VÍDEO: Cargas com toras de eucalipto são perigo constante nas BRs em Mato Grosso do Sul
PERIGO: Cargas com toras de eucalipto são perigo constante nas BRs em Mato Grosso do Sul. Foto: Divulgação/PRF-MS

Flagrantes da Polícia Rodoviária Federal mostram carretas circulando sem os cuidados necessários à segurança viária; em alguns casos, ocorreram acidentes decorrentes da negligência

O transporte de carga de toras de eucalipto nas rodovias federais BR-262/MS, BR-163/MS e BR-267/MS tem sido alvo de uma preocupação recorrente da Polícia Rodoviária Federal (PRF), no Mato Grosso do Sul, diante de várias irregularidades já detectadas pelos policiais em fiscalizações recentes.

De acordo com o inspetor da PRF, Tércio Baggio, entre os problemas constatados, estão a falta de manutenção nos veículos, cargas sem as amarrações adequadas (sem  travamento), o que pode provocar sinistros (acidentes), como o que já foi registrado envolvendo um micro-ônibus.

Segundo Baggio, o caminhoneiro inicia a viagem sem esse travamento, e, na rodovia, com a vibração, a tora pode cair na via e provocar um acidente. “O condutor vai seguir a viagem sem perceber o que aconteceu. Por isso, a importância da amarração e o acondicionamento das toras de eucaliptos serem feitos de uma forma correta, antes do transportador/embarcador seguir viagem. Só para a empresa Suzano, são quase 400 carretas circulando 24 horas por dia. E esse é um risco que tem sido frequente em nossas BRs. Eu mesmo já atendi um motociclista que bateu em uma toras dessas e causou um acidente“, disse.

Micro-ônibus

Em outra ocorrência, o inspetor Baggio disse que um micro-ônibus foi atingido (ver imagem) por uma tora que se desprendeu da carreta a tingiu a lateral do veículo perfurando-a.

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ACIDENTE: Micro-ônibus atingido por uma tora que se desprendeu da carreta perfurando a lateral. Foto: Divulgação/PRF-MS

Perito faz alerta sobre os riscos da carga para fora

O Estradas ouviu também o perito em sinistros de trânsito, engenheiro Rodrigo Kleinübing, que faz um importante alerta: “Essas empresas celuloses acabam terceirizando o transporte, só que elas respondem solidariamente, tem que ter todos os cuidados. Pelas imagens fica evidente que há um desleixo com relação ao acabamento da carga. Está sobrando carga para fora do compartimento de carga, o que torna a carga perigosa. É preciso ter mais um cuidado nessa questão”, explica.

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AMARRAÇÃO: Cargas com toras de eucalipto são perigo constante nas BRs em Mato Grosso do Sul

Kleinübing explica que a carga de toras apreendida está mal acabada, saindo para fora do perímetro do compartimento de carga; o que já é uma infração de trânsito, pois pode gerar um acidente, além de estar propensa a cair na pista. “Imagina, uma tora ou um pedaço de tora cair na pista e uma motocicleta ou um automóvel se deparar com isso?”, disse.

Peso da Carga

Ainda de acordo com Kleinübing, as empresas também têm que cuidar do peso da carga. “Os transportadores colocam mais carga para ter mais lucro. Então, é importante ter um controle de pesagem. É o que eu digo, a tora é uma carga fisicamente perigosa. Ela parece não ter potencial de dano, mas ela em movimento tem um peso considerável”, explicou.

O PRF Tércio Baggio ainda alerta sobre os problemas frequentes com o sistema de ABS, conforme revela o vídeo. O que aumenta o risco de uma tragédia, mesmo quando o veículo percorre distâncias menores.

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MANUTENÇÃO: A falta de manutenção adequada nos veículos de carga é outro fator preocupante. Foto: Divulgação/PRF

Carga mal acabada

Kleinübing explica que a carga de toras apreendida pela PRF está mal acabada, saindo para fora do perímetro do compartimento de carga; o que já é uma infração de trânsito, pois pode gerar um acidente, além de estar propensa a cair na pista. “Imagina, uma tora ou um pedaço de tora cair na pista e uma motocicleta ou um automóvel se deparar com isso? Por isso, merece elogios a postura da PRF na fiscalização.”, disse.

VÍDEO: Cargas com toras de eucalipto são perigo constante nas BRs em Mato Grosso do Sul
MAL ACABADA: Cargas com toras de eucalipto são perigo constante nas BRs em Mato Grosso do Sul. Foto: Divulgação/PRF

Posição das empresas transportadoras

O Estradas manteve contato com a empresas envolvidas em ocorrências, como a Suzano Celulose, dona das carretas; Grupo JSL e Expresso Nepomuceno, transportadoras proprietárias do caminhão-trator, para saber a posição e a preocupação delas em relação a esse tipo de transporte.

Até a publicação desta matéria, somente a Suzano manifestou-se (ver resposta abaixo). O Grupo JSL e a Expresso Nepomuceno não responderam ainda. A reportagem aguarda a posição de ambas.

DNIT e CCR MSVia

Da mesma forma, a reportagem também manteve contato com a concessionária CCR MSVia, responsável pela BR-163/MS, e com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), responsável pela BR-262/MS, para saber qual a preocupação da empresa e da Autarquia frente a esse problema.

O Dnit, por meio de sua assessoria de imprensa, lavou as mãos e enviou a seguinte resposta: “As informações a respeito da segurança viária devem ser encaminhadas à PRF”. Já a concessionária CCR MSVia não respondeu aos questionamento do Estradas.

Veja a posição da Suzano, na íntegra:

A segurança é um valor inegociável nas operações logísticas da empresa. Especificamente em Mato Grosso do Sul, desde 2023 a Suzano vem reforçando e aprimorando suas ações e procedimentos operacionais que praticamente zeraram as ocorrências relacionadas ao acondicionamento de cargas de madeira. Porém, trata-se de um tema que permanece sob constante monitoramento e aprimoramento pela companhia, com foco na integridade das pessoas, na preservação ambiental e na excelência operacional. Entre as medidas de segurança implementadas pela empresa, destacamos:

Padronização do carregamento e responsabilização operacional: O processo de carregamento é realizado com checklists cruzados entre operadores de grua e motoristas, que assinam conjuntamente a responsabilidade pela qualidade da carga antes da viagem. Toda a comunicação durante o carregamento é feita por rádio, garantindo alinhamento em etapas críticas. Além disso, aplicamos políticas severas de consequência para qualquer descumprimento dos procedimentos de segurança.

Amarração com catracas automáticas e inspeções em rota: Toda a frota é equipada com catracas automáticas que mantêm o tensionamento das cintas de amarração ao longo do trajeto. E, mesmo com essa tecnologia, implantamos pontos de parada programados para reaperto e instalamos câmeras ao redor das carretas, permitindo monitoramento contínuo e identificação de irregularidades.

Central de Monitoramento 24h: A operação é acompanhada em tempo real por uma central dedicada, que garante rastreabilidade, controle e resposta imediata a qualquer ocorrência. Os registros são armazenados para auditoria e melhoria contínua.

Gestão de fadiga e tecnologia embarcada: Investimos cerca de R$ 60 milhões na aquisição de novos caminhões tritrens equipados com câmeras de fadiga e sistemas de alerta contra sonolência, além de cabines com tecnologias de estímulo contra o sono, reforçando a prevenção de acidentes.

Redução de fluxo rodoviário com hexatrens: Desde 2019, ampliamos o uso de hexatrens (veículos com seis composições que trafegam exclusivamente dentro das fazendas da empresa). Essa estratégia reduziu significativamente o tráfego de tritrens nas rodovias, aumentando a segurança para motoristas de veículos leves e melhorando a fluidez do tráfego.

Revisão técnica das toras e formação da pilha: Revisamos o padrão de medição das toras, eliminando variabilidade de tamanhos e restringindo o uso de toras abaixo de 3,5 metros, reduzindo o risco de queda. A formação das pilhas foi aprimorada, facilitando o trabalho dos operadores e aumentando a estabilidade da carga.

Mesmo com todas essas iniciativas já implantadas, tratamos a segurança como um processo dinâmico e em constante evolução. Mantemos rotinas de revisão técnica, auditorias periódicas e reciclagem de equipes, além de cooperação permanente com autoridades de trânsito e fiscalização, para podermos atuar prontamente caso seja identificado algum transporte fora do nosso padrão.

Com essas ações, reforçamos nosso compromisso em manter os mais altos padrões de segurança em nossa cadeia logística, sempre com foco na integridade das pessoas e na excelência operacional.”

Nota da redação: A Suzano deu extensa resposta mas as imagens deixam evidente de que há muito que ser corrigido. O silêncio das transportadoras não pode ser visto como um bom sinal. A Polícia Rodoviária Federal está cumprindo seu papel de prevenção. Enquanto isso, o DNIT se omite, jogando a responsabilidade apenas para a PRF e a concessionária parece indiferente ao tema.

Empresas do ramo prosperam

Enquanto aumenta o número de flagrantes de irregularidades envolvendo o transporte de toras de eucalipto, nas rodovias BR-163/MS e BR-262/MS, cresce também o investimento em empresas que atuam no setor.

Recentemente, a chilena Arauco investiu US$ 4,6 bilhões – aproximadamente R$ 27 bilhões – em uma unidade no município de Inocência (MS), considerado o maior projeto de celulose do planeta no Vale da Celulose.

A cidade, com cerca de 8 mil habitantes no leste de Mato Grosso do Sul, passa a sediar a maior fábrica de celulose do mundo. Batizado de Projeto Sucuriú, o empreendimento terá capacidade para produzir 3,5 milhões de toneladas de celulose de fibra curta por ano, superando o Projeto Cerrado, da brasileira Suzano, em Ribas do Rio Pardo (MS).

A fábrica será a primeira unidade industrial da Arauco no Brasil e deve começar a operar no último trimestre de 2027, reforçando a imagem de Mato Grosso do Sul como o “Vale da Celulose”, região que concentra os maiores investimentos privados do setor florestal no país e atrai as maiores empresas globais do segmento.