ALÉM DAS BARREIRAS: O amor pelo que faz é o combustível que move o dia a dia dos mais de dois milhões de caminhoneiros no país e faz com que o trabalho ultrapasse as barreiras. Foto: Aderlei de Souza

Escolha pela profissão está no sangue de milhares de brasileiros

Quem imaginaria que o servidor público Cajau Antonelli, de 45 anos, pudesse deixar de lado o emprego na Secretaria de Justiça do Espírito Santo para ser mais um caminhoneiro, entre os cerca de dois milhões de profissionais no país?

Pois bem, ele decidiu, em 2014, dar um ‘stand by’ no que fazia – mesmo depois de se formar em Direito, em 2012 -, para enfrentar a vida dura nas estradas brasileiras.

Na profissão desde então, ele conversou com a reportagem do Estradas para falar um pouco de sua experiência como caminhoneiro. Veja o relato.

“Eu vou dizer para você que ser caminhoneiro é muito legal, é muito bacana mesmo. Mesmo a gente sabendo que ser caminhoneiro é uma profissão que exige muito sacrifício. Por causa das dificuldades do dia a dia, das estradas inseguras, das intempéries que nós enfrentamos a cada viagem, por causa das privações que nós temos, da vida social, das datas comemorativas que a gente passa longe da família. Por tudo isso.

Mas uma coisa que compensa: é que a gente sabe que nossa profissão é muito importante e é essencial para a economia desse país. Pelas nossas janelas, a gente vê paisagens diferentes todos os dias. Lugares muitos bonitos, lugares diferentes, lugares que a gente nunca imaginou passar.  E a gente sabe que as cargas que transportamos são muito importantes pra quem envia e pra quem recebe.

Isso faz a nossa profissão muito especial. E a gente faz isso com muita dedicação, com muito zelo, profissionalismo e com muita seriedade. São coisas que somente um estradeiro sabe o que é. Então eu desejo nesse dia, um feliz Dia do Caminhoneiro”.

DA JUSTIÇA PARA AS ESTRADAS: Cajau Antonelli, de 45 anos, deixou o emprego de servidor público no Espírito Santo para percorrer as estradas do país. Foto: Arquivo Pessoal
Exame toxicológico

Sobre o assunto do momento, a obrigatoriedade ou não do exame toxicológico, Cajau Antonelli falou com segurança sobre o que pensa a respeito.

“Em 2015, quando foi aprovado o exame toxicológico, a gente não entendia direito como seria e o que seria. Naquela época, eu fiz um vídeo sobre isso e achava que o exame toxicológico ia tirar o emprego de muita gente. Eu comecei a ver isso.

Mas, hoje, eu tenho outra visão. O motorista não pode dirigir influenciado por uma substância psicoativa. Está na lei. É proibido. E a lei tem que ser cumprida.

A CNH é uma concessão. Não é um direito adquirido. O estado concede a CNH mediante alguns critérios. Um deles, é o exame toxicológico. A pessoa tem uma escolha: ou opta pelo uso da droga ou opta por ser um motorista profissional.

Se ele optar pelas drogas, as estradas vão ficar um pouco mais segura, longe dele. Porque ele não vai ter sua CNH renovada. Se ele optar por ser motorista, as estradas vão estar mais segura também, porque ele vai ficar longe das drogas.

O motorista não pode escolher dirigir e usar drogas. Ou um ou outro. A função social do exame toxicológico é muito impactante. Qualquer escolha do motorista, vai deixar a estrada mais segura.

O exame toxicológico é caro. Sim, é caro, mas o SUS não pode pagar, não pode bancar. O estado podia bancar? Talvez, quem sabe. Podia ser mais barato? Podia.

Esse programa é muito importante. É uma política pública muito importante. Mas, o nosso presidente quer acabar. Ele que é um combatente de drogas, que tem essa ideologia de combater drogas. A gente acredita nisso, a gente acredita que realmente ele queira isso, e a gente quer também. Mas ele está meio equivocado, querendo acabar com a obrigatoriedade do exame toxicológico. Porque ele quer combater uma falha num lado, mas, por outro, ele está sacrificando o exame, que é uma política pública muito importante. Ele não está se dando conta disso”.

Amo o que faço

A vida do caminhoneiro Francisco Pereira de Oliveira Júnior poderia ficar melhor se as oportunidades de frete fossem melhores. Apaixonado pela profissão, com 37 anos e 13 de estrada, Júnior diz que não tem nada melhor na vida. Ele percorre o trecho do sudeste e sul do Brasil transportando carga seca em seu caminhão carroceria.

AMOR PELAS ESTRADAS: Francisco Pereira de Oliveira Júnior, de 37 anos, é um grande apaixonado pela profissão. Caminhoneiro há 13 anos, ele não está muito feliz com a atual política do frete. Foto: Aderlei de Souza

Mas, como nem tudo são flores, Júnior disse que a situação ficou mais complicada depois da decisão do governo federal tirar a tabela do frete. “O que me deixa triste hoje é a questão da tabela do frete. O governo federal tirou a tabela e nos prejudicou muito. Às vezes, eu fico até três dias para conseguir uma carga. A gente sabe que nem todas as empresas cumpriam essa lei, mas agora, depois dessa medida do governo, voltamos à estaca zero”, completou.

Sobre a obrigatoriedade do exame toxicológico, Júnior disse apoiar integralmente a lei. “Eu apoio totalmente. Infelizmente tem muitos colegas que fazem uso. Eu concordo com a realização do exame, mas discordo do valor. Poderia ser mais em conta”.

Vida difícil

O caminhoneiro Cícero Luiz de Lima Silva, pernambucano de Serra Talhada, viaja por todo o Brasil desde 2006. Segundo ele, a vida nas estradas é bem difícil. “Me profissionalizei como motorista em 2002 e, a partir de 2006, passei a viajar por todo o Brasil conhecendo várias culturas.

De temperamento calmo, Cícero entende que a vida do caminhoneiro nos dias de hoje está cada vez mais complicada por conta do custo do óleo diesel, dos pedágios e da manutenção do caminhão.

“Se for analisar bem, pra gente ter bons ganhos, precisa também a empresa ter bons lucros. Se ela tem dificuldade com os fretes, ela vai cortar algumas coisas na gente. Recentemente, foi cortada a hora extra. A gente só pode fazer duas extras por dia. Isso é reflexo de falta de frete, de frete ruim. Isso acaba atingindo a gente, que trabalha no CLT”, explicou.

VIDA DIFÍCIL: O pernambucano Cícero da Silva, de 45 anos, fala da profissão de caminhoneiro com muita propriedade. Calmo e sempre de bem com a vida, ele está no trecho há 13 anos. Foto: Aderlei de Souza

Silva também afirma que o transportador não quer pagar o frete estabelecido. “As empresas não querem pagar o frete. Não querem mesmo. Agora, então, com a retirada da tabela, menos ainda. Muitas vezes, elas seguram a carga. Porque aí oferece pra um, pra outro. Um não quer, outro quer. E acaba passando um frete barato pra alguém. Porque sempre aparece alguém que pega”, disse.

Sobre a questão de drogas, Silva disse que o uso de drogas, como rebites, cocaína e outros tipos, é algo que faz um mal tremendo, mas infelizmente tem muita gente que faz uso. “A obrigatoriedade do exame toxicológico é muito boa para que os maus motoristas fiquem de fora das estradas”.

Profissão ‘involuiu’

O jovem mineiro Gustavo Santana, de 27 anos, começou cedo na profissão de caminhoneiro. Aos 19 anos, em 2010, ele resolveu pegar a estrada. Trabalhou no transporte de veículos novos (cegonha) por quase seis anos. Foi duas vezes finalista em um concurso de motoristas profissionais e é apaixonado por caminhões.

Santana disse que a profissão involuiu no que diz respeito à valorização profissional. Segundo ele, é uma das atividades mais importantes do país. “É de extrema importância e fundamental para o desenvolvimento. Porém, infelizmente, com o passar dos anos, nossa atividade está perdendo o romantismo. Hoje, um pai não quer isso para seus filhos. Dificilmente hoje você vai ver na rodagem um pai incentivando que deseja que um filho seja um caminhoneiro, devido às condições que, a cada dia que passa, estão mais difíceis”, ponderou.

Santana vai além e explica: “Por exemplo, é uma atividade que está beirando à sua insustentabilidade. Nós estamos chegando a um pico de ser inviável colocar um caminhão pra rodar. O custo operacional, a cada dia que passa, sobe. E, além disso, nós temos uma questão mercadológica. Ou seja, pelo fato de a economia estar capengando, a demanda caiu; há excesso de motoristas, há excesso de caminhões e não tem tanta carga pra transportar”, disse.

DESCRENTE: Gustavo Santana, 27 anos, começou cedo na profissão; aos 19, caiu no trecho e trabalhou com ‘cegonha’ até 2015. “Infelizmente, nossa profissão está muito desvalorizada”. Foto, : Aderlei de Souza

O caminhoneiro falou também sobre a obrigatoriedade do exame toxicológico. “Eu sou irredutivelmente contra a maneira como o exame é exigido hoje. Ele está aqui para ajudar? Sim, mas não dessa maneira. Porque ele não possui nenhuma eficácia comprovada na redução do número de acidentes de trânsito. Não tem eficiência nenhuma. Eu sou a favor do exame toxicológico, sim, abrangente para todas as categorias, A, B, C, D e E tanto na obtenção quanto na renovação, porém em flagrante, ou seja, o exame por meio de saliva ou urina; não na maneira como ele é realizado hoje”, disse.

Origem da data

O Decreto nº 63.461, de 21 de outubro de 1968, oficializa o dia 25 de julho como o “Dia do Motorista” no Brasil. Por outro lado, a data é comemorada no Dia de São Cristóvão, santo católico considerado o padroeiro dos motoristas no Brasil.

Diz a lenda que São Cristóvão queria servir o rei mais poderoso da Terra e decidiu venerar o Diabo. No entanto, durante uma viagem, conheceu um ermitão que mostrou ser Jesus Cristo o “Rei dos Reis” e a entidade com mais poder no Universo.

Certa vez, segundo a lenda, Cristóvão colocou um menino nas costas e a cada passo que dava o seu peso ia aumentando. Cristóvão disse: “Parece que estou carregando o mundo nas costas”, então o menino respondeu: “Tiveste às costas mais que o mundo inteiro. Transportaste o Criador de todas as coisas. Sou Jesus, aquele a quem serves”. Assim, passou a ser conhecido como o protetor e padroeiro dos viajantes e motoristas.

SEMPRE ATENTO: De sol a sol, o estradeiro está sempre atento e em busca de dias melhores junto com seu bruto. Foto: Aderlei de Souza

Dia do Caminhoneiro

No Brasil, existem três datas comemorativas que homenageiam os caminhoneiros: 30 de junho, 25 de julho e 19 de setembro. O 30 de junho é considerado uma data regional, pois celebra a profissão de caminhoneiro na região do estado de São Paulo. Esta data foi oficializada através da lei nº 5.487, de 30 de dezembro de 1986.

Já no âmbito nacional, o então vice-presidente do Brasil, José Alencar Gomes da Silva, decretou através da lei nº 11.927, de 17 de abril de 2009, o Dia Nacional do Caminhoneiro para ser comemorado em 19 de setembro.

O Estradas parabeniza a todos os motoristas do Brasil pela data especial.

DEIXE UMA RESPOSTA

Você digitou um endereço de e-mail incorreto!
Por favor, digite seu nome aqui