Os usuários de rodovias e de áreas urbanas estão acostumados a ver caminhões, ônibus e vans com faixas refletivas nas cores vermelho e branca, afixadas na traseira e nas laterais desses veículos, que chamam atenção, principalmente a noite. Essas faixas são equipamentos de segurança veicular obrigatórios que tem contribuído significativamente para evitar acidentes salvar vidas.

Há poucos dias um carreteiro trafegava na BR-265/MG, sentido Bom Jesus da Penha a Passos, quando, estafado, dormiu ao volante e caiu em uma ribanceira. Um outro motorista que passava pelo local observou os reflexos em destroços na pista e, desconfiado, parou para averiguar. Na ribanceira de cerca de 30 metros ele avistou a carreta acidentada com as rodas para cima com a cabine totalmente destruída. O motorista estava preso às ferragens e pedia por socorro. O condutor alertado que foi pelos reflexos das faixas acionou o resgate. A vítima foi socorrida, passa bem e não corre risco de morte. Neste caso, como certamente em outros que não foram divulgados, uma vida foi salva exatamente porque tinha faixas instaladas e elas refletiam, mesmo quando ele não estava na rodovia.

Segundo a Polícia Rodoviária Federal, colisões laterais e traseiras representam em média 58% dos acidentes com veículos pesados nas rodovias brasileiras e maioria dos acidentes ocorre a noite, quando as faixas revelam seu potencial de segurança.

Apesar da enorme importância da instalação dessas faixas, da simplicidade na instalação e do seu baixo custo se comparado com os benefícios, as polícias rodoviárias têm flagrado veículos sem faixas, conforme determina a legislação, ou pior: com faixas que não refletem nos níveis exigidos pela norma.

Esse descaso ou mera falta de atenção aumenta bastante o risco de colisões traseiras e outros tipos de acidentes. Imaginem uma carreta tombada atravessada na pista à noite numa rodovia de pouca iluminação? A 90km/h, por exemplo, um automóvel de passeio percorre 25 metros por segundo.

Portanto, identificar o quanto antes a presença qualquer obstáculo, como um veículo pesado tombado ou baixa velocidade pode ser exatamente a diferença entre a vida e a morte. Entre uma colisão séria ou apenas um susto.. Daí a importância das faixas.

Para entender melhor o tema o SOS Estradas foi atrás de especialistas em busca de mais informações.

REDUÇÃO DE ACIDENTES

Segundo Rodrigo Telau, da Avery Dennison, multinacional que importa as faixas no Brasil, o uso da faixa refletiva se tornou obrigatório nos EUA em 1993. Estudos mostravam que 50% dos acidentes envolvendo colisão de veículos leves com caminhões ocorriam durante a noite, sendo que 75% das viagens eram realizadas também à noite. A visibilidade noturna é 95% menor do que a visibilidade diurna, tornando o ato de dirigir a noite muito mais perigoso e que exige muita atenção e sinalização. Um estudo de acidentes foi realizado no final dos anos 90 durante 02 anos e demonstrou que os veículos pesados que usavam faixas refletivas sofriam 50% menos acidentes.

Luciana Shoji, responsável pela área de Segurança no Tráfego da filial brasileira da 3M, outra marca de faixa também aprovada pelo Denatran, explicou que o uso das faixas retrorrefletivas permite melhor visibilidade dos veículos de carga que são geralmente mais altos e mais compridos que os demais. “O delineamento dos contornos desses veículos com material retrorrefletivo aplicado pode prevenir significativo número de acidentes, conforme demonstra a experiência de países que possuem legislação similar.” Segundo Luciana Shoji, estudos da National Highway Transport Safety Administration (NHTSA), uma organização do Governo americana voltada para a segurança e prevenção de acidentes de trânsito, cerca de 2.660 vidas foram salvas de 1960 a 2012 devido ao uso de faixas refletivas em veículos pesados. Outros testes também revelaram que entre 1983 e 1985, houve uma redução significativa de 21% em acidentes noturnos e 16% nos diurnos, decorrente do uso de faixas refletivas.

Em 11 de setembro de 2014, um  ônibus  transportando militares da Guarda da Presidência da República, que não possuía faixas refletivas, porque veículos militares não são obrigados, atravessou a pista na MG-344, na altura de Itaú de Minas e acessou a MG-050, praticamente atravessando a pista. Um caminhoneiro vinha normalmente pela estrada, não percebeu a presença do ônibus e colidiu com o mesmo.  Caso o ônibus militar tivesse faixas refletivas provavelmente o carreteiro teria percebido sua presença e o acidente seria evitado.

Ônibus da Guarda da Presidência colide com ônibus - Foto PMRV de Minas
Ônibus da Guarda da Presidência colide com ônibus – Foto PMRV de Minas

O resultado foi choque do caminhão carregado com laranjas e a lateral direita do ônibus, tombando o veículo do Exército. O impacto causou a morte do caminhoneiro, Adão Genésio Morais, de 49 anos, que ficou preso as ferragens e deixou 19 militares feridos, sendo um em estado grave.

Rodrigo Kleinubing, do Instituto de Criminalística do Rio Grande do Sul, autor de vários estudos envolvendo acidentes com veículos pesados, reconhece que as perícias deveriam ser feitas também à noite para verificar o grau de refletividade não apenas das faixas dos veículos como também nas pistas em suas sinalizações viárias horizontal e vertical. Ele explica a importância das faixas nos veículos: “Por exemplo, as colisões de automóveis na traseira de caminhões ou ônibus, de alta gravidade (pelo efeito de cunha e pelo efeito guilhotina), diminuíram significativamente após a obrigatoriedade de aplicação das faixas retrorrefletivas no Brasil, juntamente com a melhoria construtiva dos para-choques dos caminhões, que também devem ter faixa.”

Kleinubing discorre ainda mais sobre os riscos do tráfego noturno e a importância da visibilidade das faixas: “Ocorre que quanto maior a velocidade em que um veículo trafega, muito maior será a sua distância de parada (distância de reação + distância de frenagem) e, portanto, quanto maior a distância de visibilidade maiores são as chances de se evitar o acidente, principalmente entre veículos de médio porte (automóveis) e consequentemente de menor relação peso/potência (mais rápidos) com veículos de grande porte e, portanto, mais lentos. Convém ressaltar que durante a noite o tempo de reação é maior e consequentemente maior é a distância de parada. Os veículos de grande porte, por sua vez, possuem menor eficiência de frenagem e consequentemente maior distância de parada, sendo decisiva também a presença de faixas retrorrefletivas em acidentes entre veículos de grande porte. ”

FAIXAS QUE NÃO REFLETEM

Existem mais de 10 marcas sendo vendidas no mercado e os consumidores ficam confusos e em dúvidas sobre as que efetivamente atendem a legislação. O simples manuseio e visualização das faixas não permite aferir sua eficiência. O comprador, assim, acaba comprando na confiança e pode adquirir um modelo que não está de acordo com as especificações de refletividade. Isso, além de não atender a exigência legal, pode gerar multas e representa um grande risco.

Eduardo Matos, diretor presidente da Sherman Filmes Ópticos do Brasil, explica que pelas Resoluções 128 e 316 do Contran, as faixas refletivas devem ser aprovadas pelo Denatran de acordo com o coeficiente de luminosidade e angulo de observação mínimo estabelecido na tabela do órgão.
“A primeira medida a ser tomada pelas autoridades é em relação às falsificações grosseiras, perceptíveis a olho nu, como por exemplo quando a faixa fica furta-cor quando bate a luz solar e a refletividade é nula. Porém, até mesmo as faixas homologadas podem apresentar características diferentes das especificadas. É muito difícil avaliar se as especificações estão corretas. A dica é sempre exigir a declaração na nota fiscal de que o produto atende aos requisitos do Contran. ”, ressalta Matos.

Luciana Shoji da 3M, acrescenta mais orientações sobre os cuidados que devem ser tomados na hora da aquisição das faixas refletivas. “Primeiramente, realizar a compra em Redes de autopeças (distribuidores e lojas) confiáveis que revendam produtos originais, certificados e homologados pelo DENATRAN e laboratórios reconhecidos. Desconfiar de preços muito diferentes dos praticados pelo mercado ou de produtos que não possuam Notas Fiscais. Qualquer consumidor pode ter acesso às marcas que são homologadas pelo Denatran através do site do www.denatran.org.br , já que as portarias de homologação são públicas e de fácil acesso”.

Já Rodrigo Telau da Avery lembra que é fundamental buscar informações nos sites especializados e em outras fontes para identificar quais são os fabricantes homologados e os diferenciais de tecnologia que cada um oferece em seu produto, além das características técnicas que são exigidas para homologação dos itens. “As Faixas Refletivas homologadas devem exibir, obrigatoriamente, a logomarca oficial de cada fabricante.”, lembra Telau.

A assessoria do Denatran explica que a gravação da marca de segurança das palavras APROVADO DENATRAN deve ter 3mm de altura por 50mm de comprimento, em cada segmento da cor branca do retrorrefletor, ser legível em todos os ângulos, indelével, não podendo ser impressa, mas sim incorporada na construção da película. Consultado sobre como controla a qualidade do que foi homologado com o passar dos anos, o Denatran respondeu através da sua assessoria: “O dispositivo de segurança para prover melhores condições de visibilidade diurna e noturna em veículos de transporte de carga deve ter, obrigatoriamente, suas características especificadas pela normativa do CONTRAN, atestada por Entidade reconhecida pelo DENATRAN, ou seja, acreditada pelo INMETRO, cujas amostras ensaiadas ficam arquivadas no processo administrativo de homologação.”

Vários comerciantes que revendem as faixas revelam que não estão seguros com relação ao que vendem. Giancarlo Posa, proprietário de uma rede de postos na Região Sul do país, observa que é preciso garantir maior orientação para os revendedores: “Não queremos vender produtos fora das especificações. Mas fica difícil para quem vende saber efetivamente se a simples identificação“APROVADO DENATRAN” é confiável ou não. Deveriam fazer testes regulares das faixas, tipo esses que fazem no Fantástico. Afinal, alguém pode homologar hoje e continuar vendendo por dez anos sem nenhum controle da qualidade. Não tem como quem vende o produto para o caminhoneiro estar seguro sobre sua eficiência.”

CUIDADOS PARA AUMENTAR A VIDA ÚTIL

Para garantir a vida útil das faixas, que pode chegar a 7 anos, os cuidados começam na aplicação. As faixas refletivas devem ser aplicadas sobre uma superfície limpa e seca, livre de resíduo de detergente, graxa, óleo, piche ou quaisquer outros contaminantes, para garantia da máxima adesão do produto. A aplicação deve ser feita utilizando espátula plástica para pressionar toda a extensão da superfície da faixa refletiva (em especial as bordas e os cantos).

Para garantir o máximo desempenho das faixas refletivas recomenda-se realizar limpeza periódica ou sempre que necessária de duas formas:
– Lavagem Manual: utilizando esponja, pano macio ou outro material não abrasivo e usando detergente neutro ou apenas água.
– Lavagem com Lavadoras à Pressão: dever ser com temperatura máxima de 60°C e jatos de água devem estar no mínimo 30 cm distantes da Faixa Refletiva, também utilizando materiais não abrasivos.

POLÍCIA RECONHECE DIFICULDADE DE FISCALIZAR

A fiscalização nas rodovias para verificar se os veículos estão com esse equipamento de segurança é feita pelas Polícias Rodoviárias, embora todas reconheçam não ser possível verificar com precisão o grau de retrorefletividade das mesmas, que é feita com equipamentos sensíveis e calibrados. A verificação é visual e, nesses casos, só as falsificações grosseiras são identificadas.

A Polícia Rodoviária Estadual de São Paulo esclareceu, através de sua assessoria de imprensa, que além da fiscalização rotineira feita diuturnamente, realiza a “Operação Saneamento” que visa verificar essa exigência da legislação de trânsito. Em 2015 foram aplicadas 14.110 autuações. Já em 2016 foram aplicadas até julho 6.888 autuações em veículos que não tinham as faixas dentro do padrão. Além de representar uma infração de natureza grave com aplicação de multa no valor de R$127,69 e a inclusão de 5 pontos na CNH do condutor, o veículo ainda pode ser retido para a necessária regularização.

CAMINHONEIROS APROVAM

Nas rodovias os pontos de venda, cujo valor médio por faixa é mais caro do que nas grandes lojas de autopeças, os preços variam entre R$ 6,00 e R$ 8,00 cada faixa. Na média um caminhoneiro gasta entre R$ 200,00 e R$ 350,00 para colocar todas as faixas necessárias, inclusive as do parachoque. A durabilidade das mesmas pode chegar a 7 anos, embora regulamente seja preciso trocar algumas delas antes desse tempo.

O caminhoneiro Antônio Silva, de Feira de Santana na Bahia, diz que vale a pena. “Não é muito caro e, apesar do valor do frete que está muito baixo, compensa pela segurança. Quem anda sempre na estrada sabe que essas faixas ajudam muito a evitar acidentes. ”

Já Adailton Santos, de Adamantina (MG), diz que faixa refletiva foi umas das poucas coisas da legislação que realmente tem seus benefícios. “Com certeza contribui e muito na prevenção de acidentes. ” Luciano Klein, de Ijuí (RS) afirma concordar com a sinalização em veículos pesados. Mas quando se trata de veículos extensos, como o caso das locomotivas, questiona: “Quando que vai haver uma lei pra sinalizar essas tranqueiras? ”

O caminhoneiro Eduardo Oliveira, de Angra dos Reis (RJ) conta sua experiência com as faixas: “Eu aprendi a importância das faixas refletivas quando quebrei numa ladeira dentro de uma curva que a noite não tinha como sinalizar. ”

Neste sentido, Wellington Do Bondy, da cidade de Barcarena no Pará, aborda outro aspecto: “Quando o motorista desmaia por conta de um acidente ou algo assim e não pode sinalizar, as faixas fazem esse trabalho. ”

Paulo Fernandes motorista de ônibus aposentado de Pouso Alegre (MG), lembra: “Várias vezes tive oportunidade de ver veículos quebrados que estavam totalmente apagados a noite mas visíveis graças as faixas.”


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O fato é que as faixas refletivas salvam vidas até de quem não está na pista. Cabe às autoridades verificar quem está respeitando a legislação e garantir que os consumidores não sejam lesados comprando faixas que não refletem.

“As transportadoras e os caminhoneiros já vivem com muita dificuldade. É fundamental fiscalizar a qualidade das faixas para garantir que as empresas transportadoras e os motoristas de carga autônomos não sejam enganados ao comprarem produtos falsos ou fora das especificações. Não é apenas uma questão de relação de consumo entre o fabricante e o consumidor, mas de segurança no trânsito. ”, afirma o Coordenador do SOS Estradas, Rodolfo Rizzotto.

 

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