
Nos últimos três meses, o Estradas.com.br apurou dezenas de acidentes envolvendo ônibus
Na noite desta quinta-feira (14), mais uma tragédia deixou pelo menos duas estudantes mortas e dezenas de feridos, sendo duas pessoas em estado grave, após a colisão de dois ônibus no interior do Ceará. Eduarda e Alessamia foram as vítimas fatais.
Na sexta-feira passada (8), uma colisão entre uma carreta — que trafegava fora do horário permitido — e um ônibus cujo motorista realizava ultrapassagem em local proibido causou 11 mortos na pista e 46 feridos, sendo 12 em estado grave. O ônibus de dois andares transportava 66 pessoas, com capacidade para 70 passageiros. Portanto, a tragédia poderia ter sido ainda maior.
Entre os casos apurados pelo Estradas.com.br, há todo tipo de ocorrência: tombamento, colisão traseira, colisão frontal, saída de pista e até colisão de ônibus com poste em rodovia. São veículos de transporte de estudantes, torcedores, transporte regular, clandestino e até de grupos musicais.
Ao buscar informações sobre o número de sinistros envolvendo ônibus junto aos órgãos responsáveis pelas viagens — como a ANTT – Agência Nacional de Transportes Terrestres, a ARTESP, responsável pelo transporte intermunicipal em São Paulo, e os órgãos dos demais estados — não encontramos dados consolidados.
Nos sites, sequer aparecem anuários ou estatísticas específicas. É como se o assunto não fosse prioridade. Não há metas de redução dos sinistros envolvendo transporte rodoviário de passageiros.
A única fonte confiável é a Polícia Rodoviária Federal, que registra sinistros com vítimas envolvendo ônibus, mas sem identificar se o veículo fazia transporte interestadual (ANTT), intermunicipal (ARTESP, DER etc.) ou se era regular, clandestino ou de fretamento.
Os números da PRF indicam que, em 2024, 3.036 ocupantes de ônibus ficaram feridos em rodovias federais e 179 morreram. Quando incluímos ocupantes de outros veículos — como motos, automóveis e caminhões — envolvidos em sinistros com a participação de ônibus, o número sobe para 407 mortos e 4.697 feridos.
Segundo o coordenador do SOS Estradas, Rodolfo Rizzotto, esse número de feridos e mortos mais que dobra quando incluídas as rodovias estaduais:
“Pelos estudos que já realizamos no passado, é possível estimar que, incluindo as rodovias estaduais, o número de vítimas dobra.”
Além disso, há literalmente dezenas de milhares de passageiros que viveram o drama de um sinistro sem terem ficado feridos. Rizzotto lembra ainda que, mesmo sem ferimentos físicos, estar em um veículo envolvido em colisão ou tombamento pode deixar sequelas psicológicas, especialmente quando há feridos graves ou mortos.
Fadiga e pressão sobre motoristas: uma das principais causas
Logo após os sinistros, seja em mídias sociais ou em depoimentos à imprensa, passageiros costumam relatar que o motorista demonstrava cansaço ou dirigia em excesso de velocidade.
Foi o caso do tombamento de um ônibus do grupo Real Expresso/Guanabara, em maio passado, quando 12 pessoas morreram e o motorista dirigia a 96 km/h em trecho limitado a 60 km/h.
No final de junho, um motorista da Real Maia colidiu na traseira de uma carreta, aparentemente por fadiga; o Estradas.com.br apurou que o veículo acumulava mais de 15 multas, a maioria por excesso de velocidade.
Em 27 de julho, um ônibus da Sanytur — com 49 multas, sendo 37 por excesso de velocidade — bateu em uma mureta de pedágio desativado na BR-369/PR. O tipo de colisão indicou fadiga do motorista.
Outro caso, em Santa Catarina, ocorreu quando passageiros alertaram sobre a sobrecarga de jornada de motoristas; o condutor aparentemente cochilou e colidiu com um poste, causando uma morte e vários feridos. Um passageiro comentou: “Expresso Nordeste e Grupo GBS precisam reduzir de tamanho e redistribuir suas operações. Está havendo muita sobrecarga de motoristas que naturalmente são mal remunerados.”
Também chama atenção a colisão de um ônibus da Cometa contra uma torre de transmissão elétrica em Contagem (MG), na avenida Babita Camargos.
Além do excesso de velocidade, algumas empresas têm operado viagens longas sem parada, colocando em risco a vida dos passageiros e demais usuários das rodovias.
Nos últimos anos, apesar de algumas notícias divulgadas pelas polícias rodoviárias sobre excesso de jornada dos caminhoneiros, não são divulgadas informações sobre excesso de jornada de motoristas de ônibus. Com exceção dos registros de acidente (sinistro) com vítimas.
O Estradas.com.br verificou os últimos três meses de notícias da Polícia Rodoviária Federal e encontrou casos inclusive recentes de caminhoneiros autuados por excesso de jornada mas nenhum motorista de ônibus.
Artesp, Polícia Militar Rodoviária Estadual de São Paulo e ANTT que realizam fiscalizações nas rodovias também não informam sobre abuso de jornada e tempo de direção dos motoristas de ônibus.
Para Rizzotto do SOS Estradas, é preciso que o assunto seja apurado, para que não leve a suspeita de que as empresas de ônibus recebem um tratamento diferenciado.
O Estradas.com.br já revelou a falta de fiscalização e de paradas no serviço “Vai Direto” — estratégia de marketing de um grupo específico que contou com tolerância da ARTESP e ANTT, desrespeitando normas operacionais e expondo a saúde dos passageiros (matéria aqui).
DER-SP registra milhares de multas por excesso de velocidade
Quando questionado sobre infrações registradas no estado de São Paulo, flagradas pelos radares fixos, o DER-SP informou:
2023: 35.267 autuações por excesso de velocidade envolvendo ônibus e micro-ônibus em rodovias estaduais.
2024: 38.096 autuações.
Jan–jun/2025: 21.146 autuações.
O órgão reforça que ações de fiscalização e segurança viária são continuamente realizadas para reduzir acidentes e preservar vidas.
Nas rotas paulistas sob responsabilidade da ARTESP, as viagens sem parada — comuns, por exemplo, entre Ribeirão Preto e a capital — foram praticamente eliminadas, restando apenas um horário noturno em cada sentido. O que pode indicar que providências estão sendo tomadas.
No entanto, a Portaria ARTESP nº 61/2022 ainda permite que empresas operem viagens de até 350 km sem pausa, contrariando o Código de Trânsito Brasileiro, que no artigo 67-C, § 1º-A exige descanso de 30 minutos a cada 4 horas de direção no transporte de passageiros.
Em dezembro do ano passado, o Diretor da Artesp, Laércio Simões afirmou em entrevista ao Estradas que iria revogar essa portaria.
Na ocasião ele afirmou: “Pretendemos rever essa portaria. Nem de carro eu faço 350 km sem parar, imagine um motorista de ônibus. Isso é um risco enorme para todos.” Apesar dessa afirmação, nada mudou, embora os casos mais evidentes de irregularidades, como o Vai Direto foram controlados, ainda restam horários com esta prática.
Médicos alertam sobre os riscos no transporte de passageiros
Marcos Musafir, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia e que trabalhou na Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, na formulação da política da Década Mundial de Segurança Viária, explica alguns dos riscos de viagens longas sem paradas. “Várias situações podem causar impactos e riscos à saúde, conhecidas como Síndrome do Viajante. Causada pela imobilidade, pode levar ao acúmulo de sangue nas veias por dificuldade no retorno venoso, provocando trombose venosa (risco de formar coágulos), que pode evoluir para embolia pulmonar. Daí a importância de seguir orientações de prevenção. Pessoas de idade avançada, em pós-operatório recente, obesos, hipertensos, diabéticos, sedentários, doentes renais ou em tratamento quimioterápico devem usar meia elástica de suave compressão, fazer caminhada a cada 2h30 por pelo menos 10 minutos, alongar-se, exercitar pés, tornozelos e joelhos, e manter-se hidratados — tudo para ativar a circulação e proteger as articulações.”
Ele também alerta para os riscos de usar o banheiro em veículo em movimento: “Usar o cinto durante a viagem e evitar se deslocar com o veículo em movimento são medidas básicas de segurança. Quando há necessidade de utilizar o sanitário, há riscos de alteração da pressão arterial, tonturas, traumas diretos, torções ou quedas, especialmente em curvas ou freadas bruscas. Por isso, a recomendação médica é de parada do veículo em média a cada 2h30, como defendem associações médicas que tratam das lesões e doenças associadas a essas situações.”
Dr. Alysson Coimbra, diretor-científico da Associação Mineira de Medicina do Tráfego (Ammetra), reforça que jornadas exaustivas estão entre os principais fatores que reduzem a capacidade do motorista de reagir: “O tempo de reação aumenta e os reflexos diminuem. A falta de descanso regular mínimo pode resultar em sinistros. Alterações nas jornadas ou nos períodos máximos de direção, seja em quilômetros ou horas, devem considerar tanto o risco de fadiga do condutor quanto a saúde dos passageiros. Esses intervalos de 350 km de parada não contemplam as necessidades de usuários e motoristas.”
Ele acrescenta que legislar pensando apenas na engenharia de veículos, interesse das empresas compromete a segurança viária: “A jornada do motorista começa quando ele sai de casa, inclui a conferência de documentos e veículo, deslocamento até o terminal e só então a viagem. Não considerar isso compromete a segurança.”
Dr. Marco Túlio de Mello, especialista em fadiga de motoristas e membro da Câmara Temática de Saúde e Meio Ambiente do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN), também critica a flexibilização das paradas: “A regulamentação anterior da ARTESP era correta. Fui consultado na época em que se definiu o limite de 170 km entre paradas. Para a segurança viária, a pausa deve ocorrer a cada 2h30 (cerca de 170 km) ou no máximo a cada 3 horas de direção, com jornada diária de até 9 horas. Do ponto de vista empresarial, o foco é entregar rápido e reutilizar o ônibus para mais viagens, esquecendo que passageiros precisam da parada por questões de saúde e segurança.”
Estradas checou as viagens na prática
Para verificar o cumprimento das regras, a reportagem do Estradas.com.br viajou entre São Paulo e Ribeirão Preto.
O ônibus da Viação Cometa partiu do Terminal Tietê e fez a primeira parada no posto Graal Turmalina (km 158 da Via Anhanguera – SP-330) para pausa de 30 minutos. Passageiros confirmaram que a parada foi retomada após período em que viagens eram diretas. “Viajo há alguns anos nessa linha e estranhei quando cortaram as paradas. Mas agora param aqui no Graal e não vejo mais viagens diretas”, disse José Antônio da Silva, que reside em São Paulo.
A reportagem também conversou com um motorista da Cometa, que chegou à parada cerca de 15 minutos depois, e perguntou sobre o “Vai Direto” — termo utilizado pela própria Viação Cometa para divulgar o serviço de viagem sem paradas entre São Paulo e Ribeirão Preto.
O motorista, muito simpático, admitiu que o Vai Direto praticamente foi extinto, mas acrescentou com um sorriso maroto: “A gente fazia em 3 horas. A gente anda bem, mas agora não pode mais.”
Outro motorista da empresa confirmou que o “Vai Direto” foi extinto, restando apenas dois horários: às 19h saindo de Ribeirão Preto e às 19h30 saindo de São Paulo. Informação confirmada pelo Estradas.com.br no site da empresa e no guichê da empresa com funcionária que não quis ser identificada.
Ambos horários obrigam o motorista a dirigir por mais de 4 horas contínuas — prática proibida pelo CTB – Art. 67-C, § 1º-A:
“Serão observados 30 minutos para descanso a cada 4 horas na condução de veículo rodoviário de passageiros, sendo facultado o fracionamento.”
Ainda assim, a empresa parece contar com a falta de fiscalização da Polícia Rodoviária Estadual e da ARTESP para manter esses horários.
Na viagem de volta, o repórter do portal confirmou que o motorista respeitou limites de velocidade e realizou a parada obrigatória.
Motoristas profissionais sofrem com saúde mental
Segundo a PRF e o Grupo Motiva, responsável por várias concessões, problemas de saúde como pressão alta, diabetes, obesidade e questões emocionais afetam fortemente caminhoneiros.
A Ammetra estima que, entre janeiro e setembro de 2024, 30% dos acidentes nas rodovias federais com motoristas profissionais tiveram ligação com questões de saúde mental.
A pressão que os motoristas enfrentam para cumprir o horário ou, no caso do transporte de cargas, bonificações para chegar antes, estimulam o excesso de velocidade e muitas vezes o uso de substâncias para se manterem acordados.
Segundo a Senatran, mais de 2,5 milhões de motoristas das categorias C, D e E estão com exame toxicológico vencido, conforme o Estradas.com.br já comprovou na matéria: Impunidade faz número de motoristas com toxicológico vencido crescer 1 milhão em apenas 5 meses. Provavelmente em função dos problemas mentais e uso de drogas.
Esses sinistros foram responsáveis por 24% das mortes e 29% dos feridos no período. “Cuidar da saúde mental reduz fadiga, melhora o foco e as decisões ao volante, prevenindo acidentes e salvando vidas”, explica Diogo Figueiredo, gerente de capacitação e treinamento da CEPA Mobility Brasil.
Dados da PRF mostram ainda:
Transporte de cargas: 18.511 acidentes, 2.884 mortes e mais de 19 mil feridos.
Ônibus: 2.233 acidentes, 407 mortes e 4.697 feridos — apenas em rodovias federais.







Ótima matéria, parabéns!Esses dados só comprovam o que já venho observando de uns tempos para cá,muita imprudência, imperícia e pressa por parte dos motoristas e pressão por parte das empresas,sem falar dos outros problemas já existentes,como motoristas drogados, veículos com excesso de peso,e falta de uma fiscalização mais pesada em relação a lei do descanso, não só para motoristas de de caminhão,mas também para motoristas de ônibus.O engraçado que observo é que a lei diz que empresas não podem mais ter dois motoristas no revezamento da direção em um mesmo veículo por determinado período de tempo,e o que mais vejo são ônibus de empresas legalizadas e principalmente clandestinos com dois motoristas,em viagens do Nordeste para SP,e ninguém fiscaliza esse tipo de situação.Sugiro fazer uma matéria com a Viação Águia Branca,pois ela tem um cuidado muito grande com a saúde de seus motoristas e um programa relacionado ao sono que funciona muito bem e por essa razão, dificilmente vemos notícias de acidentes graves envolvendo seus veículos.É a empresa que me passa mais segurança em questões relacionadas ao bem estar e descanso dos motoristas.