
Sinistros ocorreram ambos na Dutra(BR-116) em Piraí (RJ). Em agosto, cegonha com nove veículos da BYD pegou fogo em Goiás. Em julho foram 11 na Bahia.
Dois incêndios envolvendo caminhões-cegonha na mesma região da Rodovia Presidente Dutra (BR-116), em um intervalo de apenas quatro dias, chamam a atenção para a segurança do transporte de veículos, especialmente elétricos e híbridos.
Os sinistros ocorreram em Piraí (RJ), no Sul Fluminense, nos dias 2 e 6 de novembro, em pontos separados por aproximadamente 11 quilômetros.
A coincidência ganha importância diante de outros incêndios semelhantes registrados neste ano em Goiás e na Bahia, todos envolvendo caminhões-cegonha que transportavam automóveis eletrificados.
Embora não exista comprovação de que as baterias tenham provocado os incêndios, a repetição das ocorrências indica a necessidade de investigar as condições de transporte, possíveis falhas mecânicas, as características dos veículos transportados e os procedimentos de combate ao fogo.
Tombamento seguido de incêndio deixou seis feridos na Dutra
O caso mais recente ocorreu nesta sexta-feira (6), por volta das 15h, no km 247 da Via Dutra, em Piraí, sentido Rio de Janeiro. Um caminhão-cegonha tombou e pegou fogo, provocando a interdição total da pista.
O motorista sofreu ferimentos moderados, com suspeita de fraturas nos membros superiores. Outras cinco pessoas tiveram ferimentos leves em ocorrências secundárias associadas ao acidente.
Segundo informações atribuídas ao Corpo de Bombeiros, a carreta transportava dez automóveis, incluindo dois elétricos, que foram atingidos pelas chamas. As equipes atuaram para impedir que o fogo alcançasse os demais veículos.
Relatos iniciais da imprensa mencionaram 11 veículos elétricos, mas informações posteriores atribuídas aos bombeiros indicaram dez automóveis, sendo dois elétricos. Essa divergência ainda merece esclarecimento oficial.
O acidente provocou congestionamento de pelo menos quatro quilômetros e mobilizou equipes da PRF, dos bombeiros e da concessionária RioSP.
Quatro dias antes, outra cegonha com 11 elétricos foi destruída
Na noite de segunda-feira (2), outro caminhão-cegonha pegou fogo no km 258 da Via Dutra, também em Piraí e no mesmo sentido de circulação.
A carreta transportava 11 carros elétricos da BYD. O incêndio começou por volta das 20h e se espalhou pela carga, provocando uma grande operação dos bombeiros e a interdição da rodovia.
O motorista conseguiu desacoplar o cavalo mecânico do semirreboque. Não houve feridos.A ocorrência causou grande congestionamento durante o retorno do feriado de Finados. A origem do fogo não havia sido determinada.
Em Goiás nove veículos da BYD destruídos em agosto
Um terceiro episódio ocorreu em 3 de agosto, na BR-364, em Mineiros (GO), sobre a ponte do Ribeirão Alegre, no km 297.
Uma carreta-cegonha transportava nove veículos elétricos e híbridos zero-quilômetro da fabricante chinesa BYD, todos destruídos pelo incêndio.
Segundo o Corpo de Bombeiros de Goiás, o motorista relatou ter percebido o início das chamas nas rodas do semirreboque. Ele conseguiu desacoplar o cavalo mecânico e evitar que o fogo atingisse a cabine. Não houve vítimas. A Polícia Civil ficou responsável pela investigação das causas.
Outros casos em 2026 reforçam a necessidade de investigação
O levantamento identificou mais duas ocorrências relevantes nos últimos meses.
2 de julho — Alagoinhas (BA)
Uma cegonha com 11 veículos elétricos da BYD pegou fogo no km 95 da BR-101. Todos foram destruídos, sem vítimas. Segundo o motorista, o incêndio começou em um dos automóveis transportados. Os bombeiros não conseguiram determinar a origem do fogo no local.
14 de outubro — Paulista (PE)
Um caminhão-cegonha com 11 carros elétricos BYD Dolphin GS tombou na BR-101. O motorista ficou ferido. A suspeita inicial da PRF foi de perda de controle em uma curva. Não houve relato de incêndio nessa ocorrência.
Os registros mostram que, desde julho, foram noticiados pelo menos quatro incêndios envolvendo cegonhas com veículos elétricos ou híbridos, além do tombamento em Pernambuco.
Isso não demonstra que exista uma falha comum ou aumento proporcional de acidentes, pois seria necessário conhecer o número total de viagens e a quantidade de veículos transportados no período. Entretanto, cabe uma investigação mais apurada.
Baterias podem representar um risco adicional?
Incêndios em veículos elétricos apresentam particularidades quando envolvem suas baterias de alta tensão.
Em situações de danos, superaquecimento ou falhas internas, as baterias de íons de lítio podem entrar em um processo de fuga térmica (thermal runaway), com propagação de calor entre células e liberação de gases inflamáveis.
O National Transportation Safety Board (NTSB), órgão americano de investigação de acidentes, alerta que baterias danificadas podem apresentar riscos de choque elétrico e reignição mesmo depois do controle inicial das chamas.
Entretanto, incêndios em cegonhas também podem começar nos freios, pneus, sistemas elétricos do caminhão ou em outros componentes, independentemente do tipo de automóvel transportado.
No caso de Goiás, por exemplo, o motorista relatou que o fogo começou nas rodas da carreta. Na Bahia, a suspeita inicial apontava para um dos veículos da carga. Já no acidente de 6 de novembro, o tombamento ocorreu antes do incêndio.
Portanto, é fundamental diferenciar um incêndio provocado por bateria de outro em que a bateria apenas foi atingida ou agravou as consequências do fogo.
Coincidências exigem respostas
A repetição de episódios, especialmente dois incêndios na mesma região da Dutra em apenas quatro dias, justifica uma investigação mais ampla por parte das autoridades e do setor de transporte de veículos.
Entre os aspectos que merecem ser esclarecidos estão as condições dos pneus e freios das cegonhas, a amarração e distribuição da carga, a existência de danos prévios nas baterias, os modelos transportados, as empresas responsáveis e os procedimentos de segurança durante o carregamento.
Também seria importante verificar se os veículos envolvidos pertenciam a lotes semelhantes, se utilizavam a mesma tecnologia de bateria e se as transportadoras adotavam procedimentos específicos para automóveis eletrificados. Inclusive para identificar possível necessidade de recall.
A Polícia Rodoviária Federal, as concessionárias, os fabricantes e as empresas transportadoras podem contribuir para identificar fatores comuns e estabelecer medidas preventivas.
Os incêndios ainda não permitem concluir que transportar carros elétricos em cegonhas seja mais perigoso do que transportar veículos convencionais. Mas ignorar a sequência de ocorrências, sem procurar possíveis causas em comum, também não seria uma resposta adequada.
Com o crescimento da frota eletrificada brasileira, a segurança do transporte rodoviário desses automóveis precisa acompanhar a evolução tecnológica.
A prioridade deve ser descobrir o que realmente provocou os incêndios e se existem riscos específicos capazes de ser prevenidos antes que novas ocorrências coloquem em perigo motoristas, equipes de emergência e usuários das rodovias.




