SITUAÇÃO PERIGOSA: Falso médico foi contratado para atender às vítimas de acidente na rodovia mais importante do país Foto: Reprodução

A Enseg, responsável pela contratação de falso médico, informa que atende a 3.000 km de rodovias em 5 estados. Orientação de amputação parcial de perna de caminhoneiro chamou a atenção dos inspetores da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e da equipe de resgate sobre falso médico

Segundo relatou o PRF Eron Ribeiro para a Band Vale, esta orientação e outras atitudes que não fazem parte do protocolo durante atendimento a uma vítima de sinistro de trânsito na Via Dutra (BR-116), em Lavrinhas (SP), no último domingo (13), permitiram que o suposto médico,  Gerson Lavísio fosse desmascarado. (atualizada as 13h00 do dia 22/03/2022)

Nota da CCR RioSP

Em nota enviada hoje (22/03/22) pela CCR RioSP, assinada por Carla Fornasaro, Diretora Presidente da CCR RioSP, esclarece que não houve amputação no local. A concessionária não respondeu aos demais questionamentos do portal, conforme poderá ser visto mais à frente na matéria. Segue a nota da concessionária:

Santa Isabel, 22 de março de 2022
Ao portal Estradas

Sobre o acidente ocorrido no dia 13/03, na Rodovia Presidente Dutra, a CCR
RioSP reitera que não houve amputação, como veiculado: a vítima teve o pé
esquerdo lacerado e esmagado na batida e, após o desencarceramento
realizado com apoio de equipe do Corpo de Bombeiros, foi encaminhada com
os membros inferiores, à Santa Casa de Lorena.

Isto pode ser confirmado pela nota oficial emitida pelo estabelecimento
hospitalar. O paciente deu entrada no hospital com os membros inferiores
visíveis. E, após avaliação multiprofissional, foi encaminhado para o Centro
Cirúrgico para um procedimento de emergência.

Fica claro que a decisão sobre a cirurgia ocorreu após a entrada no hospital, sob
exclusiva responsabilidade da equipe da Santa Casa de Lorena, não havendo
portanto qualquer procedimento de amputação no local do acidente seja pelo
falso médico ou qualquer outro profissional envolvido na ocorrência.

Adicionalmente, é importante atentar para o relato do médico da ENSEG,
empresa contratada pela concessionária, responsável pelo atendimento. Em
nenhum momento de todo o procedimento de resgate da vítima houve
procedimento de amputação.

A concessionária confia na análise dos fatos e na ponderação, com equilíbrio
dos conteúdos a serem veiculados, sempre oferecendo a melhor informação ao
público.

Carla Fornasaro
Diretora Presidente
CCR RioSP

Nota da Redação: A presidente da concessionária não desmente a versão do PRF de que foi dada orientação pelo falso médico para amputação parcial da perna do falso médico.

Enseg contratou falso médico baseada apenas em número de protocolo

Contratado pela Enseg, empresa que presta serviços para a concessionária CCR RioSP, ele atuava como médico-socorrista na Via Dutra e Rio-Santos há pouco mais de um mês. Após a abordagem policial e depoimento na delegacia, o falso médico foi denunciado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), na terça-feira (15), ao Ministério Público Federal (MPF), após ter formalizado pedido de inscrição junto à autarquia, com apresentação de diploma falso.

Lavísio foi contratado pela Enseg apenas com o número de protocolo do pedido de inscrição no Cremesp, e estava prestando serviços na CCR RioSP. A ENSEG diz no seu site ser: “a ENSEG passou a ser referência no atendimento pré-hospitalar rodoviário.” Ao mesmo tempo contratou um falso médico para atender às vítimas de acidentes graves na rodovia mais importante do país.

Segundo o Cremesp, Gerson não possuía número de CRM e, portanto, não estava habilitado para atuar nem poderia ser contratado pela empresa. Mas, na prática, ele não só foi contratado, como estava prestando atendimento aos usuários da Via Dutra e da Rio-Santos.

O Estradas entrou em contato com a concessionária CCR RioSP e fez as seguintes perguntas:

1 – Qual é o procedimento da concessionária CCR RioSP na contratação de profissionais? SEM RESPOSTA

2 – Basta alguém dizer que exerce tal profissão para a concessionária CCR RioSP contratá-lo e liberá-lo para atuar no atendimento aos usuário das rodovias sob concessão da empresa? SEM RESPOSTA

3 – A concessionária CCR RioSP confiou no processo feito pela empresa terceirizada, mesmo se tratando de um cargo envolvendo o setor de saúde, como o caso em questão: médico-socorrista? SEM RESPOSTA

4 – A empresa terceirizada atua há quantos anos para o Grupo CCR? SEM RESPOSTA

5 – Quais as medidas da CCR RioSP em relação à empresa terceirizada? SEM RESPOSTA

6 – Quais as medidas da CCR RioSP em relação à pessoa que sofreu acidente na rodovia e teve a perna amputada pelo “médico” da CCR RioSP? SEM RESPOSTA

7 – Qual o quadro de médico-socorrista da CCR RioSP? SEM RESPOSTA

Nota da Redação: Reiteramos o pedido neste dia 22/03/22

Por meio de uma nota oficial, a CCR RioSP se limitou a informar na anteriomente:

A concessionária informa que foi surpreendida com a notícia de exercício ilegal da profissão desempenhado por suposto médico e está prestando todas as informações às autoridades competentes.”

Questionada novamente posteriormente, a concessionária informou que iria manter a nota enviada anteriormente. Hoje foi enviada nova nota, após a repercussão desta matéria.

Empresa que contratou falso médico atende vítimas em 3.000km de rodovias

A Enseg não respondeu aos questionamentos até a publicação desta matéria. Entretanto, em seu site oficial informa que atende a 3.000 km de rodovias.

“Operando nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Distrito Federal, dando cobertura a mais de 3.000 km de rodovias, a Enseg passou a ser referência no atendimento pré-hospitalar rodoviário.”

De acordo com o Cremesp, a contratação de Lavísio por parte da Enseg e de demais instituições aonde o mesmo atuou serão investigadas.

Ainda de acordo com o Cremesp, o Conselho possui um sistema de checagem documental eficiente junto aos órgãos competentes e reforça que continuará trabalhando para coibir o exercício ilegal de medicina, de modo a salvaguardar a saúde e a segurança da população.

Eco101 utiliza serviços da Enseg mas não respondeu a reportagem 

A reportagem perguntou à Eco101, responsável pela BR-101, no estado do Espírito Santo, se o serviço de resgate da concessionária é feito por profissionais contratados pela empresa Enseg? Bem como, quais os procedimentos que a Eco101 toma para a contratação de profissionais do serviço de resgate? E desde quando a Enseg atua na Eco101? A concessionária simplesmente não prestou nenhuma informação. A empresa faz parte do grupo Ecorodovias que conta com 11 concessões rodoviárias nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste do Brasil.

Deputado denunciou a Enseg  mas se esquivou de resposta

Em agosto do ano passado, o deputado estadual Freitas, do Espírito Santo, disse, durante sessão parlamentar, que a redução dos valores pagos a título de plantão aos médicos socorristas que atuam na Eco101, levou os profissionais de saúde desistirem de continuar prestando serviço à concessionária que administra a BR-101 no estado capixaba.

Segundo Freitas, mesmo antes da redução, feita pela empresa Enseg, titular do contrato, a maioria dos médicos plantonistas já havia abandonado o serviço, pois o valor estava sem reajuste desde 2014.

À época, Freitas considerou absurdo a posição da Enseg, que preferiu reduzir os salários a aumentá-los. “A consequência disso é a falta de socorro por parte da concessionária para quem sofrer acidente ou algum mal súbito no trecho capixaba de mais de 400 quilômetros da rodovia”, explicou.

Diante disso, o Estradas entrou em contato com o deputado Freitas e pediu uma avalição do parlamentar sobre essa questão. Num primeiro momento, a assessoria de imprensa de Freitas perguntou o que o deputado tinha a ver com o caso. A reportagem explicou o objetivo. A assessoria disse que iria conversar com Freitas.

Mas, mesmo depois de insistir, o deputado Freitas se esquivou de atender à reportagem e não quis se posicionar sobre o atual episódio envolvendo a Eco101 e o contrato de atendimento de primeiros socorros com a empresa Enseg.

ANTT fiscaliza condições das ambulâncias mas não dos médicos

A reportagem procurou também a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Por meio de sua assessoria de imprensa, a ANTT respondeu:

1- Qual a forma de fiscalização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) em relação ao serviço de resgate nas concessionárias de rodovias federais, seja Via Dutra ou em outras rodovias concedidas, bem como sobre a contratação de profissionais para esse serviço?

Resposta: A ANTT fiscaliza o tempo de atendimento de socorro médico, cabendo à concessionária a gestão da qualidade do serviço. A contratação dos profissionais que operam nos resgates fica a critério da concessionária.

2- Qual a fiscalização que foi feita nos últimos cinco anos em relação ao serviço de resgate na Via Dutra e em outras concessionárias?
Resposta:
Como informado acima, as concessionárias são fiscalizadas quanto ao tempo de atendimento do serviço de socorro médico em relação às ocorrências verificadas, de acordo com o que está determinado no contrato de concessão.

A ANTT reforçou que “fiscaliza a funcionalidade das ambulâncias que atendem os resgates em todas as concessões, mas a contratação dos profissionais é a critério das concessionárias“.

Observação do Estradas.com.br:  A ANTT fiscaliza a “funcionalidade das ambulâncias”, mas deixa a cargo das empresas garantir que os médicos são médicos. O que é mais importante o veículo ou o atendimento de socorro?

À ABCR (Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias) foi perguntado se a Associação tem informações sobre quais as concessionárias, além da CCR RioSP, que trabalham com essa empresa Enseg, que presta serviços médicos? A ABCR informou que não tem essa informação.

Redução de custos e irresponsabilidade, na avaliação do SOS Estradas

Rodolfo Rizzotto, coordenador do SOS Estradas, diz que há muitos anos as concessionárias de rodovias buscam reduzir custos inclusive no atendimento médico nas estradas. Por isso, contratam empresas terceirizadas para essa tarefa. “Este caso é muito grave porque envolve um dos maiores grupos de concessão de rodovias do mundo. Além do atendimento, numa concessão que entrou em operação há poucos dias, festejada como exemplo pelo ministro da Infraestrutura. Impressiona ainda que a ANTT fiscalize as ambulâncias mas não o preparo de quem atende as vítimas. Esse é um serviço que deveria ser padrão ouro das concessionárias e administradas pelas próprias. Simplesmente terceirizaram a responsabilidade e colocam vidas em risco.”

Ele lembra ainda que os usuários das rodovias pagam pelo atendimento no pedágio. Portanto, não se trata de nada gratuito. A maioria dos profissionais que atendem os acidentes (sinistros) são profissionais preparados e merecem todo reconhecimento mas é inaceitável que possam ser pressionados por questões econômicas, conforme denunciado por deputado no Espírito Santo sobre a mesma empresa. Deputado que parece não estar mais preocupado com o assunto.

Entenda melhor o caso

De acordo com a PRF, após a decisão tomada por Gerson Lavísio, a equipe técnica do resgate acionou os policiais por estranharem a medida e a falta de técnica para o procedimento. Com isso, a PRF consultou o nome de Lavísio e descobriu que ele apresentava um CRM cadastrado no nome de outro profissional. Ele foi então levado para a delegacia, onde confessou que não era médico.

A polícia registrou um boletim de exercício ilegal da profissão, mas o homem foi liberado após prestar depoimento. Ele assinou um tempo se comprometendo a comparecer na delegacia para prestar esclarecimentos.

IRRESPONSABILIDADE: O homem que teve a perna amputada é do Mato Grosso e está internado na Santa Casa de Lorena, no Vale do Paraíba, em São Paulo. Foto: Divulgação/PRF

1 COMENTÁRIO

  1. O fato é vergonhoso! A CCR subcontrata uma empresa pra gerenciar um serviço que por muito tempo foi considerado o MELHOR do Brasil. E hoje, a menos de um mês de terceirização, vem o resultado. Que o Grupo CCR reavalie sua conduta, pois o usuário paga pelo serviço, e não paga barato. Tomara que as autoridades realmente tratem o assunto com a seriedade que ele merece.

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