Ricardo Boechat nos deixou em em 11 de fevereiro de 2019 Foto: Divulgação

O Estradas.com.br nasceu da RDE – Revista das Estradas, distribuída gratuitamente em pontos de parada de rodovias entre 1993 e 2003. Entre tantos entrevistados ao longo desses anos, tivemos a presença do generoso Ricardo Boechat.

Sua entrevista continua atual. Infelizmente, porém, o “Pelé” do jornalismo brasileiro já não está entre nós. Ao mencionarmos o Rei do Futebol, fazemos também justiça a uma das paixões de Boechat: ao futebol com os amigos.

E foi justamente nesse ambiente descontraído que a entrevista, realizada pelo editor do Estradas.com.br, Rodolfo Rizzotto, aconteceu em julho de 1999, no “Albertão”, campo construído pelo Alberto Ahmed, no Grajaú, bairro do Rio de Janeiro. Os dois estavam sentados ao lado do gol, esperando a próxima “pelada”, enquanto a entrevista acontecia.

“Naquela ocasião, o Boechat ficava provocando os atacantes, dizendo que eles não sabiam chutar. O resultado foi que os ‘amigos’ começaram a chutar na nossa direção, e não no gol. Então eu disse ao Boechat, entre risadas e boladas: ‘Para de provocar a turma, porque eu só tenho esse gravador. Se ele quebrar, acaba a entrevista’”, recorda Rodolfo Rizzotto.

Rizzotto lembra também, com orgulho, de ver Boechat circulando pela cidade em sua Land Rover Defender 110 com o adesivo do SOS Estradas. O jornalista sempre abriu espaço para o tema da segurança viária e para as vítimas do trânsito.

Na entrevista, Boechat disse que queria a primeira página do jornal. Infelizmente, anos depois, acabaria sendo manchete em praticamente todos os veículos de comunicação do país no trágico e raro acidente que tirou sua vida na estrada, quando o helicóptero em que estava caiu e foi atingido na pista por uma caminhão.

Em um momento tão difícil como o que o Brasil atravessa, a voz de Boechat faz muita falta. Ficamos órfãos de um jornalismo que privilegiava o cidadão e a busca pela verdade.

Perdemos uma luz que ajudava a apontar o caminho da decência, do respeito às leis e da democracia. Mas sua trajetória pode continuar a nos inspirar a não abandonar os bons valores à própria sorte.

Devemos isso a brasileiros como Ricardo Eugênio Boechat. E devemos isso ao país.

 

ENTREVISTA – RICARDO BOECHAT – UM CAMPEÃO DE NOTÍCIAS QUENTES

Em 1970, ainda jovem, Ricardo Boechat abandonou os estudos para seguir o jornalismo. Pouco depois, recebeu um convite do chefe de redação, Nilo Dante.

“Garoto, você quer fazer um bico? Então, procura o senhor Ibrahim nesse endereço.”
Boechat descobriu que se tratava de Ibrahim Sued, uma das figuras mais conhecidas do jornalismo brasileiro, com quem trabalharia por mais de dez anos.

“Ele era o símbolo de valores e segmentos que eu via como grandes adversários. Foi uma situação engraçada e uma experiência muito rica”, relembrou.

Segundo Boechat, Ibrahim foi fundamental para que ele percebesse que festas, ambientes de luxo e encontros frequentados por políticos, empresários e banqueiros também eram importantes fontes de informação.

A busca permanente pela notícia

Ao longo da carreira, Boechat desenvolveu um estilo próprio de colunismo e passou a assinar uma coluna diária no jornal O Globo, reproduzida por diversos veículos do país.

Na época da entrevista, também atuava na televisão e acumulava reportagens de grande repercussão.

“Eu quero é a primeira página, dar notícias que abalem o leitor, mudem o seu dia.”

Entre os assuntos que havia revelado estavam os casos dos bancos Marka e FonteCidam, que acabaram sendo investigados por uma CPI, além da nomeação de Armínio Fraga para a presidência do Banco Central. (Observação da redação: Qualquer semelhança com os dias de hoje não é mera coincidência)

“Quero jogar bola, pescar, não fazer nada”

Questionado sobre algo que ainda gostaria de realizar profissionalmente, respondeu com bom humor:
“Me aposentar. Quero jogar bola, pescar, não fazer nada.”

Boechat também fez uma reflexão sobre a cultura permanente de produtividade.
“A humanidade foi adestrada para produzir, trabalhar. Coisas como contemplar, passear, divagar, que têm muito a ver com nossa natureza, foram sendo mascaradas pela ideia de produção. O ser humano tem que se manter ocupado, mas não tem que estar, necessariamente, trabalhando.”

O livro sobre o Copacabana Palace

Naquele período, Boechat havia lançado o livro Copacabana Palace – Um Hotel e Sua História, resultado de onze meses de trabalho.

“Fiquei impressionado com a importância do hotel para a história do Brasil. O Rio era a Capital da República, e o Copa dividia com o Palácio do Catete a condição de espaço onde as coisas aconteciam.”

Uma história curiosa com a fiscalização rodoviária

Boechat também contou um episódio envolvendo seu Land Rover Defender, que tinha capacidade para 11 passageiros.

Ao viajar para Teresópolis, foi parado por um patrulheiro, que constatou que sua habilitação não permitia dirigir um veículo com aquela capacidade.
Surpreso, acabou sendo liberado após o policial entender que agia de boa-fé. Mais tarde, ao ser parado novamente em outra estrada, encontrou o mesmo agente.

“Eu disse a ele: ‘Não acredito que seja o senhor outra vez!’. Ele respondeu: ‘Nem eu, que o senhor ainda não tenha tirado a carteira!’.” Depois disso, Boechat regularizou a situação.

Boechat defendia qualidade nas rodovias

Ao falar sobre a concessão de rodovias para a iniciativa privada, Boechat adotou uma posição pragmática.
“Melhora ou não melhora? Se melhora, eu sou a favor.”

Para ele, o ponto central era a qualidade do serviço prestado ao usuário.

“A minha preocupação é saber se a dignidade do usuário está sendo respeitada e melhor atendida como consumidor. Eu não sinto minha soberania nacional atingida porque alguns quilômetros de asfalto estão nas mãos de alguma empreiteira. Eu não quero buracos e apenas espero que os pedágios sejam compatíveis com os padrões internacionais.”

Nota da Redação:

Boechat previu o futuro?

Mesmo nos momentos mais deprimentes da nossa história política, Boechat não perdia o bom humor. Nas manhãs da BandNews FM, dividia com José Simão um quadro em que os dois destrinchavam a política brasileira com ironia, sarcasmo e aquela irreverência que transformava indignação em riso.

Foi ali que nasceu o PGN — Partido da Genitália Nacional. Boechat era vice-presidente; Simão, presidente. E a brincadeira saiu do estúdio: no seu célebre Twingo 2001, Boechat circulava com o adesivo do “partido” estampado no carro.

Na época, era piada. Hoje, olhando para certas cenas que se repetem nos três Poderes, fica difícil não reconhecer algum talento profético naquela dupla.

No seu Twingo favorito, Boechat circulava com o adesivo do PGN-Partido da Genitália Nacional Foto: Rede Bandeirantes

Boechat e Simão talvez estivessem apenas fazendo humor. Ou talvez já estivessem antecipando o futuro.

Recomendação: para quem tem interesse em conhecer melhor esse gênio do jornalismo brasileiro, vale a pena assistir à entrevista concedida por Boechat, no auge de sua trajetória na Band, ao seu grande amigo, o jornalista Aziz Ahmed, poucos meses antes de sua morte.

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