Especialistas alertam para o perigo de ônibus urbanos que circulam em rodovias, onde motoristas tendem a trafegar em alta velocidade.

O ônibus leva a classificação de semi-urbana. O que vale dizer que faz transporte interestadual de passageiros, mas com característica de coletivo que roda dentro de perímetro urbano, com duas portas, catracas e assentos sem cinto de segurança. Entre o Distrito Federal e as cidades do Entorno, a modalidade atende a 45 milhões de pessoas por ano. Representa 30% de todos os usuários que embarcam em um estado com destino a outro no país.

O coletivo da Taguatur que capotou causando a morte de 15 pessoas fazia parte desse sistema semi-urbano. Rodava com pelos menos 89 pessoas em uma estrada federal. Combinação que, para os especialistas, é inadequada. Não é recomendável que uma pessoa viaje a 70 km/hora sem cinto de segurança ou, o que é ainda pior, em pé , avalia Paulo César Marques, professor do Mestrado em Transportes da Universidade de Brasília (UnB).

Os perigo de passageiros viajarem em pé em percursos onde o motorista tem a oportunidade de pisar fundo – caso da BR-070 – também são alertados pelo professor José Matsuo, diretor do Centro de Formação de Recursos Humanos em Transporte (Ceftru), da UnB. Em caso de freada brusca, a pessoa encontrará dificuldade para se segurar. Para garantir um mínimo de segurança, informa ele, os ônibus não deveriam ultrapassar os 50 km/h.

Os usuários denunciam que superlotação é justamente um dos ingredientes nas linhas semi-urbanas. O servente de obras Ermínio Nunes dos Santos, 49, é um deles. Prefiro esperar mais tempo na fila e aguardar a ir em pé , disse o morador de Águas Lindas, que diariamente pega o coletivo da Taguatur na Rodoviário do Plano Piloto. A estratégia também é adotada pelo operador de máquinas Jachson Maximiliano de Souza, 46, também morador do município.


Concessões de uso

Entre o Distrito Federal e o Entorno, cerca de 600 ônibus atendem a 30 linhas semi-urbanas. As concessões de uso são responsabilidade da Agência Nacional de Transporte Terrestres (ANTT), também responsável pela fiscalização. Essa modalidade de transporte é realizada em outras rodovias do país, como a Via Dutra (São Paulo-Rio de Janeiro) e a Avenida Brasil (Rio).

O presidente da Associação Brasileira das Empresas de Transportes Rodoviários de Passageiros (Abrati), José Luis Santolin, alega que as linhas semiurbanas existem por conveniência do próprio usuário. Se não existissem, o preço da tarifa ficaria muito caro. O passageiro não teria condições de arcar com uma tarifa de um ônibus interestadual , explica.

Preço deve ser levado em conta, mas a segurança não deve ficar em segundo plano. Essa é a crítica que faz o professor Paulo César Marques, da UnB. E ele cobra ações tanto do empresariado como do poder público, seja local ou federal. O preço deve ser levado em consideração sim, mas é preciso investir em treinamento de motoristas, em aumento de frota e também em obras de engenharia. O governo deve exigir das empresas.

Marques defende adaptação das rodovias, com a criação de faixas exclusivas para os ônibus. José Matsuo, do Ceftru, concorda, e chama atenção das autoridades para a vigilância nas pistas. Assim, será possível conter a velocidade e, conseqüentemente, a violência no trânsito.

Francisco Cavour, assessor da Superintendência de Serviços de Transportes Terrestres da ANTT, garante que a agência mantém fiscalização voltada para as linhas semi-urbanas nos terminais rodoviários, garagens de empresas e nos postos da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Essas linhas tomam conta de 40% da atenção do nosso pessoal na região.


RADIOGRAFIA

87 linhas de transporte interestadual circulam no Brasil. Desse total, 30 fazem a ligação semi-urbana do Distrito Federal com as cidades do Entorno.

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