
Campanha chama atenção para desafios relacionados à rotina, infraestrutura e bem-estar para os transportadores de veículos
O transporte de veículos zero quilômetro no Brasil envolve uma série de particularidades que impactam diretamente a rotina dos caminhoneiros cegonheiros. No contexto do Abril Verde, campanha voltada à saúde e segurança no trabalho, o setor chama atenção para fatores que influenciam as condições de atuação desses profissionais nas estradas.
A operação da cegonha apresenta particularidades em relação a outros tipos de transporte. As etapas de carga e descarga, por exemplo, nem sempre ocorrem em ambientes fechados, o que faz com que os motoristas estejam frequentemente expostos a variações climáticas, como chuva, frio e calor intenso. Essa dinâmica pode gerar desgaste físico ao longo do tempo.
Outro ponto observado é a etapa de entrega, que, em alguns casos, acontece em locais com menor estrutura, exigindo atenção redobrada por parte dos motoristas.
Já a organização da rotina de trabalho envolve prazos de carregamento e entrega que demandam planejamento e adaptação constante.
“Não há como tratar segurança apenas como cumprimento de regra quando as condições estruturais não acompanham o nível de exigência. Hoje, o motorista é cobrado por produtividade e conformidade, mas segue operando em um ambiente onde ainda faltam infraestrutura básica, pontos de parada e descanso suficientes e previsibilidade nas rodovias”, afirma José Ronaldo Marques da Silva, o Boizinho, presidente do Sinaceg.
A jornada prolongada e a necessidade de cumprir cronogramas também podem influenciar o bem-estar dos profissionais, especialmente quando associadas à dificuldade de encontrar locais adequados para descanso ao longo das rodovias.
“As longas jornadas, a privação de sono e a pressão constante por prazo criam um ambiente de desgaste contínuo para o motorista. Não se trata apenas de uma questão física. Esse conjunto de fatores gera estresse, ansiedade e isolamento, comprometendo a saúde mental e elevando significativamente o risco de acidentes nas estradas”, afirma Márcio Galdino, diretor regional do Sinaceg.
Em diferentes regiões do país, especialmente fora do Sudeste, a disponibilidade de infraestrutura rodoviária e de apoio ao motorista ainda é considerada limitada. A presença de trechos sem duplicação, aliada à oferta reduzida de pontos de parada, pode tornar a operação mais desafiadora.
“Tem trecho que o motorista roda centenas de quilômetros sem encontrar um ponto seguro para parar. Aí vem a cobrança por descanso, mas não existe estrutura para cumprir. Isso coloca o trabalhador numa escolha impossível entre seguir viagem cansado ou parar em local inseguro”, afirma Ronaldo Marques da Silva, conhecido como Júnior, vice-presidente da Feiceg (Federação Interestadual dos Cegonheiros).
Nos últimos anos, o uso de tecnologias de monitoramento tem contribuído para o controle de jornada e para a gestão da operação. Ainda assim, representantes do setor apontam a importância de alinhar essas ferramentas às condições reais encontradas nas rodovias.
Paralelamente, iniciativas internas vêm sendo desenvolvidas com foco no suporte ao motorista. Cooperativas, como a Cooperceg, têm ampliado a oferta de serviços e ações voltadas ao bem-estar dos profissionais, incluindo atenção à saúde mental e à organização da atividade.
Modelos coletivos de organização também têm sido adotados como forma de facilitar o acesso a serviços, reduzir custos operacionais e trazer maior previsibilidade à rotina dos transportadores.
Outra frente relevante envolve a renovação da frota, com programas que incentivam a substituição de veículos mais antigos. A medida contribui para a melhoria das condições de trabalho e para a segurança nas estradas.
O setor avalia que o avanço em infraestrutura, especialmente na ampliação de pontos de parada e na melhoria das rodovias, pode contribuir para tornar a atividade mais segura e eficiente, acompanhando as exigências já existentes para a operação.
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