Editorial: Em primeiro lugar, uma categoria cujos profissionais trabalham em média 80 horas por semana, inclusive grande parte dos empregados, dormem numa cabine minúscula cerca de 200 dias por ano, longe da família, com um olho aberto e outro fechado pelo medo do roubo do caminhão e da carga, são assediados por traficantes e ainda esperam horas ou dias nas filas para carregar e descarregar, sem a menor condição de conforto, tem muitos motivos para estar revoltada
Sem dúvida os caminhoneiros são fundamentais para o funcionamento do país e a paralisação deixou isso evidente. Entretanto, podemos imaginar as consequências se os profissionais da Saúde pararem, os que atuam nas empresas fornecedoras de água ou luz, os lixeiros, os policiais, enfim, existem muitas categorias essenciais que quando param de trabalhar tem impacto semelhante, embora com cenários diferentes. Basta imaginar a ameaça agora de paralisação dos petroleiros. Caso os caminhoneiros voltem a trabalhar normalmente também serão reféns da falta de combustível e consequentemente vão ficar parados, mesmo querendo transportar.
A pauta de reivindicações dos caminhoneiros revela contradições. Os supostos líderes do movimento discursam falando da importância de zerar o PIS, Cofins e Cide sobre o diesel. Naturalmente que para reduzir o custo do transporte por baixar o preço do combustível. Fazem contas complicadas imaginando qual será a redução na bomba. Entretanto, pelo que conhecemos do setor, não parece natural caminhoneiros falarem em PIS, Cofins, Cide e fazerem contas tão complexas. Parece muito mais um discurso dos donos da carga, de transportadoras, do que de caminhoneiros autônomos, quanto mais de motoristas empregados.
Vamos imaginar que o Governo decidisse que caminhoneiro não pagaria mais pelo diesel, que seria de graça e que também todos os pedágios deixassem as carretas passarem sem pagar. Os caminhoneiros trabalhariam sem cobrar nada? Lógico que não. Portanto, o que é essencial para o caminhoneiro autônomo não é quanto custa o diesel ou pedágio mas receber do contratante valor justo pelo seu trabalho que é transportar. Caminhoneiro não ganha no diesel nem no pedágio, ele ganha pelo serviço de transporte.
Por que os movimentos não denunciam quem explora a categoria e paga cada vez menos pelo frete? Por que não dão nome aos bois? Não adianta falar genericamente. É preciso dar o nome das empresas. Por que não revelam os donos da carga que exigem viagens que para serem cumpridas o motorista tem que viajar muitas vezes sem dormir, dirigindo em excesso de velocidade e frequentemente com excesso de peso?
Essa situação leva inclusive muitos profissionais a usarem drogas para suportar a jornada, contribuindo para aumentar o risco de acidente, afetando sua saúde, além de colaborar para a concorrência desleal. Quem usa droga para ficar acordado tira serviço de quem não usa, aceita transportar em condições desumanas e ajuda a baixar o valor do frete.
Por que os líderes do movimento não divulgam os locais com péssimas condições em que esperam para carregar e descarregar, além do tempo que perdem porque os caminhões são usados como depósito?
Por que não reclamam de carretas cada vez maiores, que sequer poderiam circular nas rodovias brasileiras porque colocam em risco todos que dirigem? Esses gigantes reduzem o número de caminhões que serão utilizados, portanto, tiram do mercado oportunidade de trabalho e frete.
Nenhum dos supostos líderes que falam em nome dos caminhoneiros colocam como prioridade reduzir a jornada de trabalho ou aumentar salário dos empregados. Fica evidente que o movimento esquece novamente de 2/3 da categoria. Por que essa omissão?
É bom lembrar que quando estava em vigor a chamada Lei 12.619/12, conhecida como Lei do Descanso, o caminhoneiro tinha que repousar pelo menos 11 h entre jornadas e não podia dirigir mais que 4h30 sem parar. Os caminhoneiros autônomos e seus sindicatos exigiram aumentar a jornada e o tempo de direção contínua. Atualmente, com a Lei 13.103/15, o descanso entre jornadas é de 8h e o tempo de direção contínua é praticamente infinito porque o motorista pode alegar que não parou porque não encontrou lugar seguro para isso. A própria CLT foi revogada quanto a jornada. A lei permitia apenas 2 h extras, além das 8h e os caminhoneiros autônomos, transportadores e embarcadores conseguiram aumentar para 8h + 4 h. São tantos os absurdos que hoje dois motoristas podem revezar 72h sem parar num caminhão em movimento. É considerado descanso dormir na cabine com o veículo andando na estrada. Essa aberração foi apoiada pelos autônomos e nunca agradou a categoria dos empregados mas jamais os caminhoneiros autônomos se rebelaram contra isso. Por que?
No nosso facebook os debates foram intensos quando tentavam revogar a Lei 12.619/12 e nós sempre alertamos que o aumento da jornada e do tempo de direção significava mais horas de caminhão e mão de obra disponível no mercado e isso pressionaria o valor do frete para baixo. O que interessava a quem explora a categoria: maus embarcadores, maus transportadores e maus clientes da carga. Os autônomos diziam que não era papel do Governo dizer quantas horas eles podiam dirigir ou trabalhar. Esqueciam de que colocavam em risco a segurança de todos, prejudicavam brutalmente os motoristas empregados, e contribuíram para baixar o valor do frete.
Portanto, somos totalmente a favor do aumento do frete e também da redução de jornada e aumento dos salários. Mas quando os caminhoneiros colocam no seu discurso como principais pleitos a redução do diesel e dos impostos, estão apenas adiando o problema, porque quem paga pelo frete vai reduzir o preço que paga pelo transporte e isso vai incluir o ganho do caminhoneiro. Assim foi e assim será.
Outro problema é que muitos supostos líderes são ruins de conta. Quando o Governo aceitou isentar a cobrança do eixo suspenso dos caminhões vazios nas rodovias federais, muitos comemoram como conquista. Mas logo depois a ANTT autorizou aumentos de pedágio para “compensar” o prejuízo das concessionárias de rodovias por não receberem mais por esses eixos. Na prática o custo do eixo ficou mais caro e os “líderes” não perceberam isso ou acharam que esse custo seria absorvido por toda sociedade. Enfim, transferiram o prejuízo sem perceber que também perdiam.
O mesmo vai ocorrer agora nas rodovias paulistas. O Governador promete acabar com essa cobrança mas logo a Artesp aumenta o pedágio para diminuir o “desequilíbrio financeiro” das concessionárias. Outra medida que podem tomar é prolongar os contratos de concessão das rodovias e com isso , ao invés de ter a oportunidade de novos leilões das concessões , que baixam normalmente o custo do pedágio, teremos as mesmas concessionárias e empreiteiras cobrando valores elevados.
O mesmo aconteceu quando o Governo anterior liberou linhas de crédito e muitas transportadoras e caminhoneiros saíram renovando a frota. Esqueceram que aumentaram a oferta de frete e que teriam de pagar a conta. Com a crise econômica o valor do frete caiu e a conta não fecha.
Uma aspecto positivo neste movimento é que os caminhoneiros entenderam que não tem líderes de fato. Os sindicatos, associações e suas variáveis, que dizem representar a categoria são compostos por pessoas que estão há 20, 30 anos, vivendo como sindicalistas, muito mais próximos de quem explora os caminhoneiros do que efetivamente atuando em defesa dos interesses da categoria. Eles frequentam os mesmos ambientes, restaurantes, hotéis e vôos dos políticos e maus empresários que exploram os motoristas. Ao mesmo tempo o Governo já percebeu que são líderes que não lideram. Qual deles foi para a pista pedir a liberação das estradas? Falam em vídeo mas não comparecem aos pontos de paralisação.
O movimento dos caminhoneiros precisa focar em aumentar a remuneração pelo valor do seu serviço. No caso do autônomo é ser melhor pago pelo frete, valor que permita pagar para estacionar com segurança na estrada, tomar um banho decente, se alimentar e levar dinheiro para casa. Caminhoneiro não precisa receber nada de graça, apenas merece e tem direito de ser remunerado dignamente pelo seu trabalho. Para isso precisam de coragem para mostrar quem os explora. O mesmo ocorre com os empregados. Precisam ter redução de jornada, salário digno e condições decentes de descanso e trabalho.
O atual Governo e os anteriores tem muitas culpas mas o valor do frete não é responsabilidade das autoridades. É negociação de mercado e parece no mínimo estranho os caminhoneiros atacarem os governantes e ao mesmo tempo pedirem soluções para o Governo ou implantação de outro Governo, seja militar ou não.
Levando essas informações que mencionamos para a sociedade, mostrando o grau de exploração a que são submetidos, dando nomes aos senhores de escravos que os exploram, os caminhoneiros tem mais possibilidade de conquistar o apoio da opinião pública. Como disse um caminhoneiro veterano, que já passou por várias greves e paralisações, por que não param na porta dos donos da carga e negociam melhor valor no frete? A sociedade vai apoiá-los.
Muitos caminhoneiros estão iludidos com o suposto apoio popular. Num primeiro momento isso até acontece, em virtude da revolta da população com políticos de todas as correntes. Entretanto, com a falta de produtos, remédios, transporte, a população vai se revoltando contra a categoria. Nem dentro de casa eles tem unanimidade, assim como muitos caminhoneiros estão parados nas estradas por medo de retaliação e não efetivo apoio ao movimento. Basta uma escolta segura que eles vão embora.
Por fim, é preciso bom senso e muita atenção. Já existem movimentos políticos de esquerda e pró intervenção militar que se aproveitam para usar politicamente o movimento. Surgem apoios e adesões que são na prática de manipuladores dos motoristas. Para conquistar a sociedade não será mantendo as paralisações que a categoria vai ser bem sucedida.
Já a sociedade também é em parte responsável por essa crise. Precisamos mudar e entender que está na hora de exigirmos o transporte socialmente responsável. Como consumidores nos preocupamos em saber se o móvel foi produzido com madeira que tenha selo verde, portanto, produto ecologicamente responsável. Queremos comer frutas e verduras sem agrotóxico, queremos carne de qualidade, leite que não esteja contaminado, mas não nos preocupamos com as condições do transporte. Não questionamos quais as condições de trabalho do motorista que trouxe a mercadoria. Parece que esquecemos que por trás do volante tem um ser humano e não uma máquina. Está na hora de não aceitarmos comprar produtos de quem explora os caminhoneiros. Essa é a melhor forma de apoiar esses trabalhadores que são tão importantes para o desenvolvimento do país.

Rodolfo Rizzotto – Coordenador do SOS Estradas e Editor dowww.estradas.com.br

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