Um cenário atípico marca longos trechos da BR-135: a existência de um mutirão nas faixas da rodovia empenhado em tapar os buracos que tomaram conta da via.

Pessoas de várias faixas etárias e até mulheres grávidas disputam alguns trocados para ampliar a renda familiar. Esses mesmos buracos que atraem a população carente do entorno da BR potencializam os riscos de acidentes.

MONTES CLAROS – Um cenário atípico marca longos trechos da BR-135: a existência de um mutirão nas faixas da rodovia empenhado em tapar os buracos que tomaram conta da via.

Pessoas de várias faixas etárias e até mulheres grávidas disputam alguns trocados para ampliar a renda familiar. Esses mesmos buracos que atraem a população carente do entorno da BR – ela liga Belo Horizonte ao Norte do Estado – potencializam os riscos de acidentes.

Na última sexta-feira, por exemplo, o motorista de um Kadett caiu em um rio ao tentar desviar de depressões na pista, próximo a Joaquim Felício.

Os quatro ocupantes do carro morreram. Para verificar a conservação do asfalto, a equipe de O TEMPO percorreu cerca de 400 km da BR-135, a partir de seu entroncamento com a BR-040, em Curvelo, até a cidade de Montes Claros.

O percurso é marcado por vários obstáculos. Logo no início uma placa de sinalização aponta uma situação controversa, pois informa que o trecho composto pelos 85 km seguintes está em obras.

O que se percebe, entretanto, é o total abandono da estrada e condutores tendo que reduzir drasticamente a velocidade para desviar de cada uma das depressões.

A BR-135 foi uma das estradas federais mineiras atendidas pela operação tapa-buracos do governo Lula, iniciada a partir de janeiro do ano passado.

Os trechos entre os municípios de Engenheiro Navarro e Buenópolis e o segmento próximo a ponte do Leitão, no entroncamento com a BR-040, foram atendidos pelas máquinas do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit).

Em todo o Estado foram investidos R$ 68 milhões na operação, mas o asfalto não resistiu. Com o período das chuvas, a situação se agravou. A partir do entroncamento da BR-040, surgem os trabalhadores de uma operação tapa-buracos, improvisada e permanente.

A maioria reside em São José da Lagoa, distrito de Curvelo. Como é o caso de Antônio Jorge Soares da Silva, 39. Ele percorre 2 km de bicicleta para chegar até o local quase todos os dias da semana, principalmente em períodos de férias ou feriados prolongados.

Os instrumentos de trabalho são pás e terra. Silva e mais três amigos formam a “equipe” responsável por operar nesses primeiros metros da BR-135. Tudo que arrecada, conta, é dividido com um dos colegas.

“Dá para tirar R$ 20 por dia. Tenho que sustentar meus quatro filhos e isso ajuda bastante”, disse. Em fevereiro, seu contrato temporário de trabalho com uma siderúrgica será reincidido e não há possibilidade de renovação.

Ele relembrou que em 2006 o Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit) fez uma intervenção na rodovia para melhorá-la. “O governo teve de arrumar, ela estava ainda pior”, ressaltou.

O motorista que segue esse percurso também corta o perímetro urbano de São José da Lagoa, distrito de Curvelo. Lá, moradores e comerciantes das margens da BR também reclamam do desleixo com que é tratada a pista.

A comerciante Eliana Aparecida Alves de Souza, 46, revelou que esse problema persiste há anos. Uma parceria entre vizinhos providenciou a colocação de quase 20 cones e pneus na avenida vizinha à 135 para evitar que motoristas a usem como desvio.

Após Curvelo, crateras são maiores

MONTES CLAROS – A trafegabilidade da BR-135 melhora depois da cidade de Curvelo, mas os buracos persistem na rodovia com profundidades ainda maiores. Essa situação aparente, de uma pista mais conservada, leva alguns motoristas a aumentarem a velocidade e o risco de acidentes.

“A partir dessa cidade, as depressões estão espalhadas e o condutor corre mais. Porém, são surpreendidos com buracos. Está visível que a pista carece de reforma e o motorista de cautela para evitar tragédias”, disse o soldado da 6ª Companhia da Polícia Militar, Alderico Mendes Maia Júnior.

Anteontem, ele colaborou no atendimento de uma ocorrência de capotamento entre os municípios de Buenópolis e Augusto de Lima. Os três ocupantes do carro de passageiros tiveram ferimentos leves.

Manutenção
Quem está acostumado a circular pela rodovia critica também a forma como são feitos os reparos e a manutenção. Cláudia Maria Soares, 37, mora em Belo Horizonte e possui uma casa de campo próximo a Curvelo.

Segundo ela, o trecho entre aquela cidade e Paraopeba foi esquecido. “Esse local está intransitável. É um absurdo deixarem, às moscas, uma rodovia tão movimentada. Também é revoltante ver adolescentes e crianças fazendo o serviço do governo ao tamparem os buracos da pista”, disse.

“A estrada virou terra de ninguém”

MONTES CLAROS – Moradores do município de Augusto de Lima, na região Central, também reclamam do perigo constante de acidentes na BR-135. Para o comerciante Luíz Fernando Oliveira, 23, é comum ver derrapagens perto de seu estabelecimento.

Uma cratera tomou conta de meia pista, exigindo atenção redobrada dos condutores. Algumas placas indicativas do desvio também foram arrancadas por veículos desgovernados.

Ele afirmou que desde o início do período chuvoso as dimensões do buraco foram aumentando e não houve iniciativa eficaz para conter o avanço.

“De nada adianta colocar terra para fechar buraco, pois quando a chuva chega, leva tudo embora. Também não é interessante colocar camadas finas de piche com pó de brita. É preciso uma restauração”, disse, ao se referir a operação tapa-buracos do governo federal.

Oliveira mora há oito meses no município e, segundo ele, foram várias pneus do carro perdidos por causa dos buracos, já que ele utiliza com frequência a BR-135 para ir até Buenópolis, a 30 km de Augusto de Lima.

“Esse pequeno trecho é suficiente para ver algumas ocorrências graves”, diz. Na avaliação dele, a imprudência de alguns motoristas serve apenas para piorar a situação.

Mobilização
A população do distrito de São José da Lagoa está mobilizada em sensibilizar a Prefeitura de Curvelo no sentido de melhorar as condições de tráfego na BR-135, no trecho que corta a região.

A comerciante Eliana de Souza recolheu mais de 200 assinaturas para mostrar à administração do município que a situação é urgente.

“O caso virou terra de ninguém. A gente não sabe mais onde recorrer. Em cada esfera de governo que procuramos eles empurram para outra. Nesse jogo, quem sai perdendo é toda a cidade.”