Ministro da Infraestrutura conversando com representantes dos caminhoneiros autônomos

Após 4 horas de reunião com integrantes da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), presidida por Diumar Bueno, e cerca de 20 lideranças dos caminhoneiros, o Ministério da Infraestrutura, por meio do ministro Tarcísio Freitas, firmou com a categoria uma agenda de trabalho a curto prazo. O foco é demonstrar boa vontade do Governo e evitar a paralisação dos caminhoneiros prometida para o dia 29 de abril. Dentre os que prometeram a greve, está Wanderlei Alves, conhecido como Dedéco. Ele e Diumar Bueno foram os que apareceram ao lado do ministro anunciando o acordo e suspensão do movimento.

Enquanto isso, nas redes sociais, caminhoneiros já anunciavam que não apoiariam greves neste momento e inclusive caminhoneiros do Porto de Santos gravaram vídeo com mensagem para Dedéco, deixando claro que não o consideram uma liderança. Ele foi candidato a deputado federal pelo Podemos do Paraná e teve menos de 2.000 votos. Pouco para alguém que se apresentava como líder da categoria, num dos estados com mais caminhoneiros no país.

Já Diumar Bueno está há mais de 30 anos liderando sindicatos, preside a Fenacam- Federação Interestadual dos Transportadores Rodoviários Autônomos de Bens, desde 2005, e a CNTA- Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos, desde a sua fundação em 2012. Além disso, tem várias empresas de ramos diferentes. Ganhou certa projeção como piloto de Fómula Truck, da qual se afastou após grave acidente. Muitos caminhoneiros o definem como “dono”  da CNTA e Fenacam e Dedéco como uma de suas crias. Para evitar o desgaste da CNTA, Diumar colocaria personagens como lideranças de greves que na realidade são controladas no Paraná pela CNTA. Na paralisação de 2018, ainda no Governo Temer, Diumar assinou protocolo com o Governo mas não conseguiu terminar com a greve. Foi necessária a presença das Forças Armadas e ação competente da PRF.

Segundo comunicado do próprio ministério, após ouvir as reivindicações, foram firmados os seguintes compromissos:

-Estudar a eliminação de multas desnecessárias aos caminhoneiros; (Não foram divulgados mais detalhes do que isso, de fato, significa)

-Transferência do custo do diesel para a tabela do frete; Obs: Proposta defendida pelo Estradas.com.br , já que consideramos que o custo do diesel é a mesma coisa que o custo do pedágio e não faz parte do valor do serviço de frete. Ao dissociar uma coisa da outra, o Governo libera a Petrobras para seguir o mercado internacional de petróleo, com aumentos ou redução de preços. 

-A fiscalização efetiva da referência de custo do piso mínimo do frete; (Neste caso, inclui os caminhoneiros no processo de fiscalização e denúncia de quem não cumpre a tabela de frete)

-A celebração de um termo de compromisso com as entidades representantes da categoria para tornar mais efetiva a fiscalização.

De acordo com o ministro Tarcísio Gomes de Freitas, “a construção dessa agenda vai amortecer o efeito do diesel, vai fazer com que o dinheiro sobre na contratação de cada frete e vai fazer com que a referência de preço seja praticada”, disse. “Estamos com uma agenda sólida, que está sendo construída com base numa conversa e nos pleitos dos caminhoneiros”, finalizou Freitas.

AVALIAÇÃO DO ESTRADAS

Não há dúvida de que o Governo está preocupado com o risco de paralisações. Para isso, busca soluções de um problema complexo que, conforme o ministro já admitiu várias vezes, tem muitos interlocutores e todos têm razão ou bons argumentos.

Além dessa determinação de encontrar uma solução, o que é muito positivo, é preciso que o Governo bote ordem na casa. Em primeiro lugar, reduzindo o número de interlocutores da categoria. Independente da liderança ser questionada pela maioria dos caminhoneiros, Diumar Bueno pelo menos representa uma Confederação. Conversar com personagens que dizem ser lideranças, mas não têm representatividade formal torna tudo mais difícil. Entretanto, o Governo precisa ficar mais atento quanto ao histórico das lideranças das entidades da categoria porque a maioria vive disso há décadas. São os presidentes eternos.

Na nossa avaliação, apesar do susto vendido ao Governo, a maioria dos caminhoneiros sabe que não contaria neste momento com o apoio da população que teve em 2015 (Governo Dilma) e parte em 2018 (Governo Temer). Da mesma forma, temem que os militares não sejam tolerantes com eventuais paralisações como foram anteriormente. Não vislumbramos a curto prazo possibilidade concreta de paralisação. Qualquer movimento agora poderia demonstrar falta de força e desmoralizar as lideranças que têm assento à mesa com o Governo. Por isso, vendem susto mas não querem pagar para ver. Sabem que não controlam de fato os caminhoneiros e que podem surgir novas lideranças que questionem os “donos” das entidades.  Além do mais, sabem perfeitamente que se não fosse o uso da violência nos movimentos anteriores, financiada por “forças ocultas” , as paralisações não teriam ocorrido.

Coincidentemente ou não, os movimentos nunca fizeram paralisações na porta dos embarcadores, onde a pressão para negociação do frete seria maior e mais eficiente, como sugeriram alguns veteranos da pista. Obstruir estradas tem mais cara de movimento político, o que realmente aconteceu, do que buscar soluções para a categoria. Nesse papel, a estratégia foi sempre jogar nas costas do Governo a responsabilidade para encontrar soluções, reduzindo impostos, baixando pedágio e diesel, e até prometendo construir pontos de parada.

Portanto, o Governo está encontrando seu caminho de negociação, diminuindo o número de interlocutores. A iniciativa de dissociar o valor do diesel do serviço de frete foi uma boa medida. Vai produzir resultados práticos e aliviar a Petrobras. Tornar caminhoneiros fiscais da tabela do frete é mais complicado e vai causar desgastes porque o Governo não tem estrutura para atender às denúncias. Isso pode soar como falta de compromisso das autoridades, quando na realidade, na nossa avaliação, é quase impossível de ser fiscalizado de fato. Até porque a concorrência entre transportadores, autônomos, cooperativas, torna ainda mais difícil manter uma tabela.

Faltou um aceno do Governo para os motoristas empregados, já que representam 50% da categoria e não confiam nos próprios sindicatos, quanto mais nos representantes dos autônomos. Os caminhoneiros que trabalham para as transportadoras sofrem com excesso de jornada, salários baixos e despesas maior do que eventual diária, quando recebem, dentre outros.

O Governo precisa agora impor autoridade, não comprar tanto susto e apertar os donos da carga, principalmente certos segmentos que tradicionalmente exploram transportadoras e caminhoneiros, sejam autônomos ou como empregados. O Governo já demonstrou boa vontade e está oferecendo soluções, ainda que muitas delas inócuas por falta de conhecimento. Mas é preciso dar um basta e todo mundo focar no trabalho. Quando o Brasil fica nesse anda e para ninguém chega ao destino almejado por todos, não importa o veículo.

 

 

 

 

 

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