Times brasileiros investem alto nos jogadores mas fazem pouco caso quando o assunto é prevenção de acidentes, principalmente estimular uma cultura de segurança no trânsito entre os atletas. Verdão é exceção

Contratações de craques a peso de ouro é sempre destaque nos noticiários esportivos. O que não se vê é a cultura de segurança que cerca o dia a dia de cada um deles. A maioria dos clubes de futebol no Brasil e no mundo não priorizam a prevenção. Infelizmente, o trágico episódio com os adolescentes da equipe de base do Flamengo apenas confirma isso.

A maioria dos jovens atletas quando conseguem o primeiro bom salário já querem comprar logo um carro, mas não são orientados sobre os cuidados que devem ter ao dirigir. Um acidente pode acabar com uma carreira.

Vejamos o caso recente de Douglas Costa, contratado no ano passado pela Juventus da Itália. O time pagou quase R$ 200 milhões pelo seu passe. No último dia 4, o ídolo do clube italiano e da Seleção Brasileira, se envolveu num acidente, no qual deixou ferido gravemente o condutor do outro carro. Ele saiu ileso.

O que parece um fato isolado, é fruto na realidade de falta de orientação. Douglas Costa, quando iniciou sua carreira no Grêmio e começou a ganhar bem, foi flagrado dirigindo sem habilitação, em Porto Alegre (RS), com apenas 19 anos. Alguns anos depois, foi parado numa blitz em Porto Alegre quando fez um retorno na contramão.

A fama que cerca os jogadores de futebol no Brasil é a paixão por carrões. E não são raras as vezes em que eles estão se acidentando nas ruas e estradas do país. Isso reflete a falta de cultura de segurança por parte dos clubes e dos empresários, que só pensam em faturar com eles.

Em 2009, Cristiano Ronaldo saiu ileso de um acidente em que sua Ferrari ficou completamente destruída. O passe do jogador vale muito mais que 600 Ferraris, mas nem isso inibiu, na época, o ainda jovem craque de fazer suas loucuras ao volante por falta de educação no trânsito. Caso tivesse ficado com alguma lesão grave, provavelmente o atleta não teria a chance de colecionar as “Bolas de Ouro”, que conquistou com seu talento.

Há outros casos envolvendo acidentes com alguns craques brasileiros, como Ronaldo, o fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Neymar Junior. Por sorte, todos em acidentes de menor gravidade. Diferente do provocado por Edmundo, no auge da fama, que deixou dois mortos. Sem falar no trágico fim da carreira de Dener, morto no Rio de Janeiro, sufocado pelo cinto de segurança mal posicionado.

Além dos acidentes com automóveis, há casos que envolvem ônibus dos clubes, como o do Brasil de Pelotas (RS), que em 2009, se envolveu num acidente na BR-392, e matou dois jogadores e o treinador de goleiros do time. É importante destacar que na hora de transportar os jogadores em viagens rodoviárias de ônibus, com raras exceções, a maioria dos clubes não toma cuidados básicos como obrigar todos os ocupantes a usarem o cinto de segurança.

É comum ver cenas de jogadores festejando em ônibus quando seus times saem vitoriosos nos jogos. Na maioria dos casos, os jogadores não recebem nenhuma orientação sobre os cuidados de segurança. “Se houver um acidente, mesmo em velocidade baixa, os atletas sem cinto de segurança podem ficar de fora de um jogo, da temporada ou pôr fim às suas carreiras, acarretando prejuízos a eles e aos clubes.”, observa o coordenador do SOS Estradas, Rodolfo Rizzotto.

Estudos da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia revelam que 70% das lesões graves e mortes, nos acidentes com ônibus, poderiam ser evitadas se as pessoas fizessem uso do cinto de segurança. Isso mostra que usar o cinto é fundamental para a reduzir a gravidade e até mesmo a morte.

Verdão valoriza seus atletas

Mesmo com todos esses acidentes envolvendo jogadores de futebol, a maioria dos clubes continua a ignorar a segurança dos atletas. O Estradas procurou os principais times brasileiros, como Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Santos, Fluminense, Flamengo, Vasco, Botafogo, Atlético Mineiro, Cruzeiro, Grêmio e Internacional, além da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para saber qual a preocupação das comissões técnicas com os jogadores.

E o resultado foi catastrófico. Somente o Palmeiras leva a sério a cultura de segurança com seus atletas e membros da comissão técnica. Por meio de sua assessoria de imprensa, o Verdão prontamente atendeu à reportagem do Estradas e emitiu a seguinte nota:
“A Sociedade Esportiva Palmeiras zela pela integridade física de seus atletas e colaboradores. Pensando em oferecer o que há de melhor para o seu grupo, em termos de conforto e segurança, o Verdão lançou recentemente um novo ônibus oficial em parceria com a Volkswagen Caminhões e Ônibus (agosto de 2018).

Mas isso não impediu um susto dos jogadores e dirigentes no ano passado, quando as vésperas da partida da semifinal da Libertadores contra o Boca Juniors, o veículo que transportava os atletas colidiu com um muro do estádio onde foram realizar treinamento.

Cinto de segurança

Em relação ao uso do cinto de segurança, o Palmeiras fiscaliza o seu uso por parte dos atletas e membros da comissão técnica nas viagens. Sempre, um dos seguranças que acompanham o time – após a chamada – passa de assento em assento verificando o uso correto do equipamento.

Além disso, o fato de as viagens muitas vezes contarem com escolta policial, sobretudo nos deslocamentos até aeroportos, ajuda a evitar eventuais acidentes. Mesmo assim, a imposição do clube é clara: o uso do cinto de segurança é obrigatório e imprescindível.”

SOS Estradas

Segundo o coordenador do SOS Estradas, Rodolfo Rizzotto, no futebol não existe cultura de prevenção de acidentes nem mesmo quando o valor do ser humano atrás do volante atinge cifras estratosféricas, como são os craques do esporte. “É importante que os clubes invistam, desde a base, em criar atletas conscientes sobre várias questões, porque, afinal, eles serão os ídolos do futuro, o exemplo para os jovens”.

Rizzotto ressalta que é preciso cuidar do transporte dos atletas e estimular a cultura de segurança, como forma de ajudar na divulgação positiva dos jogadores e do clube, bem como preservar o patrimônio dos mesmos. “Segurança no trânsito é um bom negócio e precisa entrar em campo no futebol”, finaliza.

Extra

Ouça o comentário do coordenador do SOS Estradas sobre o tema, que está sendo divulgado em várias rádios brasileiras:

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