TRÂNSITO: De acordo com Jorge Tiago, o Brasil ainda sustenta um número alarmante de mortes e lesões no trânsito. Além dos aspectos relacionados à dor e ao sofrimento humano, o número elevado de sinistros de trânsito traz um impacto socioeconômico considerável. Foto: Divulgação

Nesta edição da newsletter “Seguradora Líder Informa”, convidamos Jorge Tiago Bastos, chefe do Departamento de Transportes da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutor em Engenharia de Transportes pela Universiteit Hasselt (Bélgica) e Universidade de São Paulo, para abordar os temas mobilidade urbana, velocidade e os impactos da pandemia na segurança viária. Confira a entrevista na íntegra abaixo:

1) Recentemente você esteve envolvido em uma pesquisa que identificava motoristas acompanhados como os mais prudentes no volante. Quais foram os principais resultados desse levantamento?

A pesquisa se constituiu no que se chama de segurança viária de estudo naturalístico, uma metodologia baseada no videomonitoramento da rotina de condução de uma amostra de condutores. Os comportamentos de excesso de velocidade e uso do celular foram avaliados na pesquisa. Os resultados mostram que aqueles condutores que participam da chamada “carona organizada” (ou seja, aquela combinada por meio de aplicativos de carona, como Waze carpool, por exemplo) excedem menos o limite de velocidade e utilizam menos o telefone celular ao volante.

No que diz respeito ao excesso de velocidade, as chances daqueles condutores que não estavam oferecendo carona organizada excederam o limite de velocidade foi cerca de 4 vezes maior do que para aqueles que oferecem carona. Em relação ao uso do celular, o tempo de uso foi praticamente o dobro para os condutores que não estavam oferecendo carona organizada. Dessa forma, podemos considerar que a carona organizada é uma medida positiva para a mobilidade urbana, pois reduz a quantidade de veículos nas ruas e o espaço necessário para estacionamento. Também é positiva para a segurança viária, pois os condutores mostraram comportamentos mais seguros quando acompanhados de seus “clientes” de carona.

2) De acordo com dados do Seguro DPVAT, no primeiro semestre de 2020, mais de 93 mil indenizações foram destinadas a motoristas. Como você avalia esse comportamento?

O Brasil ainda sustenta um número alarmante de mortes e lesões no trânsito. Além dos aspectos relacionados à dor e ao sofrimento humano, o número elevado de sinistros de trânsito traz um impacto socioeconômico considerável, principalmente em termos de custos hospitalares, sobrecarregando nosso sistema de atendimento de saúde, e custos com indenizações, afastamentos do trabalho e aposentadorias precoces. Esses números mostram que o país ainda precisa avançar muito em todos os fatores que afetam a sinistralidade viária, a começar pela educação para o trânsito, incluindo tanto a educação no currículo escolar, a formação do condutor e o planejamento articulado de campanhas com ações de fiscalização. No tocante à infraestrutura rodoviária, ainda há muito o que avançar quanto ao projeto geométrico, qualidade do pavimento e da sinalização de trânsito. Nossas rodovias precisam ser adaptadas para “perdoarem” os erros dos condutores. Especial atenção também deve ser dada aos trechos em que rodovias cruzam áreas urbanizadas, cenário em que pedestres, ciclistas e motociclistas são vítimas extremamente vulneráveis.

No meio urbano, medidas de valorização do transporte coletivo, do transporte a pé e do transporte cicloviário devem nortear as políticas de mobilidade. Por fim, há também muito o que se fazer no tocante à nossa frota veicular, que precisa ser periodicamente inspecionada para que a operação segura dos veículos seja garantida; além da necessidade de renovação da frota, com cada vez mais itens de segurança obrigatórios incorporados aos veículos.

3) Como você avalia a questão da segurança viária durante a pandemia?

Os reflexos negativos no trânsito durante a pandemia podem estar relacionados a dois aspectos. O primeiro deles diz respeito ao aumento da velocidade nas vias ocasionado pela menor quantidade de veículos circulando, dado que quanto menor a densidade de veículos maior é a velocidade da corrente de tráfego. O aumento desse fator de risco, que é o excesso de velocidade, pode contribuir tanto para o aumento do número de sinistros de trânsito quanto para o aumento de sua severidade.

O segundo aspecto diz respeito à uma certa “aversão” ao transporte público coletivo que se criou durante a pandemia, justamente pelo elevado risco de contaminação, principalmente em horários de pico em que o sistema de transporte público opera em sobrecarga. Não há solução para as grandes cidades que não inclua um sistema de transporte público eficiente e de qualidade. Dessa forma, um reforço da cultura do automóvel como alternativa mais adequada e segura para se deslocar é um enorme risco para a sustentabilidade de nossas cidades, tanto em termos ambientais quanto de segurança viária, pois os modos de transporte coletivo são aqueles que proporcionam maior nível de segurança a seus ocupantes.

Cabe destacar, no entanto, também os aspectos positivos, como a redução da exposição ao risco diário de se envolver em um sinistro de trânsito nos deslocamentos casa-trabalho-casa e casa-estudo-casa. Tais impactos merecem o estudo mais aprofundado, a fim de que se consiga mensurá-los adequadamente para que sejam considerados de maneira objetiva nas decisões de planejamento de transportes urbanos.

Fonte: Seguradora Líder

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