Problemas ocorrem 2 dias após acidente com morte causado por erro no sistema automático. Somadas ao excesso de velocidade dos motoristas, falhas põem viajantes em risco; caminhão ficou parado 2 segundos no meio da pista

Falhas no sistema de abertura das cancelas do Sem Parar/ Via Fácil (cobrança automática usada em todas as rodovias pedagiadas de São Paulo e do Rio), somadas a imprudência e excesso de velocidade dos motoristas, põem em risco diariamente a vida do viajante, conforme constatou a Folha ontem pela manhã, na rodovia dos Bandeirantes (que liga São Paulo ao interior do Estado).

Em 30 minutos, das 10h às 10h30, a reportagem flagrou três momentos em que duas das quatro cancelas do Sem Parar do km 36 -sentido capital, em Caieiras (Grande São Paulo) não abriram para a passagem dos veículos, obrigando os motoristas a pararem por até 27 segundos no meio da pista.

A velocidade máxima permitida para passar pelo Sem Parar é de 40 km/h, suficiente para percorrer 300 metros (ou dez vezes a distância ideal entre veículos para passar pelo pedágio, que é de 30 metros). Acima de 60 km/h a cancela não abre a tempo de evitar o choque.

Primeiro, às 10h06, um caminhão Mercedes teve que parar por 27 segundos; às 10h12, um Fiat Uno parou por 8 segundos; e às 10h23, outro caminhão Mercedes parou por 11. Os três motoristas ligaram o pisca-alerta, aguardaram até a cancela abrir e seguiram viagem. Não foi possível ver a velocidade dos veículos.

Acidentes

Paradas como essas duas provocadas por falha do equipamento de leitura automática da passagem dos veículos e uma por adulteração da etiqueta eletrônica fixada no para-brisa, segundo o Sem Parar favorecem acidentes como o engavetamento de quatro veículos que matou uma pessoa no mesmo lugar nesta semana.

Na manhã de segunda-feira, segundo a polícia, um caminhoneiro reduziu a velocidade ao ver que a cancela não havia levantado e foi atingido por um carro cujo motorista morreu e mais dois caminhões. As causas são investigadas.

Foi o primeiro acidente com morte na rodovia ligado à não abertura de uma cancela já houve outros com feridos, diz a concessionária AutoBAn. Mas falhas “não são raridade”, segundo motoristas.

“Hoje [ontem] mesmo aconteceu comigo. Um caminhão freou de vez na minha frente [no Sem Parar do km 36]. Parei a dois metros dele”, disse o caminhoneiro Thomas Pires, 22, que viaja diariamente entre São Paulo e Rio Claro (a 181 km da capital paulista). “Vejo [cancela falhar] pelo menos uma vez por semana.”

Em 2007, uma cancela da pista marginal da rodovia Castello Branco (sentido interior-capital) não abriu quando o empresário Luis Angel dos Santos passava de carro. “Parei, meu carro foi atingido por um micro-onibus. O carro teve perda total”, diz Santos, que saiu ileso. No ano passado, diz ele, situação semelhante se repetiu, em outra cancela da mesma rodovia. “Não pensei duas vezes: atropelei a barreira e joguei o carro para a esquerda.”

Velocidade excessiva

A Folha também verificou que as placas e os radares com mostradores digitais nas praças de pedágio são enfeite para a maior parte dos motoristas: em dez minutos, a reportagem contou 101 carros acima da velocidade permitida (dez por minuto). O máximo observado foram 64 km/h, 60% além do indicado.

Os radares, segundo a Artesp (agência de concessões de rodovias) são meramente ilustrativos não são usados pela polícia para aplicar multas.

Rodovias de Minas, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul também usam o Sem Parar (conhecido como Via Fácil), que, no país, têm 1,3 milhão de usuários em 483 pistas.

Problemas são “consideráveis” e serão analisados, diz empresa

A STP, que administra o Sem Parar, reconheceu que a incidência de falhas vista pela reportagem (uma a cada dez minutos) é “considerável” e será “analisada”.

“São alertas que vêm para ajudar a gente a melhorar o sistema”, diz o diretor da empresa, Valdir Moreira, que não especificou medidas.

Segundo a empresa, paradas nas cancelas automáticas são previstas no sistema, adotado em 2000 em SP, sobretudo as por falta de pagamento da taxa embora os veículos flagrados ontem estivessem com pagamento em dia, disse a STP.

A não abertura das cancelas pode ocorrer por quatro razões, afirmou Moreira: 1) falha de equipamento de pista [antenas que captam sinais das etiquetas eletrônicas fixadas nos veículos]; 2) falta de pagamento; 3) falta de bateria da etiqueta; e 4) adulteração da etiqueta, para uso em outro veículo.

A empresa atribuiu os problemas de ontem a “falhas na leitura do TAG [etiqueta eletrônica]”. “Um dos caminhões carregava uma escada, o que pode ter dificultado a leitura.” No caso do carro, diz Moreira, a etiqueta havia sido adulterada.

Parte do risco é atribuída à “imprudência” e ao “excesso de confiança no sistema” por parte dos motoristas. “O sistema foi feito para funcionar [com veículos] a 40 km/h e distância de 30 metros entre eles. Se todos andassem como o projeto foi previsto, não haveria risco.”

A empresa recebe mensalmente 1.300 queixas por não abertura de cancelas do Sem Parar/Via Fácil nos seis Estados -o total de reclamações de é 86 mil por mês.

A STP é controlada pela CCR gestora do sistema Anhanguera-Bandeirantes e da rodovia Castello Branco e tem como acionistas a EcoRodovias (que controla o sistema Anchieta-Imigrantes) e OHL (Régis Bittencourt e Fernão Dias).

A Artesp (agência de concessões de rodovias) disse não ver necessidade de alteração no sistema de cancelas, mas estuda a adoção de radares autorizados a multar motoristas por excesso de velocidade nos pedágios.