Especialista fala sobre trabalho de redução de acidentes nas estradas causados por sonolência dos motoristas de ônibus.

Médico, com pós-graduação em Pneumologia e Medicina do Sono, no Hospital Saint Antoine em Paris na França, membro da Sociedade Brasileira de Sono, da qual foi vice-presidente, e de associações estrangeiras. Palestrante reconhecido internacionalmente pelo trabalho realizado com motoristas rodoviários no Grupo Águia Branca, considerado o maior projeto do gênero no mundo.

Em 2000, os diretores do Grupo Águia Branca, sempre preocupados em melhorar as condições de segurança do transporte de passageiros e cargas, convidaram Sérgio Barros a realizar um trabalho pioneiro com os motoristas da empresa. Foi o primeiro quilômetro de uma história de sucesso, cujo melhor resultado é a redução praticamente a zero de acidentes graves, causados por sono, em cinco anos.

Barros explica que a Viação Águia Branca sempre esteve focada na prevenção de acidentes, o que facilitou o trabalho, na medida em que havia comprometimento da empresa em apoiar o projeto.

A eventual resistência dos motoristas era um obstáculo a ser enfrentado, mas decisões que a empresa tomou, permitiram que os profissionais entendessem melhor os objetivos do projeto. “Nenhum motorista é demitido por ter um distúrbio do sono”, afirma Sérgio Barros.

“O que fazemos é um conjunto de ações, que vão desde a polissonografia, até a instalação de salas de recuperação nos pontos de parada nas rodovias”, informa. Atualmente, são dois laboratórios instalados nas garagens das empresas do grupo, e oito salas de recuperação em pontos de parada de rodovia, o que desperta o interesse de especialistas de todo mundo.

Barros explica que o trabalho é realizado em várias frentes. Pessoalmente ele visita as residências de motoristas para ver em que condições dormem. “Numa dessas visitas descobri que o motorista dormia numa casa com telhado de eternit sem forro, com infiltração, num colchão ruim, num ambiente com ruído, mas tinha uma televisão de 21 polegadas e vídeo-cassete”.

Além de orientar os motoristas, os familiares também são esclarecidos sobre as condições ideais de alimentação e descanso. “Melhoramos as condições dos alojamentos dos motoristas, mas também financiamos a compra de colchões de qualidade”, acrescenta Barros.

Sérgio Barros também conhece todas as rotas que os motoristas percorrem e acompanha seu desempenho, são realizados testes desenvolvidos por ele e que despertam interesse nas conferências que realiza no exterior, como fez em Paris, em novembro do ano passado.

“Motorista com sono não viaja”, afirma categórico. Além do teste que é feito antes da viagem para avaliar os reflexos dos motoristas, o Grupo Águia Branca instalou salas de recuperação nos pontos de parada. “São 8 salas, com atividade física monitorada, alongamento, lanche com alimentos balanceados e iluminação especial” .

A quantidade de lux é previamente determinada e contribui para recuperar os reflexos do motorista. O trabalho realizado por Barros e sua equipe está conquistando passageiros. “Há algumas linhas em que transportamos muitos médicos que vão para o interior e eles ficam impressionados com o trabalho que desenvolvemos e visitam as salas de recuperação dos motoristas nas paradas de apoio”, reconhece, orgulhoso, Barros.

Os motoristas estão cada vez mais conscientes da importância de bons hábitos de alimentação, repouso e atividade física para exercer com segurança sua profissão e melhorar a qualidade de vida. “Na Bahia muitos motoristas tinham o hábito de comer uma farofa com carne nas paradas. Expliquei porque aquela alimentação não era adequada para quem vai dirigir.” Revela Barros, que faz questão de esclarecer as razões das medidas tomadas pela empresa.

Todos os acidentes que ocorrem com veículos do grupo são analisados por um comitê de segurança. Atualmente, na prática não há mais registro de acidentes graves causados por sono do motorista.

Barros esclarece que os motoristas não devem dirigir mais de três horas sem parar. As razões são várias. “Na medida em que o motorista vai ficando cansado a capacidade de tomada de decisão numa situação de risco começa a mudar”. Ele lembra que qualquer motorista a 80 km/h vai processando no cérebro milhares de imagens, com o passar das horas isso causa fadiga, provoca sonolência e respostas retardadas aos estímulos do cérebro. Por isso é necessário parar. Quanto maior a velocidade, mais imagens serão processadas e o processo de fadiga ocorre com mais rapidez.

Os acidentes por sonolência ocorrem tanto de dia como a noite, mas a fadiga é maior para os motoristas que dirigem a noite, principalmente, se os faróis não oferecerem uma iluminação adequada. Nesse sentido, a empresa está iniciando o desenvolvimento do projeto “Lumiére”, cujo objetivo é garantir que os motoristas tenham e melhor condição possível de visibilidade quando dirigem a noite.

Os ônibus do Grupo Águia Branca são controlados por tacógrafo e o seu disco diagrama registra a velocidade, distância percorrida e tempo de direção, que depois são analisados cuidadosamente na empresa. “Os motoristas não podem ultrapassar 90 km/h. Muitos motoristas dizem que os passageiros reclamam porque eles andam devagar. Nesse sentido é preciso maior consciência dos passageiros”, lembra Barros. O disco diagrama é comparável a um eletrocardiograma. “Podemos identificar o cansaço do motorista pelas informações do disco diagrama”.

Alimentação no tempo certo também é importante para reduzir os acidentes. Barros explica que o jejum prolongado é uma das causas da sonolência. Portanto, submeter o motorista a dirigir muitas horas sem parar é um grande risco. Defensor da segurança, o especialista defende também a classe dos motoristas. “É preciso que as pessoas entendam que quando um motorista vai viajar às 7h00, ele não chegou na rodoviária 10 minutos antes, ele já está acordado normalmente desde as 4h30min, vai tomar um ônibus para ir a garagem, vistoriar o veículo, depois ir para a rodoviária e fazer o embarque dos passageiros e de sua bagagem. Muitas vezes, na rodoviária, sequer existe um banco para que ele possa descansar antes de começar a dirigir”.

Ele compara a proporção do motorista em relação ao veículo. “Quando você vê um motorista num ônibus de dois andares ele parece insignificante, mas quem vai conduzir aquele patrimônio e as vidas que estão nele é o motorista”. A “pecinha” (motorista) atrás do volante precisa de ter condições adequadas para realizar seu trabalho, assim como os pilotos das aeronaves.

Sobre os excessos cometidos por algumas empresas que obrigam motoristas a dirigir muitas horas, sem as condições adequadas de repouso e alimentação, Barros explica que muitas empresas foram fundadas por pessoas que começaram dirigindo seu próprio ônibus. “Alguns pensam que: Mas se eu dei conta porque meus motoristas não vão conseguir”.

Na avaliação de Sérgio Barros é importante que na concessão de linhas regulares ou autorizações de viagens turísticas e de fretamento, o poder concedente tenha orientação de médicos especializados em medicina do sono e de tráfego, para que possam permitir viagens que levem em consideração as condições de direção segura do motorista e bem estar dos passageiros. “Tenho certeza que diminuirá em muito os acidentes”, encerra Barros.

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