SEM INTENÇÃO: Marcos foi estudar nos EUA, e virou caminhoneiro incentivado por um amigo. Atualmente, também é youtuber famoso com seu Canal Vlog 18rodas. Fotos: Arquivo pessoal

Marcos Valadares Leite, natural de Santos (SP), foi para o EUA estudar, e, de repente, se viu num nove eixos. Era o início de sua vida como caminhoneiro. Hoje tem um dos canais no Youtube mais seguidos por brasileiros sobre suas experiências nas rodovias americanas

1 – Como e onde você iniciou a vida de caminhoneiro?

Iniciei minha vida de caminhoneiro aqui nos Estados Unidos. Eu não nunca tinha pensado em ser caminhoneiro. Eu olhava os caminhões e achava muito grande. Comecei por causa do meu grande amigo Willian, que hoje está no Brasil. E ele me incentivou a tirar a carteira. Eu achava que era muito difícil, mas ele falou que não. Ele foi no Departamento de Trânsito aqui dos Estados Unidos, igual ao Detran, no Brasil, e pegou um manual para eu estudar. Ele me disse, vamos estudar juntos. E eu disse vamos ver no que vai dar. Foi assim que eu entrei nessa vida de caminhoneiro; praticamente por causa do meu amigo William.

2 – Quais as principais diferenças de ser caminhoneiro nos EUA e no Brasil?

Eu acho que primeiramente é o salário. Você tem um poder aquisitivo maior. Os caminhões são maiores, na cabine, e a infraestrutura nos postos é melhor. Tem bastante estacionamento; um belo de um chuveiro, privado, praticamente é quase uma suíte, com pia, vaso sanitário. Quanto à comida americana, um ou outro lugar que tem restaurante. Com relação à polícia, ela é mais rigorosa. Nós fazemos exame antidroga aleatoriamente, a cada dois anos, o drug test.

Sobre a infraestrutura, a estrada é maravilhosa. Quase todo ano tem uma parte reformada. Então, você tem a interligação, as interestaduais, que interligam o país inteiro. Praticamente, pneu furado uma vez por ano; dirigindo em Nova York, no máximo duas vezes por ano. Quando eu fazia estrada, acho que, em cinco anos, eu tive dois ou três pneus furados.

E também podemos falar na questão de segurança. Nunca vi ninguém ser abordado com a arma na cabeça para ser roubado, mas também tem as áreas ruins que você não vai ficar estacionado, à noite, dormindo, dando bobeira, como Detroit ou até Baltimore. Mas, se você estacionar no resto do país é bem calmo, tranquilo. Nunca fiquei preocupado.

3 – Você fez uma viagem pelo mundo e passou em muitos países. Como foi essa experiência e o que chamou a sua atenção quanto à situação dos caminhoneiros em outros lugares do planeta?

Minha viagem pelo mundo, na Europa, eu vi que lá tem a regulamentação, tanto que o log book eletrônico, praticamente é um tacógrafo eletrônico, está bem adiantado na Europa, é bem rigoroso com horário para parar, para descansar, para conduzir. E, no resto do mundo, como no Brasil, a fiscalização o motorista praticamente vai andar quanto ele quer, quanto ele pode.

4 – No Brasil há um regime de exploração dos motoristas profissionais que leva à fadiga. Muitos, no desespero, acabam usando drogas para suportar a jornada. A situação era tão grave que, 34% dos motoristas examinados em pesquisas do Ministério Público do Trabalho em 2015, apresentavam elevado grau de uso de drogas, sendo 70% cocaína. Este uso caiu 60% no mesmo perfil de caminhoneiros testados em 2019, após a obrigatoriedade do exame toxicológico de larga janela, o chamado teste do cabelo. O que você acha dessa experiência brasileira?

No Brasil, pela experiência brasileira, eu acho que tem que ser feito. A partir do momento que você tiver que usar droga para exercer uma profissão, para ficar acordado, tem alguma coisa errada. Você está indo além do limite do seu corpo.

5 – E nos EUA o uso de drogas por caminhoneiros é muito comum? Por que utilizam?

Eu já escutei falar que são uns doidos que usam droga, anfetamina. E eles fazem o teste de drogas, mas eu não conheço ninguém próximo de mim. Mas dizem que tem uns doidos que usam, que sabem burlar o exame de droga de urina. Mas, hoje com a chegada do logbook eletrônico,  um diário eletrônico, que controla as horas – ligado direto no motor do caminhão, não tem mais como o motorista burlar a lei. Hoje, praticamente virou uma caixa-preta; o diário eletrônico sabe a hora que você ligou o caminhão, a hora que você desligou, a hora que você parou.

6 – Compare a jornada de um caminhoneiro nos EUA com a realidade que você conhece no Brasil?

Aqui nos EUA, a gente pode dirigir onze horas, ficando no máximo 14 horas trabalhando, entre dirigir, carregar, descarregar, abastecer, além do descanso diário de dez horas obrigatório. O motorista tem que ficar dez horas parado, tem que dormir, tem que descansar.

A jornada é 70 horas semanais, que com essas 14 [horas], você pode estourar em cinco dias, no máximo, seis. Você precisa trabalhar bastante. E o descanso obrigatório semanal, para você zerar essas 70 horas, são 34 horas. Então, mais ou menos você segura. Por exemplo, eu parei agora 2h da tarde, eu poderia começar meia-noite, ou então, se eu chegar à zero hora do dia 1º de janeiro, eu vou fazer zerar as minhas horas e tenho as 70 horas, de novo, disponíveis. E no Brasil, muitas pessoas falam comigo que o embarcador fala para o motorista: você tem que chegar tal dia, no endereço. E o motorista vai como um doido, andando 12, 14, 18 horas. Tem casos que eu já ouvi falar que o motorista dirigiu 30, 35 horas seguidas, tomando drogas. Isso é um absurdo. Aqui, nos EUA, existe a responsabilidade civil. O dono da empresa ou despachante, se eles te forçarem a andar acima da lei, no caso de acidente fatal, você vai para a cadeia, mas eles vão juntos, porque eles estavam obrigando o motorista a dirigir além do limite. Para mim, tinha que ter isso no Brasil, a responsabilidade do embarcador, dele forçar o motorista a cumprir essa jornada louca. Ser responsabilizado civilmente e criminalmente por forçar o motorista. A pena é menor, mas tem que ter como aqui nos EUA. Tanto que aqui ninguém força. Se você falar aqui na empresa que não tem hora para trabalhar, eles não mexem com você. É lógico que eles podem chegar e conferir para ver se o motorista não está mentindo. Se eles checarem que você não tem horas, eles vão dizer: pode ir para casa. Eles não deixam você dirigir porque não querem ser responsáveis.

7 – Um dos problemas dos caminhoneiros brasileiros é a precariedade dos locais onde esperam para carregar e descarregar. Como funciona nos EUA?

Têm locais nos Estados Unidos que realmente não deixam você entrar. Você tem que ficar dentro do caminhão por segurança; e têm locais que tem alguma sala, tem até banheiro para o motorista. O local tem aquelas máquinas de vender besteira. Mas, pelo menos, tem alguma coisa para comer, refrigerante, água, lanchinho. Depende muito do tipo de carga que você carrega. Você pode carregar em uma hora como pode carregar em duas ou até seis horas. Como já aconteceu comigo, eu trabalhei com carga refrigerada com produtos perecíveis e fiquei duas, seis, oito horas. Ainda bem que atualmente eu estou na cegonha mexendo com carro. Eu vou lá, carrego em uma hora, uma hora vinte minutos. Chego na concessionária e descarrego em meia hora, quarenta minutos. Praticamente, não dependo mais de ninguém. É outra coisa. Mas tudo é sorte. Depende de onde você vai.

HORA MARCADA: Marcos disse que nos Estados Unidos, grande parte dos locais trabalha com hora marcada; tanto no momento de pegar a carga como na hora de descarregar.

8 – Como é organizado o sistema de carga e descarga?

Nos Estados Unidos, grande parte dos locais é com hora marcada. Tanto a hora de você pegar a carga como a hora de descarregar. Apesar de que depende da mercadoria, como os que trabalham na geladeira [baú refrigerado], mesmo que você tenha hora marcada, às 2 da tarde, pode demorar cinco, seis horas. Mas, praticamente tudo é no horário. Menos uma cegonha, que você chega na concessionária, quando está aberta, vai lá e descarrega. Mas cargas normais são com hora marcada ou um ou outro lugar que trabalha no sistema de quem chegar primeiro é o primeiro a ser servido. Nesses casos, as filas começam de madrugada.

9 – O que o Brasil poderia aprender com os EUA e eles conosco?

Eu acho que primeiramente é a punição. O que falta no Brasil é a punição. Então o motorista vai lá e faz a besteira, passa em faixa contínua, joga os carros que vêm do outro lado pra fora; uma minoria faz isso, e não tem nenhuma punição. Tem um processo muito longo para cassar a carteira do motorista. Se você faz isso aqui nos Estados Unidos, praticamente você vai preso, até por tentativa de homicídio. No Brasil falta punição.

E também, o Brasil poderia aprender com os Estados Unidos é sobre a hora marcada, mais respeito, a logística. Porque muitas vezes não respeitam o motorista. Certa vez um caminhoneiro levou uma carga de iogurte para o Nordeste. Chegando lá, o responsável disse que não tinha estoque no Armazém, e deixou o motorista para o lado de fora dois dias, usando o caminhão dele como estoque. Onde está a organização? O cara compra a mercadoria e não tem ideia que não vai ter espaço para armazenar.

O que os Estados Unidos poderiam aprender com o Brasil? Agora, ferrou, porque aqui o trem funciona.

10 – A cabine de caminhão nos EUA permite efetivamente que o caminhoneiro descanse. Além disso, muitas vezes o caminhoneiro dorme em hotel. Como você acredita que o Brasil poderia atingir esse nível de conforto para os profissionais das estradas?

O conforto das cabines no Brasil poderia ser melhorado com a lei do comprimento. Porque nos Estados Unidos se faz a medição pelo tamanho da carreta e o cavalinho fica livre; já no Brasil mede-se de para-choque a para-choque, onde se usa o padrão europeu, com cabine avançada, onde aperta todo mundo na cabine para caber mais mercadoria para as carretas, os bitrens. Então eu acho a mudança na legislação de restringir, fazendo a medida nas carretas, nos conjuntos, e liberar o caminhão no modelo bicudo e ter uma cabine maior; porque a Volvo e a Scania podem fazer essa mudança.

11- Como começou sua vida de youtuber da boleia?

Eu comecei no Youtube acho que foi em 2007, 2008. Eu queria fazer uns vídeos das minhas viagens para mostrar para os meus pais, meus familiares como é a estrada, que é tudo legal, não tem assalto, aquela coisa toda. E aí peguei o gosto. Comecei a filmar uma atrás da outra. E chegamos a mostrar aonde estamos hoje, no Vlog 18rodas, devagar e sempre, trazendo os vídeos, as novidades.

12 – Quais foram as experiências mais interessantes que este convívio com os seus seguidores já proporcionou?

Eu consegui ao longo do tempo ter amizades com seguidores. Minha experiência maior foi uma visita de um casal, que era meu seguidor, e virou meu amigo. O casal em visita aos Estados Unidos ficou em minha casa. Foi a maior experiência. E também no Brasil, quando eu vou na casa da minha mãe, em São Vicente [litoral de São Paulo]. Eu sempre encontro os seguidores, o que é sempre maravilhoso. Quando eu vou num bar da esquina, entro lá às seis da tarde e saio de lá às duas da manhã, praticamente com o bar fechando. Fico oito horas batendo papo que nem sinto que fiquei conversando por oito horas. É uma experiência bem legal.

13 – Como é a vida familiar de um caminhoneiro nos EUA? E viajar com a esposa na boleia?

A vida do caminhoneiro com a família é aquela coisa, muitos trabalham local e muitos trabalham na estrada. Tem caminhoneiros que ficam de sete a 20 dias na estrada. Então, eu acho que o convívio vai ser igual ao da turma no Brasil. Fica dois dias em casa e sai para a viagem. Hoje eu estou no trabalho no local, eu estou em casa todos os dias. Estou curtindo muito. Já foi o tempo de eu ficar pelo menos dez dias fora. Ia para a Califórnia e voltava, aí ficava dois, três dias em casa.

Sobre viajar com a esposa, é interessante. Já consegui viagens boas, como uma na qual parei em Las Vegas e pedi folga de mais um dia para curtir com ela. Já passei alguns fins de semana que foram muito bons. Em São Francisco, por exemplo, passeei com ela e nos divertimos bastante. Algumas vezes, as viagens saem legal, mas há também àquelas que nem sempre são tão boas. Certa vez, pegamos neve e ficamos parados na estrada.

14 – Em termos de segurança, as estradas americanas são muito melhores que as brasileiras. Mas como são os caminhoneiros americanos dirigindo?

Eu digo que o pessoal ‘das antigas’ presta atenção, os caminhoneiros mais antigos cumprimentam, sempre estão de olho, passam e perguntam se está precisando de alguma coisa. Eu vejo um pessoal mais educado. Mas a nova geração, eu vejo um pouquinho mais desligada. Eles não dão uma piscada de farol, não cumprimentam quando passam. É um pouco diferente entre a velha e a nova geração de caminhoneiros.

15 – Você já passou algum susto nas rodovias americanas? Em caso positivo, como foi?

O susto que eu passei aqui foi animais na pista. Teve até uma vez que tinha um veado, porque quando você vê é só um vulto passando e sua reação é pisar no freio. Você pensa que é uma pessoa e quando eu estava de dupla com meu amigo, quando eu pisei no freio, ele saltou da cama e quase veio parar aqui na frente. Ele lembra disso até hoje e dá risada porque ele tomou um susto. Mas é a reação. Em duas ou três vezes eu já vi animal na pista. Eu já acertei um, de leve; o veado era pequeno. E outra situação de perigo é neve. Eu já fiquei parado 24 horas na estrada sem me mover, porque nevou muito. Só no dia seguinte para começar a andar. Ainda bem que eu tinha comida, água.

16 – Muita gente no Brasil reclama que os postos hoje estão cobrando por estacionamento, banho etc. Qual sua opinião sobre isso, comparando com a realidade americana?

A rede de postos TA, que é o Travel Center of América, uma das melhores dos EUA, sempre cobrou. Caso você abasteça 50 galões, aproximadamente 190 litros, aí nas próximas 24 horas são de graça. Então, algumas redes cobram, outras não. Fica a livre concorrência mas a maioria não cobra. A respeito do banho, os postos nos Estados Unidos cobram. Deve estar hoje em torno de 12 dólares a 14 dólares, entre R$ 50,00 e R$ 56,00. Mas, se você abastecer 50 galões de óleo diesel, você vai ganhar um banho grátis, que fica creditado no seu cartão fidelidade da rede do posto. Não vai ter nada de graça.

SONHO: Marcos Ténéré sonha em continuar como ‘cegonheiro’ nos EUA, até surgir novas oportunidades.

17- Quais os seus planos para o futuro?

É dedicar aqui na profissão de cegonheiro, continuar trabalhando firme e forte, e ficar bem de saúde, que é o mais importante.

18 – Qual o futuro dos caminhoneiros autônomos nos EUA e no Brasil? O caminhão autônomo vai pegar?

Sobre os caminhões autônomos, eu realmente não estou preocupado com isso. Eu não acho que vai pegar tão cedo. Tem até uma piada que eu gosto de falar, dando risada. Com quem que os embarcadores e os donos das mercadorias vão reclamar? Vão xingar quem? Cadê o caminhoneiro pra xingar, para fazer pirraça na hora de descarregar a mercadoria? Cadê a pessoa? Mas eu não acredito que o caminhão autônomo vai estar pronto em 20, 30 anos. Vai ter muito chão ainda.

19 – E o caminhão elétrico?

E quanto ao caminhão elétrico, tem que ver o que a Tesla faz, a empresa está vindo. Já tive a felicidade de puxar Tesla, na fábrica em Fremont, na Califórnia, e eu gostei do carro. Eu era um pouquinho ‘pé atrás’ com essa tecnologia, mas eu gostei muito. Achei muito interessante.

20 – Do ponto de vista da segurança no trânsito, o que você acha que aprendeu nos EUA que ainda falta aprender no Brasil?

Olha o que que eu aprendi aqui nos Estados Unidos em relação ao trânsito é que aqui a punição é brava, é forte. Então, realmente você aprende a ser uma pessoa disciplinada. Não tem conversa. Você sabe que se fizer errado, vai pagar multa, você vai levar pontos na carteira, seu seguro vai subir. Vai pesar no seu bolso. E se você fizer besteira, pode perder a carteira de motorista, pode ser preso, vai sair algemado do caminhão. Jogar caminhão em cima dos outros é praticamente um passo da prisão. Então, você sabe que aqui vai ser punido. Não vai ter choro. Não vai ter textão no Facebook. Aqui, você aprende a ser uma pessoa totalmente disciplinada e respeita até placa “stop” para não tomar multas. Você aprende a respeitar 100% das regras. Aqui é o país da disciplina.

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