palhaçada. Todo mundo sempre bebeu e nunca houve essa repressão. Não sou a favor e não vou deixar de beber por causa disso. Não vou andar de ônibus nem pagar táxi tendo carro”, afirmou.

O colega também é contrário à lei seca no trânsito. Para ele, a nova legislação não deve resolver o problema. “Os acidentes ocorrem por vários fatores, não só por causa da bebida. Os motoristas excedem a velocidade porque são imprudentes. Muitos não estão nem bebendo”, avalia.

O próprio dono de uma barraca de praia dava o mau exemplo. O motorista, que também não se identificou, desafiava as fiscalizações. Como comerciante do ramo de bebidas, ele prevê prejuízos. “Se eles querem proibir os motoristas de beber, deveriam proibir a venda de carros também. Sou totalmente contra essa lei porque todos os donos de bares e restaurantes terão prejuízos. Duvido que as pessoas paguem táxi sempre que forem sair”, argumenta.

Apesar da promessa de maior rigor, muitos condutores não acreditam que as fiscalizações sejam eficientes. A maioria diz que apenas os pontos estratégicos serão fiscalizados. Eles também citam que não há agentes suficientes para abordar os condutores. Em matéria publicada pelo Correio da Bahia no último dia 27, a SET mostrou outra fragilidade, assumindo que possui apenas 12 bafômetros para fiscalizar cerca de 620 mil veículos que transitam atualmente em Salvador.

“Eles prendem dez e vão deixar outros mil fazendo o que quiserem. Isso é só para mostrar que estão fazendo alguma coisa”, dispara o representante comercial Jânio Barros, 38, que bebia com os amigos num bar no Imbuí.

Se para a maioria a lei não deve ser útil, outros acreditam que ela trará bons resultados. O cineasta Francisco Argueiro, 45, prefere alternar os dias da bebida com a mulher, a produtora Joana Marambaia, 28. Ontem, como era ele quem dirigia, apenas um copo foi permitido. Para o cineasta, a lei é essencial para redução dos acidentes de trânsito. “Sou totalmente a favor, mas acho que a lei somente não adianta. Essa consciência deve ser uma educação que vem de dentro de casa. Acho que as propagandas de bebidas também deveriam ser extintas. Elas influenciam bastante as pessoas”, avalia.

“Blitze” começam quinta

A partir de quinta-feira, a Superintendência de Engenharia de Tráfego (SET) promete seguir à risca a Lei nº 11.705, em vigor desde 19 de junho, que tem a finalidade de estabelecer alcoolemia zero no trânsito brasileiro. As blitze vão acontecer de quinta a domingo, ao longo do dia, em diversos pontos da cidade, principalmente onde há concentração de bares ou realização de eventos. As equipes vão contar com um total de 2.500 bafômetros descartáveis – utilizados para identificar se há ou não a presença de álcool no organismo – e um total de 12 etilômetros digitais, que imprimem o nível de alcoolemia do condutor, um minuto após a realização do teste.

O coordenador de estatísticas da SET, Ivo Nascimento, explica que os bafômetros descartáveis servirão para selecionar os condutores que farão o teste no aparelho digital. “Após a impressão, a depender do quantitativo o motorista será notificado, terá o veículo apreendido, deverá pagar multa e pode perder a habilitação”, informa. O objetivo do órgão é fiscalizar o máximo possível na tentativa de reduzir o número de acidentes.

Segundo Nascimento, uma pesquisa realizada nacionalmente identificou que 60% a 70% das ocorrências com vítimas envolve condutor alcoolizado, mesmo que ele não seja o responsável pelo acidente e tenha baixas taxas de álcool no sangue. Dentre os estados avaliados incluem-se São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Santa Catarina, Recife e Salvador. “Ano passado, o número de vítimas fatais na capital baiana foi o menor desde 2000: 243. Já registramos cerca de 600”, ressalta. As estatísticas da SET, de 2005 até este ano, revelaram que, em cada 20 blitze realizadas pelo órgão, cerca de 230 condutores eram abordados. “Destes, identificamos que 12% haviam ingerido bebidas alcóolicas e 8% tinham teor alcóolico no sangue acima do permitido”.

Os condutores que apresentarem nível alcóolico superior a 0,3mg por ar expelido do pulmão estão sujeitos a multa de R$957,70, além de perder o direito de dirigir por 12 meses e de ter o veículo retido. Um decreto provisório ainda prevê a tolerância de dois decigramas de álcool por litro de sangue, o equivalente a um chope pequeno. Mas a partir de seis decigramas, o motorista pode cumprir pena de seis meses a três anos de reclusão.