Paralisação dos caminhoneiros é fake news

Boatos espalhados nas mídias sociais têm como finalidade assustar o governo

Mais uma vez, supostas lideranças de caminhoneiros anunciam paralisações nacionais. A mais recente estaria marcada para esta quinta-feira (4). Como nas anteriores, em diversos governos, estas têm objetivos políticos para atender a quem explora os motoristas profissionais.

O Estradas.com.br ouviu caminhoneiros, proprietários de postos, representantes de entidades dos autônomos e empresários do setor.

Embora todos reconheçam que há comentários circulando, ninguém acredita na efetivação de uma paralisação. Nem mesmo no Sul do país — onde nos últimos anos grupos ligados ao agronegócio costumam amplificar essas mobilizações — há expectativa real de adesão.

Com receio de represálias, nenhuma das fontes quis se identificar, mas todas foram unânimes: não há nada concreto. Assim como em episódios anteriores, influenciadores oportunistas de Tik Tok e outras redes sociais aproveitam o tema para ganhar seguidores e visibilidade.

Alguns chegam até a se lançar candidatos, embora raramente se elejam. A exceção mais conhecida é o deputado federal Zé Trovão, que, após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, chegou a convocar uma paralisação, mas recuou dois dias depois, diante da clara falta de apoio e de representatividade.

Um dos donos de uma rede de postos com mais de 50 estabelecimentos nas regiões Sudeste e Nordeste do País afirma não ver qualquer movimento que indique greve, apenas rumores. Outro empresário, cuja rede atua nas regiões Sudeste e Sul, relatou que praticamente não há comentários sobre o assunto em seus estabelecimentos.

Um executivo de uma das maiores redes de postos do país, que opera nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, também descartou a possibilidade de mobilização. Somente entre responsáveis por postos de rodovia, onde os caminhoneiros costumam pernoitar, os proprietários de postos ouvidos representam mais de 300 grandes pontos de parada do país. Todos fazem a mesma avaliação: é fake news.

Caminhoneiros ativos nas estradas e nas redes sociais reforçam que tudo não passa de um “zun-zun-zun”, sem força para se tornar um movimento nacional.

Representante de uma tradicional entidade dos caminhoneiros autônomos afirmou que há reuniões previstas para a próxima semana em Brasília para discutir vários assuntos, mas nenhuma relacionada a paralisações. “Estou acompanhando pelo Instagram também, formadores de opinião — a maioria bolsonarista — levantando essa bandeira. Acho que não vai dar em nada. O pessoal precisa trabalhar. Muitas reivindicações estão sendo tratadas junto ao governo, como a tabela de piso mínimo calculada em tonelada, num trabalho da ESALQ em parceria com lideranças nacionais. Vamos aguardar. Todos estarão em Brasília na semana que vem, inclusive para reuniões na ANTT”, disse.

Pressionar governo e favorecer os “escravocratas do transporte”

Historicamente, as paralisações de caminhoneiros — acompanhadas pelo portal desde 1999, ainda como Revista das Estradas — costumam ser fomentadas por maus transportadores e embarcadores interessados em flexibilizar regras trabalhistas e de segurança.

A maioria dos sindicatos que representam motoristas CLT não costumam reivindicar redução da jornada, aumento salarial ou melhores condições de trabalho para os caminhoneiros empregados.

As demandas divulgadas nesses boatos sempre giram em torno de isenção de pedágio, flexibilização da pesagem e aumento do frete — interesses patronais, não dos empregados. Agora, uma das justificativas é pelo fim do descanso de 11 horas entre jornadas.

Atualmente, duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) tramitam no Congresso. Uma delas, capitaneada por Zé Trovão, sugere que dois motoristas possam revezar ao volante por 72 horas, considerando como descanso dormir dentro de um caminhão em movimento — condição precária e insegura. Condição análoga a de escravo.

Em audiência no Senado, o deputado chegou a afirmar que “caminhoneiro dormiu três horas está novo”. A outra PEC busca eliminar punições para quem desrespeitar as 11 horas mínimas de descanso entre jornadas, o que especialistas apontam como um grave retrocesso.

Para Rodolfo Rizzotto, coordenador do SOS Estradas e estudioso de todas as paralisações desde 1999, os boatos atuais tentam aproveitar o clima político tenso — acentuado pelas prisões de figuras ligadas ao governo anterior, inclusive o ex-presidente — para pressionar o governo a aliviar a fiscalização do descanso obrigatório e facilitar a aprovação das PECs que ele classifica como instrumentos de “escravidão sobre rodas”.

Segundo Rizzotto, mesmo com um governo que se identifica com os trabalhadores, a base parlamentar governista tem se mantido calada, sem demonstrar indignação diante de propostas que colocam vidas em risco. Para ele, a chamada “Proposta de Escravidão Constitucional” deveria ser tratada como um retrocesso inaceitável.

Como sempre vendem susto e os governantes, que não sabem como funcionam esses movimentos, compram. Não acredito nesta paralisação mas caso ocorra o foco será beneficiar quem explora a categoria. Pressionando para que dirijam cada vez mais, o que contribui para que muitos recorram as drogas para suportar as longas jornadas acordados. Por isso ainda registramos 1,1 milhão de motoristas que não fazem o exame toxicológico. Enquanto isso, os ‘escravocratas do transporte’ não aparecem nessas paralisações, ficam escondidos nos bastidores, assim como manipulam seus capatazes no Congresso.

Saiba mais sobre o assunto nas matérias exclusiva do Estradas:

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Exploradores dos caminhoneiros pedem fim do controle de jornada no STF

1 COMENTÁRIO

  1. Como pode uma CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) aprovar a PEC 51/2024 do retrocesso e da escravidão, o STF julgou inconstitucionais os itens que eles querem trazer de volta, como por exemplo:
    _Dois motoristas na mesma cabine, dirigindo por até 72 horas sem necessidade de parar para descanso. Como um ser humano “descansa” enjaulado dentro de um caminhão em movimento? E o pior, após esse descanso fake, ele vai assumir a direção de um veículo de carga, cansado, estressado e provavelmente vai adoecer por viver dentro de uma “cela”.
    _Reduzir o valor da hora trabalhada para 30% do valor da hora normal quando estiver na espera, CADÊ os síndicatos dos motoristas empregados? Se eu estou na hora de espera, a culpa não é minha, eu estou no local de trabalho para trabalhar, então estou trabalhando.
    Estão nos tratando como escravos, com essa pec da escravidão do motorista CLT.
    Quanto as 11h interjornada, grandes transportadora de combustível ja realizam esse procedimento a décadas.

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