Lucas perdeu a vida poucos meses após esta foto. São quase dez anos de impunidade Foto; mídias sociais

Neste domingo (16) é celebrado o Dia Mundial em Memória das Vítimas de Trânsito. No Brasil, são 36 mil mortos por ano e pelo menos 200 mil pessoas com invalidez permanente, segundo critérios do extinto DPVAT. Mas o que está por trás desses números?

Estudos realizados durante a pandemia mostram que cada morte afeta direta ou indiretamente entre 60 e 120 pessoas. No trânsito, esse impacto pode ser ainda maior, em razão do grande número de vítimas que sobrevivem com sequelas irreversíveis. São jovens que sofrerão por décadas — e, junto com eles, suas famílias, amigos, colegas de trabalho e todos com quem conviverem ao longo da vida.

Quando ocorre uma morte em que a vítima não teve responsabilidade no sinistro, o sofrimento se agrava nos longos processos judiciais em busca de uma justiça cada vez mais rara. A sensação de impunidade corrói. À dor da perda soma-se o esgotamento físico, emocional e financeiro de familiares que lutam para evitar que outros passem pelo mesmo drama, mas que se deparam com um sistema que, muitas vezes, protege criminosos do trânsito.

Um exemplo emblemático é o de Renata, mãe de Lucas Magalhães dos Reis.
Seu filho, então com 16 anos, visitava a avó paterna, dona Vera. Ambos caminhavam até o ponto de ônibus quando foram atropelados por um motorista em alta velocidade. A avó sobreviveu, mas Lucas foi arremessado por mais de 15 metros e morreu. O último telefonema recebido pelo jovem foi do professor, estranhando seu atraso — ele sempre chegava no horário.

Dona Vera permaneceu meses com dificuldades locomotoras. A outra avó, que cuidou do enterro, passou muito mal e foi internada com problemas cardíacos, com os quais conviveu por anos, apesar de até então gozar de boa saúde. Ela faleceu poucos anos depois — por coincidência ou não — na mesma data em que Lucas morreu. Mas ela não aparece nas estatísticas como vítima de trânsito, embora tenha sido o falecimento de Lucas que provavelmente causou sua morte prematura.

A irmãzinha de 1 ano e 5 meses, que adorava o irmão, não compreendia sua ausência e apesar da tenra idade, sofreu como os demais membros da família. Ela também não está nas estatísticas, assim como todos os demais afetados por mais uma tragédia no trânsito.

Nove anos depois, o responsável pela morte de Lucas — R.M.S., filho de uma superintendente do Detran-SP — continua impune, com o processo ainda tramitando na Justiça.

Renata nos enviou uma lista das pessoas afetadas diretamente pela morte do filho. Além dos pais, avós, irmã, tios e primos, estavam 35 colegas de escola, 10 professores, funcionários do condomínio, amigos da mãe, amigos do pai e seus familiares. Basta olhar aquela simples folha com nomes para compreender a dimensão humana da tragédia.
E esta é apenas uma, entre as milhares que acontecem todas as semanas no Brasil.

Afinal, entre mortos e inválidos, 4.500 pessoas são afetadas a cada sete dias.

A perda da vida de Lucas e da sua avó materna — que provavelmente ainda estaria entre nós, deveria servir de lição. Assim como as vidas de todas as outras vítimas, que se vão sem que aprendamos o suficiente com suas histórias para evitar novas tragédias evitáveis.

No entanto, continuamos apenas contando corpos.
Nas redes sociais, milhares de vídeos mostram condutores de carros, caminhões e motos cometendo crimes de trânsito enquanto acumulam seguidores. Quando morrem, recebem cortejos e são tratados como heróis que “morreram fazendo o que amavam”.

Essa hipocrisia contamina a sociedade, cria influenciadores da morte, monetizados direta ou indiretamente pelas plataformas. Na Justiça, a morosidade revela uma tolerância perigosa, tratando crimes de trânsito como simples acidentes.

As famílias enfrentam a dor da perda e o suplício de anos de luta contra a impunidade. Nas plataformas populares — YouTube, Instagram, Facebook, TikTok e outras — assistem a mais um capítulo do descaso: conteúdos que glorificam a imprudência, enquanto autoridades se omitem e nada fazem para impedir que esse material siga alimentando novas tragédias. As próprias plataformas contam com apoio político e, muitas vezes, com a complacência de setores do Ministério Público, que combate “fake news”, mas ignora crimes de trânsito cometidos às claras — com os próprios autores fornecendo as provas.

Para quem luta para mudar esse cenário, resta pouca esperança.
Autoridades inertes contam com uma sociedade igualmente inerte, que ainda não compreendeu a dimensão da tragédia no trânsito. Milhões de brasileiros são atingidos todos os anos — entre vítimas e seus familiares — e, mesmo assim, seguimos na roleta russa da morte no trânsito, tratando tudo como fatalidade, como acidente.

Para os otimistas, o aviso é duro: no próximo Dia Mundial em Memória das Vítimas de Trânsito, a única diferença será que teremos mais vítimas, mais sofrimento e as mesmas manchetes de sempre.