Perda de aderência pode ocorrer de forma repentina e coloca em debate comportamento ao volante, manutenção dos veículos e condições da infraestrutura viária
A chuva pode transformar, em poucos segundos, um trecho aparentemente seguro de rodovia em uma situação de alto risco. A aquaplanagem ocorre quando uma camada de água se forma entre os pneus e o pavimento, reduzindo a aderência e podendo fazer o motorista perder momentaneamente o controle do veículo.
O fenômeno exige atenção principalmente em pontos com acúmulo de água e ganha outra dimensão para quem passa boa parte da rotina profissional nas estradas.
Caminhões também podem sofrer aquaplanagem
Nas rodovias, onde a velocidade é normalmente mais alta, a aquaplanagem pode provocar uma tragédia. Apesar de mais frequente com veículos leves, caminhões também estão sujeitos a aquaplanagem, apesar do peso do veículo e carga.
Em um dos casos mais graves investigados nos Estados Unidos, um caminhão articulado perdeu o controle sob chuva na Interstate 10, em Beaumont, Texas, em 1987, atravessou o canteiro central e atingiu um ônibus. Seis pessoas morreram.
O NTSB (National Transportation Safety Board) , órgão responsável pela investigação de grandes acidentes (sinistros) de transporte, confirmou na perícia a velocidade excessiva para as condições da pista, pneus desgastados e pavimento com baixa aderência entre os fatores que contribuíram para a aquaplanagem parcial do caminhão.

O Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), que reúne uma base de mais de 5 mil profissionais voltados para o transporte de veículos, chama a atenção para um risco que nem sempre pode ser percebido com antecedência.
“A aquaplanagem tem uma característica especialmente perigosa: durante alguns segundos, o motorista deixa de comandar sozinho o que acontece com o veículo. É uma situação em que experiência não autoriza excesso de confiança. Pelo contrário. Quanto mais estrada você tem, mais sabe que água sobre o asfalto merece respeito”, afirma José Ronaldo Marques da Silva, o Boizinho, presidente do Sinaceg.
As condições dos pneus estão entre os principais fatores de prevenção. Sulcos desgastados reduzem a capacidade de escoamento da água e aumentam o risco de perda de aderência. Calibragem, alinhamento, funcionamento dos limpadores de para-brisa e visibilidade também devem fazer parte da verificação periódica do veículo.
Ao volante, reduzir a velocidade, ampliar a distância em relação ao veículo da frente e evitar frenagens ou mudanças bruscas de direção diminuem a exposição ao risco. Em uma situação de aquaplanagem, movimentos repentinos podem dificultar a recuperação do controle.
Mas o problema não se limita à cabine. A presença recorrente de água em determinados pontos também coloca em discussão as condições da própria infraestrutura rodoviária, especialmente capacidade de drenagem, conservação do pavimento e sinalização.
“Existe uma tendência de olhar para a aquaplanagem como um problema entre pneu, água e velocidade. Só que a estrada também entra nessa equação. Se há pontos que acumulam água repetidamente, drenagem insuficiente ou pavimento deteriorado, temos riscos que podem ser identificados antes do acidente. Prevenção também significa corrigir a rodovia onde ela demonstra fragilidade”, diz Márcio Galdino, diretor regional do Sinaceg.
O alerta ganhou relevância após acidentes(sinistros) recentes. Em setembro, duas pessoas morreram depois que um carro aquaplanou e colidiu com um caminhão na Rodovia João Mellão, em Avaré, segundo o portal de notícias g1. Fortes chuvas também provocaram alagamentos, enchentes e interdições em diferentes pontos da região de Itapetininga.
A experiência de quem percorre longas distâncias acrescenta outro componente à prevenção. Uma rodovia conhecida não necessariamente oferece as mesmas condições todos os dias. Chuva intensa, água acumulada e alterações no pavimento podem modificar rapidamente a resposta de um trecho percorrido com frequência.
“Há uma diferença importante entre conhecer uma estrada e achar que ela não oferece mais surpresas. Quem trabalha viajando sabe disso. Depois de uma chuva forte, aquele trecho percorrido centenas de vezes pode se transformar em outro. É justamente quando o caminho parece familiar que não podemos dirigir no automático”, completa Boizinho.
O Coordenador do SOS Estradas, Rodolfo Rizzotto, lembra que os motoristas de veículos pesados devem ficar ainda mais atentos com os demais. “O caminhoneiro tem muita experiência e por isso mesmo deve tomar ainda mais cuidado. Principalmente porque os motoristas de veículos leves estão sujeitos com mais facilidade a aquaplanagem e , pela falta de experiência, correm mais risco de cometerem erros que poderão causar uma colisão mortal com o caminhão.”
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