No dia 6 de abril de 2026, o caminhoneiro Tiago Arthur Bueno, com toxicológico vencido há dois anos, causou a morte da professora Vanessa, e de seu filho Pedro, num engavetamento com 19 veículos na BR-376/PR.
Nessa quarta-feira (27), Tiago foi ouvido pela Justiça em audiência virtual — ele está preso por tráfico de drogas desde novembro de 2025.
Caminhão irregular e freios com defeito
Apuração exclusiva do portal Estradas revelou na época uma série de irregularidades que antecederam a tragédia. O cronotacógrafo do veículo — equipamento obrigatório que registra velocidade, tempo de direção contínua e jornada do motorista — estava com a validade vencida.
Além disso, o exame toxicológico de Tiago estava vencido desde 2021, o que o impedia legalmente de exercer a profissão. Tiago foi preso no dia do sinistro (acidente) por homicídio e lesão corporal culposos, mas foi solto no dia seguinte.
O veículo pertencia à transportadora Rodoposser e se encontrava em péssimas condições de manutenção. O policial rodoviário federal Yuri Ranzani detalhou o estado do caminhão: “Os PRFs verificaram que o sistema de freio estava com defeito. Havia mangueiras isoladas e falta de peças em partes do sistema, o que compromete totalmente a eficiência da frenagem — a ponto de não reduzir ou nem mesmo parar o caminhão. Uma das causas principais do acidente é essa.”
Envolvimento com o tráfico
Na ocasião do sinistro, o motorista foi submetido ao teste de alcoolemia, mas não foi coletado material para exame toxicológico de cabelo — procedimento que indicaria uso de drogas frequente —, justamente porque o exame obrigatório da categoria estava vencido havia dois anos.
Em 5 de novembro de 2025, Tiago foi flagrado em um posto de gasolina na rodovia Raposo Tavares (SP-270), no município de Cândido Mota (SP), transportando mais de 1,8 tonelada de maconha em um caminhão.
De acordo com o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP), ao perceber a aproximação policial, ele tentou se afastar, mas foi abordado. Primeiro alegou que o veículo estava vazio; em seguida, mudou a versão para transporte de aparas de madeira. Somente quando os policiais iniciaram a vistoria é que confessou o crime.
Segundo a denúncia, ele relatou informalmente que havia pegado a carreta já carregada em Foz do Iguaçu (PR) e a levaria até Cotia (SP).
Tiago permanece preso, desde então. Em março de 2026, foi condenado a 5 anos e 10 meses de reclusão — razão pela qual participou da audiência sobre o caso da professora Vanessa de forma virtual.
O dono da Rodoposser, Edelar Júlio Posser, também prestou depoimento na audiência e poderá ser condenado. Segundo Lauro Costa Maciel, pai de Vanessa e avô de Pedro, tanto o empresário quanto o motorista responderam apenas às perguntas feitas pelos advogados. Ele disse que o seu advogado informou que o juiz tem 30 dias para decidir se o caso vai a júri popular ou ele pode proferir a sentença com os elementos que já possui.
Para Lauro, a demora no julgamento representa uma dor a mais no processo de luto. “Todo dia o vazio somente aumenta, porque são três anos, um mês e alguns dias que estou sem a minha primeira filha, a mais velha — a Vanessa — e sem o meu primeiro neto. E os perdi bestamente, numa situação que foi criada, não um acidente. É difícil. O vazio continua. O corpo dela não está mais aqui, mas ela vive no meu coração. Os dois vivem, e é isso que está me mantendo em pé, me mantendo vivo”, desabafou com os jornalistas.
Motoristas usuários de drogas na logística do crime
O caso reacende o alerta sobre a exploração de caminhoneiros dependentes de drogas pelo crime organizado. Em seu estudo “As Drogas e os Motoristas Profissionais“, Rodolfo Rizzotto, coordenador do SOS Estradas, aponta que esses trabalhadores são frequentemente recrutados para transportar drogas, armas, munição e contrabando escondidos em meio a cargas legalizadas.
Para Rizzotto, o caso de Tiago é emblemático: “A transportadora negligente contrata um caminhoneiro que não faz o toxicológico, entrega um veículo precário e, depois que ele mata duas pessoas, alega que foi um acidente. Pouco tempo depois, o mesmo motorista é preso transportando drogas — indício claro de que se trata de um criminoso contumaz. Por isso, o combate ao uso de drogas por motoristas é fundamental, tanto para garantir a segurança viária e evitar tragédias como a da família do seu Lauro, quanto para impedir que o crime organizado encontre essa mão de obra.”
Rizzotto lembra ainda que os familiares e amigos das vítimas não aparecem nas estatísticas mas sofrem por décadas com a ausência dos entes queridos. “O seu Lauro não aparece nos dados sobre sinistros nas rodovias mas ele é um mutilado e a demora da Justiça revela a crueldade do sistema.”





