Por uma brecha da lei, concessionárias do serviço público
das áreas de rodovias e telecomunicações doaram ao menos R$
30,2 milhões para partidos e candidatos no país entre 2002 e
2004 -principalmente para o PT e o PSDB. A lei eleitoral proíbe
candidatos e partidos de receber qualquer tipo de doação de
concessionárias e permissionárias do serviço público.
Segundo levantamento feito pela Folha, as donas da
concessão fizeram doações por meio de empresas controladoras,
associadas ou controladas, ligadas à holding que detém
autorização do governo de operar. O presidente do TSE (Tribunal
Superior Eleitoral), Marco Aurélio de Mello, disse que a lei
está sendo burlada. “A rigor, nós temos uma fraude. O espírito
da lei é impedir promiscuidade entre público e privado”,
afirmou o ministro, que analisou o assunto em tese, sem
interpretar um caso concreto.
“É uma burla ao sistema”, disse o advogado eleitoral e
professor da Universidade de Brasília Tarcísio Carvalho. No
entender do presidente do TSE, campanhas e candidatos também
deveriam recusar doações de empresas de lixo que têm contratos
com o serviço público -o que as enquadra como
“permissionárias”.
O número de doações dissimuladas seria então muito maior.
Segundo dados do TSE e do site “Às Claras”, da ONG
Transparência Brasil, apenas duas empresas do setor, a Vega
Engenharia Ambiental e a Qualix Serviços Ambientais, doaram R$
11,1 milhões nos anos eleitorais de 2002 e 2004, tanto para
candidatos de partidos diversos como para as direções nacional
e estadual de São Paulo do PT e do PSDB.
A prática das doações dissimuladas, visível nas
prestações de conta das campanhas anteriores, também deverá
ocorrer nas deste ano. No último dia 1º, o candidato à
Presidência Geraldo Alckmin (PSDB-SP) se reuniu em São Paulo
com 16 executivos de teles. Antes de sua chegada, o empresário
João Dória Júnior, colaborador da campanha tucana, falou da
importância de contribuir para a candidatura de Alckmin. Como
trata-se de concessionárias, João Dória recomendou que doações
fossem feitas por meio das controladoras ou dos fornecedores
das teles.
Pedágios O caso das concessionárias que exploram pedágios
em rodovias federais e estaduais é o financeiramente mais
expressivo. Grandes e médias empreiteiras que detêm
autorizações do Estado e da União para operar aparecem como
doadoras oficiais de cerca de R$ 23 milhões nos últimos quatro
anos. A construtora OAS detém 32,87% das ações da CRT
(Concessionária Rio Teresópolis), responsável por 156 km de
rodovias no Rio de Janeiro.
A empreiteira doou R$ 4,3 milhões para a direção do PT em
2002, 2003 e 2004 e mais R$ 2,72 milhões na campanha de 2002
-incluindo R$ 550 mil para o comitê do então candidato Luiz
Inácio Lula da Silva. O Grupo CCR domina 1.452 km de rodovias
sob responsabilidade de seis concessionárias, incluindo a Nova
Dutra, que liga São Paulo e Rio de Janeiro, e a AutoBan, no
interior paulista.
O grupo é comandado por empreiteiras como a Andrade
Gutierrez, por meio da sua empresa AG Concessões, e a Camargo
Corrêa. Nos milhares de prestações de conta ao TSE, não há
doação eleitoral do CCR. Mas as duas empreiteiras doaram,
juntas, R$ 2,7 milhões a candidatos diversos nas eleições de
2002. A de Camargo Corrêa foi feita por meio de outra empresa
do grupo, a Cavo.
A empreiteira Carioca Christiani Nielsen, que detém 24%
das ações da concessionária Viapar, exploradora de 546 km de
rodovias no Paraná, doou R$ 1 milhão para campanhas eleitorais
de 2004, R$ 400 mil para a direção do PT de São Paulo em 2003 e
mais R$ 400 mil para a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva em
2002. Outra dona de 24% da mesma concessionária, a Queiroz
Galvão doou R$ 260 mil na campanha eleitoral de 2002. Na área
das telecomunicações, aparecem doações no valor total de R$ 6,2
milhões. A Star One, resultado de uma parceria da Embratel com
uma empresa francesa, doou R$ 3,37 milhões em 2002, dos quais
R$ 750 mil ao comitê de Lula.
O TSE registra ainda R$ 410 mil em doações do shopping
Iguatemi, da família Jereissati, dona da La Fonte, que tem
participação na companhia Telemar Norte Leste. A Andrade
Gutierrez, dona da AG Telecom, volta a figurar na área das
teles, ao deter 10,28% das ações da Telemar Participações. O
grupo Pirelli, dono de parte da Olivetti (incorporada à Telecom
Italia), doou ao menos R$ 2,4 milhões em 2002 e 2004. Na
disputa municipal, a divisão foi milimétrica: R$ 501 mil ao
PSDB e R$ 500 mil ao PT.




