A Polícia Federal prendeu ontem, numa ação simultânea em seis estados e no Distrito Federal, 15 suspeitos de integrarem uma máfia nacional de adulteração de combustíveis e sonegação. Entre os presos estão dois empresários do setor, policiais rodoviários federais, policiais civis, fiscais da Receita estadual no Rio e até um fiscal da Agência Nacional de Petróleo (ANP) que, nos anos 90, era o xerife das blitz em postos, quando os preços eram controlados pelo Departamento Nacional de Combustíveis (DNC), hoje extinto.

A operação da Polícia Federal – batizada de 1203, código internacional para designar a gasolina – mobilizou 142 agentes em todo o país e é resultado de denúncias do Ministério Público Federal e do rastreamento de mais de 30 mil ligações telefônicas. A ação atingiu os estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Mato Grosso do Sul.

Os supostos membros da organização criminosa tiveram sua prisão preventiva decretada pela 1 Vara Federal Criminal de Campos. Eles responderão a processo por formação de quadrilha, sonegação fiscal, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo profissional e exploração de prestígio. Todos foram levados para o presídio Ary Franco, em Água Santa, na Zona Norte do Rio, onde vão aguardar julgamento.

Em Campos, entre os 11 presos, estava Antônio Carlos Chebabe, o megaempresário do ramo de combustíveis, que foi localizado em casa, num prédio de 12 andares ocupados apenas pela sua família. Outros dois foram presos no Rio, um em Minas e um em Brasília. Chebabe é acusado de chefiar uma quadrilha que responde a inquérito por sete crimes federais.

PF prende parentes de empresário

Além de Chebabe, foram presos Marcelo Linhares de Matos, dono de uma distribuidora de combustíveis de Campos; Elizabete e Elisa Chebabe de Azevedo, respectivamente, filha e mulher de Chebabe; Djanir Soares de Azevedo, genro de Chebabe; Abel Benevides de Azevedo, pai de Djanir; e Abelmir Soares de Azevedo, irmão de Djanir. Foram presos também Emilton Azevedo de Morais, que coordenaria as operações da quadrilha e Claudinéia Pereira Barreto, funcionária da empresa Ubi Gás.

Agentes da PF estão investigando contatos telefônicos feitos pelo falso advogado Fábio Henrique Calil Gandara (também preso ontem) com Chebabe, nos quais ele pedia dinheiro para subornar um desembargador federal. A PF quer saber se haveria de fato suborno para liberação de cargas irregulares de gasolina e óleo diesel e concessão de hábeas-corpus para membros da organização que fossem presos ou se o advogado estava apenas tentando enganar Chebabe para ficar com o dinheiro.

Outros presos ontem foram o ex-chefe da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Campos Antônio César Leite Gondin, que chefiava uma delegacia no Espírito Santo; o inspetor da PRF José Olavo de Oliveira Pinto; o fiscal da Secretaria de Fazenda do Rio Jorge Sebastião Monteiro; e o fiscal da Agência Nacional do petróleo (ANP) Carlos Alberto Hasselman. Em Minas Gerais, foi preso o policial civil João Francisco Ribeiro Gomes.

Segundo a Polícia Federal, as empresas de Chebabe, todas sediadas em Campos, transportavam, por mês, de 25 milhões a 30 milhões de litros de gasolina e óleo diesel. A principal fraude estaria na aquisição de derivados de petróleo em São Paulo e o transporte para o Rio. Numa operação legalizada, Chebabe teria de pagar 12% de impostos na saída de São Paulo e mais 12% na entrada dos produtos no Rio. No entanto, segundo a investigação, ele simulava a remessa dos derivados para o Espírito Santo, onde a carga tributária é menor, e pagava apenas 7% sobre o valor da mercadoria. Contudo, a gasolina e o óleo diesel iam para Campos.

As fraudes teriam a conivência dos policiais rodoviários federais e dos fiscais da Secretaria de Fazenda e da ANP, de acordo com o delegado da Polícia Federal Reynaldo César.

– Com a fraude, a organização lucrava R$ 0,12 sobre cada litro de combustível transportado – disse.

A investigação foi comandada pelo delegado Vitor Hugo Poubel. A “Operação 1203” foi uma das primeiras vitórias da “Missão Suporte”, unidade de elite criada pelo ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos para combater o crime organizado.

Além das prisões, os policiais federais cumpriram 45 mandados de busca e apreensão. Na casa de Djanir Soares de Azevedo, genro de Chebabe, os agentes disseram ter encontrado documentos de remessas ilegais de dólares para paraísos fiscais das Ilhas Caymann e Ilhas Virgens Britânicas, além de uma empresa off-shore no Uruguai.

As remessas eram feitas por meio de contas do Banco Safra, de São Paulo para Nova York. Em um dos documentos, foi encontrado um comprovante de depósito de US$ 3,73 milhões (R$ 10,73 milhões).

Banco tem documentos retidos

Em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, os investigadores federais localizaram, num escritório de contabilidade, documentos que revelam que Chebabe possui três fazendas na região de Pedro Juan Caballero, no Paraguai. A PF começou a investigar possíveis vínculos do grupo de Chebabe com o tráfico de drogas e contrabando de armas na fronteira com o Paraguai.

Em São Paulo, além da documentação no Banco Safra, a PF apreendeu CPUs de computadores e caixas de documentos em pelo menos quatro escritórios de advocacia que prestavam serviços à máfia.

Na Bahia, a Polícia Federal apreendeu documentos e um computador na casa do inspetor da Polícia Rodoviária Federal, Jose Olavo de Oliveira Pinto, na cidade de Feira de Santana. Ele foi preso à tarde, em Brasília, e levado para o Rio.

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