As meninas que sobreviveram a um acidente no km 56 da MG-020, em Jaboticatubas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, passaram 60 horas sozinhas no meio do mato, e não 34 horas, como se pensou a princípio. Inicialmente, os familiares das primas Nicole Almeida Torres, de 12 anos, e Lorena Silvana Mara Silveira Torres, de 8, avaliaram que o comerciante Randal Silveira Torres, de 37, acompanhado da mulher e das crianças, teria saído de um sítio, onde passava o fim de semana, na madrugada de segunda, mas as crianças contaram que o desespero começou nos primeiros minutos do domingo.

De acordo com o relato das primas, Randal e sua mulher, Liamara Reges de Almeida, de 43, pais de Nicole e tios de Lorena, foram à festa de casamento de um amigo de infância de Randal, em Jaboticatubas. Por volta da 0h10 de domingo, o casal decidiu retornar para casa, no Bairro Planalto, na Região Norte de BH, pois não havia lugar para todos dormirem na casa. Eles também recusaram a opção de passar a noite no sítio de um vizinho do noivo, pois não conheciam o dono do local. Ainda segundo as meninas, Randal se perdeu no caminho de volta e se aproximou de um carro parado na estrada para pedir informações. Nesse momento, os ocupantes do outro veículo teriam anunciado um assalto.

Liamara pediu que as crianças se abaixassem, com medo de os ladrões atirarem, enquanto o marido acelerou. Os familiares acreditam que, na fuga, ele não percebeu a curva no km 56, tendo perdido o controle do Palio GYZ 6618 e caído na ribanceira. A queda, segundo policiais, foi de aproximadamente 80 metros. O carro capotou várias vezes, arrancou árvores e rachou até mesmo uma pilastra de concreto. Nicole ficou com o braço preso na lateral do automóvel. O casal morreu horas depois do acidente.

“A Lorena contou que gritava por socorro, mas ninguém respondia. Então, ela disse para si mesma: ‘Não vou ter medo e vou subir.’ Foi para a rodovia uma vez e nada. Foi pela segunda e resolveu ficar com os tios”, relatou o comerciante Alexandre Silveira Torres, de 40 anos, irmão de Randal. “Se alguém os tivesse socorrido no primeiro dia, talvez ainda estivessem vivos. Minha sobrinha contou também que a Liamara dizia para a Nicole ter calma que ela iria ajudá-la. A comerciante pediu à Lorena que fosse até o carro, encontrasse o celular e ligasse para o Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu), mas ela não achou. No meio da escuridão, todos se identificavam por vozes, não conseguiam ver uns aos outros”, disse.

As duas procuraram comida no carro, mas, como tudo se espalhou com a queda e a mata é muito fechada, não conseguiram encontrar. Para matar a sede, elas beberam álcool misturado com groselha usada para limpar os pneus. Havia uma garrafa do líquido no carro, pois Randal era diabético e o usava para a aplicação de insulina. Elas contaram que ouviram vozes na estraga e gritaram. Foram encontradas pelo taxista Arilton César Silva, de 37 anos. “As minhas sobrinhas foram heroínas”, ressaltou Alexandre.

Segundo a mulher de Alexandre, Mônica Michele Pinheiro Silva, de 29 , as duas contaram a mesma versão dos fatos em momentos diferentes e fizeram várias tentativas para serem salvas. “A Lorena pensou que se pagasse alguém poderia encontrar quem os ajudasse e, por isso, pegou todo o dinheiro da pochete do tio e subiu de novo para a estrada. Ela também pensou em abrir o radiador para pegar água, mas ficou com medo de se queimar”, afirmou. Mônica disse que os parentes não se preocuparam com a ausência dos quatro, pois Liamara e Randal tinham o hábito de passar o fim de semana no sítio e só voltar segunda-feira. “Quando vimos que eles não estavam em casa, pensamos que decidiram ficar mais um dia. Ligamos no celular, mas estava fora de área”, contou.

Enterro

O casal foi enterrado na tarde de quarta-feira, no Cemitério Bosque da Esperança, no Bairro Jaqueline, em Venda Nova. Os parentes ainda estão chocados com a tragédia e a maioria evitou comentar o acidente. O choro e a tristeza resumiram o sentimento de cada um. O destino de Nicole ainda não foi decidido e ela deve morar com quem escolher, provavelmente com algum tio ou com a madrinha, segundo Alexandre Torres.

De acordo com a assessoria do Hospital João XXIII, as crianças continuam em estado de choque. Lorena foi liberada no início da tarde de quarta-feira. Nicole ainda está internada e não há previsão de alta. Na terça-feira, ela passou por uma cirurgia reparadora para recuperar as funções da mão. Seu estado de saúde é estável, e os médicos descartaram a necessidade de amputação do braço que ficou preso às ferragens do carro.

Em Jaboticatubas, a Polícia Civil instaurou inquérito na manhã de quarta-feira para apurar as causas do acidente. O delegado Wilson Luiz de Oliveira informou que várias pessoas serão ouvidas, como o dono do sítio, o taxista e as crianças.