
Austrália vai exigir exame toxicológico para atletas, método que Brasil já adota para obter a CNH
A Australian Football League (AFL) adotará, em janeiro de 2027, uma política mais rigorosa de controle de drogas ilícitas entre seus jogadores, com dois exames toxicológicos de cabelo obrigatórios por ano. A tecnologia, já utilizada pela liga, permite identificar o consumo de determinadas substâncias ocorrido nos três a seis meses anteriores.
O procedimento é semelhante ao exame toxicológico de larga janela exigido no Brasil dos condutores das categorias C, D e E e, mais recentemente, dos candidatos à primeira habilitação nas categorias A e B.
A principal diferença em relação aos testes convencionais de sangue e urina está na janela de detecção. Enquanto os exames tradicionais geralmente identificam o consumo de cocaína durante alguns dias, a análise capilar permite investigar períodos muito mais longos e detectar comportamento.
Assim como o uso de drogas é incompatível com quem trabalha dirigindo, o mesmo princípio serve para a prática de esportes de alto rendimento. No caso da Liga Australiana de Futebol (AFL), que é uma versão diferente do futebol americano, o esporte é muito popular e leva em média quase 39 mil pessoas por jogo contra 25 mil no campeonato brasileiro da Série A (2025).
Em alguns jogos da AFL mais de 100 mil pessoas vão ao estádio, como ocorre no MGC de Melbourne. O esporte é um grande negócio, com investimentos bilionários na transmissão das partidas. As medidas tomadas pela AFL visam proteger os atletas mas também a credibilidade do business.
Casos recentes reacendem discussão sobre drogas no esporte
A mudança australiana ganha relevância diante de episódios envolvendo atletas profissionais. Em julho de 2026, Cristian Volpato, jogador da seleção australiana de futebol e do Sassuolo, da Itália, apresentou resultado positivo para cocaína em teste realizado pela polícia durante uma abordagem de trânsito em Sydney.
Ele dirigia a mais de 100km/h em trecho de 60km/h. O episódio não envolveu exame antidopagem esportivo mas resultou na suspensão da habilitação por seis meses além de multa. Na Austrália a legislação de trânsito varia em cada estado, com punições distintas.
Outro caso ocorreu com o tenista australiano Nick Kyrgios, que testou positivo para cocaína durante um torneio em Mallorca, na Espanha, em junho de 2026. O atleta recebeu suspensão de um mês, conforme decisão divulgada pela Agência Internacional de Integridade do Tênis.
Na própria AFL, o defensor Lachie Cowan, do Carlton Blues, foi suspenso há poucos dias, após um episódio relacionado ao uso de drogas ilícitas no início de outubro de 2026.
O futebol brasileiro também registra antecedentes. Gonzalo Carneiro, então no São Paulo, apresentou resultado positivo para metabólitos de cocaína em 2019. Diogo Vitor, promessa do Santos, enfrentou caso semelhante em 2018. Jobson, que ganhou notoriedade no Botafogo em 2009, também foi flagrado e admitiu o uso de crack.
Dos três, apenas Gonzalo Carneiro, depois da suspensão, continuou jogando em clubes importantes. Diogo desapareceu do noticiário desportivo a partir de 2023. Jobson ficou perambulando em clubes menores após algumas oportunidades em grandes clubes.
Um dos maiores jogadores da história do futebol, Diego Armando Maradona, admitiu que começou a usar drogas com 22 anos em 1982, ainda no Barcelona. O uso aumentou no período que jogou no Napoli (84-91), o auge da sua carreira.
No início de 1991 foi flagrado no doping. A situação gerou sua primeira suspensão e o vício jamais permitiu que voltasse a ser como antes. Em 1994 , durante a Copa do Mundo, com 33 anos, foi flagrado novamente no doping. A cena dele saindo de campo com a enfermeira é um dos episódios mais tristes da história do futebol.
Testes surpresa no Brasil não investigam comportamento
No futebol brasileiro, a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) também realiza exames surpresa, inclusive durante treinamentos. Entretanto, essas coletas utilizam principalmente urina e sangue, que possuem janelas de detecção menores para determinadas substâncias.
O exame de cabelo amplia esse alcance. Um jogador poderá apresentar resultado positivo mesmo quando o consumo tiver ocorrido durante as férias, eventualmente 30 dias antes da coleta.
Essa característica pode ter efeito preventivo importante, especialmente em um mercado no qual os clubes investem milhões ou dezenas de milhões de euros em contratações, salários e direitos de imagem.
Uma suspensão prolongada, além dos riscos à saúde, pode representar prejuízos esportivos e financeiros consideráveis.
Brasil já utiliza exame de larga janela na habilitação
A exigência brasileira ganhou força com a Lei 13.103/15, e passou a ser aplicada a partir de 2016 aos condutores das categorias C, D e E. O exame, realizado com cabelo, pelos ou unhas, identifica o consumo de determinadas drogas em um período retrospectivo mínimo de 90 dias.
Em 2025, a legislação foi ampliada para incluir o teste na obtenção da primeira CNH das categorias A e B. A finalidade é preventiva: identificar o histórico de consumo de substâncias psicoativas, e não comprovar que o motorista estava sob efeito de drogas no momento da condução.
Exame de cabelo pode desestimular consumo entre atletas
A expectativa é que a certeza de realizar exames periódicos capazes de identificar consumo passado desestimule o uso de drogas entre jogadores profissionais.
Na AFL, os resultados positivos serão acompanhados de avaliações médicas, orientação e programas de mudança comportamental. Casos reincidentes poderão resultar em medidas mais rigorosas.
Entretanto, a capacidade do exame do cabelo de investigar o histórico de consumo pode reduzir a possibilidade de que episódios ocorridos fora das competições passem despercebidos.
Consequentemente, os atletas e as atletas, mulheres também farão o exame do cabelo na Austrália, terão muito menos estímulo a cair na tentação de usar drogas no período de férias ou a qualquer momento na temporada, porque sabem que o exame toxicológico de larga janela vai revelar o uso de drogas.
Exigência do exame toxicológico para primeira habilitação poderá flagrar atletas
Um dos símbolos do status do jogador de futebol é a compra do primeiro carro. Para dirigi-lo precisa tirar a CNH. Com a exigência do exame para primeira habilitação, os jogadores poderão ter um estímulo adicional para não usar drogas. E os clubes poderão acompanhar o comportamento. Jogador que compra carro mas não tira a habilitação, o que infelizmente ocorre, pode acender uma luz de alerta para o clube.
A experiência australiana levanta uma pergunta para o esporte brasileiro: se o exame de larga janela já é exigido para o motorista de ônibus que os transporta até o estádio e candidatos à primeira habilitação, alguns deles também atletas, por que não discutir sua adoção complementar aos controle de doping entre atletas profissionais?
Mais importante do que identificar usuários seria desestimular o consumo e evitar que a droga comprometa a saúde, a carreira e o desempenho dos jogadores. Resta saber como reagiriam os jogadores dos grandes clubes brasileiros caso a política de controle de drogas da Austrália fosse aplicada no Brasil.




