William Gomes da Silva, 30 anos, teve o pulmão perfurado e está com o pescoço envolto em um colar cervical. Mesmo assim, conseguiu autorização do Hospital Regional de Ceilândia para sair da unidade por um dia. A liberação é para que o consultor administrativo se despeça nesta quarta-feira (1º/07) do filho, Lucas Levi Gomes da Silva, 4; da mulher Ana Paula Soares, 22; e do sobrinho dela, Luiz Henrique Soares de Souza, 2. O sepultamento dos três está marcado para as 10h30, no cemitério de Taguatinga.

O motorista perdeu os familiares em um acidente ocorrido na noite de sábado na DF-190, entre Santo Antônio do Descoberto (GO) e Ceilândia. O carro da família — que levava ainda a mãe de Ana Paula, Nilma Soares Pinto, 42 — foi atingido em cheio por um caminhão dirigido por um motorista embriagado. Lucas foi levado ao Hospital de Base, mas não resistiu. Henrique e Ana Paula morreram na hora. Os corpos serão velados hoje, a partir das 8h, no Cemitério de Taguatinga. Nilma está internada, no Hospital de Base, com fraturas na face.

Em casa, no colo de uma das irmãs, Elaine da Silva, 32, e da mãe, Dulce da Fonseca, 55, William chorava. Ele lembrou que, por volta das 18h de sábado, quando a família voltava para casa, um caminhão que seguia na direção contrária invadiu a pista. “Pisei no freio por 15m, mas, quando vi que ele não voltava para sua faixa, entrei na contramão. E ele jogou o veículo para sua faixa de novo”, explicou.

Dulce soube do acidente por um telefonema da filha Elaine. Momentos após a colisão, algumas pessoas que foram ao local ver o que tinha acontecido ajudaram William a pegar o celular e ligar para a irmã. Em seguida, a notícia chegou aos ouvidos da mãe, que pegou a estrada na mesma hora para encontrar o filho. Segundo relatos da família, Dulce chegou ao ponto do acidente no mesmo momento dos carros do Corpo de Bombeiros.

Dois dia após a tragédia, ela se mostrou abalada, mas com força suficiente para lutar por justiça. Dulce afirmou que pretende atuar como uma espécie de fiscal do trânsito: ela quer ficar de olho nos motoristas e avisar a polícia sempre que encontrar alguém com sinais de embriaguez. “Não vamos trazer a vida deles de volta, mas lutaremos por justiça porque aquele homem acabou com a nossa família”, comentou.

A mulher mora no Setor de Chácaras de Ceilândia e aguardava o filho com a mulher e as crianças para dormirem na casa dela. Ela preparou um protesto para o velório da nora e do neto. Levará faixas e um carro de som, pedindo que a tragédia não fique impune. “As pessoas vão visitar o caminhoneiro. E eu? Vou visitar quem? Vou ver quem crescendo? Quem sorrindo? Vi a Ana Paula crescer desde os 10 anos, meu filho e ela estavam no melhor momento de suas vidas e tudo foi interrompido por um irresponsável”, lamentou.

Colisão frontal
Antes do acidente, o caminhoneiro Márcio Carlos Batista Fontaneli parou em dois botecos às margens da DF-190 para beber. Ao meio-dia, ingeriu doses de pinga. Às 17h, ficou uma hora e meia em outro bar bebendo cerveja. Ele tentava pegar um maço de cigarros quando bateu. Quem contou os detalhes foi o passageiro do caminhão Luiz Otávio Soares, 35, que recebeu alta médica e prestou depoimento na 19ª Delegacia de Polícia (Ceilândia).

Para o titular da delegacia, Raimundo Vanderly, o relato prova que Márcio bebeu mais do que confessou à polícia: duas doses de cachaça e duas garrafas de cerveja. Ele também não mencionou que havia parado em dois bares. O caminhoneiro está preso no Departamento de Polícia Especializada (DPE). O laudo da perícia que vai revelar as causas do acidente e a velocidade dos carros no momento da colisão deve sair em 15 dias.

Segundo William, antes da batida, Ana Paula gritou e deitou no colo dele, na tentativa de se proteger. “A bebida tirou a vida precocemente de duas crianças e de uma jovem cheia de planos. O Henrique era como um filho para mim”, disse o homem. “Ele sobreviveu para fazer justiça”, resumiu a mãe de William.

O pai e a mãe de Henrique, Israel Soares Pinto de Sousa, 26, e Maria Lourdes de Sousa Soares, 25, estão em choque. Henrique era o único filho do casal. Lourdes está grávida de nove meses e espera dar à luz uma menina na próxima quinta-feira. “Não acredito que meu filho está no céu. O quarto dele continua intacto”, revelou ela, em prantos. Israel é irmão de Ana Paula e viu o filho pela última vez na tarde de sábado. O menino pediu que ele não saísse para trabalhar e ficasse em casa com a família, mas o pai negou, dizendo que precisava ir ao serviço.

Israel soube do acidente por um telefonema do pai, que viu a notícia na televisão. Ele entrou em contato com o Corpo de Bombeiros, mas não conseguiu confirmar se Henrique estava no carro envolvido na batida. William ligou para Israel quando era transportado de ambulância para o hospital. “Eu corri para o hospital, mas meu filho não estava mais vivo”, disse. “Não estou acreditando que perdi um filho, ainda mais por causa de bebida”, desabafou Lourdes.