As dificuldades de locomoção ainda são um dos maiores problemas enfrentados pelos idosos em Aracaju. Muitos dizem que acenam com a mão na parada de ônibus, mas os motoristas não param. Quando estão dentro dos ônibus, os mesmos sofrem com as arrancadas bruscas, chegando a se acidentar nos coletivos que fazem o transporte de passageiros da cidade. Para o presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Idoso, Álvaro Fontes, o transporte público continua sendo uma questão complicada.

“O maior problema do cidadão idoso hoje, no transporte público, é a questão do mesmo sinalizar e o veículo, muitas vezes, não parar. Eu tomei conhecimento, por meio de alguns profissionais, que eles têm uma rota a fazer num tempo X. Se ele parar todos os momentos em que tiver um idoso ou portador de deficiência no ponto, ele vai levar um tempo maior e, conseqüentemente, vai fazer a rota em mais tempo também”, comenta.

Segundo Fontes, o motorista que pára para os idosos ou para pessoas com deficiência é tido como roda presa , ou seja, um profissional que dá prejuízo à empresa. Ele informa que não sabe ao certo, mas há a informação de que o motorista é penalizado. A lei federal 10.048/00 previa que todos os ônibus viessem dentro de normas técnicas de acessibilidade que facilitassem o acesso não só do idoso, mas também do portador de deficiência, garantindo-lhes o direito de ir e vir, mas a regulamentação da lei demorou um pouco.

A lei é de 2000 e tinha um prazo para ser regulamentada até 2002, ou seja, num prazo de dois anos, mas isso só foi feito no ano passado por meio do decreto nº 5296. Esse atraso fez com que os empresários não se adequassem a estas novas normas. “Eu acredito que se deve aguardar o prazo para que seja feita a adaptação dos coletivos, que se ampliou agora, e seria interessante que se desse um incentivo para estes empresários para antecipar essa adaptação”, sugere.

A aposentada Maria de Lourdes Pinheiro disse que já sentiu na pele o constrangimento de dar com a mão e o coletivo não parar para ela. “É horrível, é uma sensação de impotência, de desrespeito. Fiquei tão triste que nem pensei em anotar o número do ônibus”, comentou. Segundo ela, hoje, quando isso ocorre, a denúncia é certa, o que, para o assessor de Comunicação da SMTT (Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito), Jairo Alves, é o que deve ser feito. “Se o motorista não pára, está desrespeitando a lei”, reforçou.

Dentre as dificuldades enfrentadas pelos maiores de 65 anos, Álvaro lembra que os ônibus são muito altos porque são montados em chassi de caminhão, ou seja, uma estrutura inadequada considerando o acesso do idoso. Um outro detalhe é a questão da conscientização da população quanto aos acentos preferenciais. “Eu acredito que deveria ser feito um trabalho educativo, até mesmo dentro da própria escola. Não basta cobrar e punir, é preciso conscientizar o jovem”, diz.

No que se refere aos empresários, o presidente do conselho revela que já sente, até por força da própria lei, e por iniciativa de alguns também, que eles vêm treinando seus profissionais no que se refere ao relacionamento com o cidadão idoso, embora alguns hajam de forma contrária. Vale ressaltar que o próprio conselho já se colocou à disposição das empresas para promover palestras educativas sobre o tema com o objetivo de reforçar o posicionamento dos motoristas em relação aos idosos.

“O idoso tem que ser protagonista das suas ações. Como? Ele, educadamente, deve pedir ao jovem que se levante e dê o lugar a ele. Isso significa cobrar, cidadania é isso, ou seja, cobrar seus direitos com educação, sem brigas”, aconselha Fontes. Uma outra forma que requerer seus direitos é denunciando o motorista que não parou no ponto de ônibus por meio do telefone da Ouvidoria da SMTT: o 3249-4646.

Fontes ressaltou ainda que há uma previsão de que em 2025 a população de (ou quase) idosos no Brasil dobre, ou seja, passará dos mais de 16 milhões atuais para 32 milhões de pessoas acima de 60 anos. “Então, seria interessante que as empresas nas áreas de serviços em geral se adaptem a esta nova realidade. A indústria química, por exemplo, já possui medicamentos diferenciados, os remédios geriátricos, a indústria têxtil também, com roupas especiais”, destacou, ao acrescentar dizendo que, apesar de existir, a Política Nacional do Idoso (Lei 8.842/94) nunca foi aplicada.