A grande imprensa está repercutindo revisão do Relatório da Comissão Nacional da Verdade, cuja versão é de que JK foi assassinado pelo regime militar e não foi vítima de acidente na Dutra (BR-116), em 1976.
O motorista de JK teria sido baleado na cabeça. A tese agora é da CEMDP (Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos), com novas versões e usando inteligência artificial.
Exclusivo: Relato de PRF que atendeu ao sinistro (acidente)
Em maio de 1995, ainda sob o nome de Informe RDE — publicação que antecedeu a Revista das Estradas e posteriormente o Portal Estradas.com.br — o editor Rodolfo Rizzotto e o jornalista Ayrton Baffa, um dos mais premiados profissionais da imprensa brasileira, visitaram a Superintendência da Polícia Rodoviária Federal no Rio de Janeiro para uma reportagem sobre a necessidade de redução dos acidentes (sinistros) na rodovia Presidente Dutra(BR-116, em particular do lado fluminense.
Na época, a Superintendência da era comandada pelo Inspetor João Bernardo de Souza. Durante a entrevista, Ayrton Baffa, já falecido, perguntou ao inspetor o que ele sabia sobre a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, ocorrida na Dutra, em agosto de 1976.
João Bernardo afirmou que estava de serviço no dia do acidente e que chegou ao local poucos minutos após a colisão, ocorrida na região de Engenheiro Passos (RJ). O posto da Polícia Rodoviária Federal ficava muito próximo dali, no acesso a Penedo (RJ).
O relato prestado pelo inspetor na entrevista contraria versões que alimentaram, ao longo dos anos, suspeitas de atentado político contra JK e reforça a tese de acidente (sinistro).
Veja abaixo o relato publicado pelo PRF, no Informe RDE em 1995:
Veja o que foi publicado no Informe RDE na edição de junho de 1995
Juscelino: a verdade
Agosto de 1976: aos 36 anos de idade, o patrulheiro João Bernardo, e seu companheiro Fraga, foram chamados para dar socorro a um opala, no então km 163, na Dutra, hoje km 168. Por ter sido testemunha ocular do episódio, o atual Superintendente da PRF enterra as versões e especulações de recreadores da história, os que dizem ter sido o então presidente vítima de atentado político.
— Escurecia, passava das cinco e meia da tarde. Fomos os primeiros a chegar ao local. O veículo do presidente saíra da pista, ao tentar ultrapassar um ônibus da Cometa. A estrada estava sendo recapeada e o carro caiu numa valeta, atravessando a pista. Uma carreta subia em sentido contrário e o opala ficou embaixo dela. O carro tinha tinta do ônibus do lado esquerdo da sua lataria, reproduz o episódio.
E completa:
— Não sabíamos a identidade das vítimas. O Fraga recolheu-lhes os bens e uma agenda nos espantamos ao ver que se tratava do presidente, que estava todo desfigurado. Seu fêmur entrou pelo seu peito, lembra o Inspetor João Bernardo.
Juscelino fora enterrado em 23 de agosto de 1976, em Brasília. Seu motorista, Geraldo, também morreu no acidente. (Fim da matéria de 1995)

Versões da imprensa da época
O Jornal do Brasil, em matérias publicadas nos dias 23 e 24 de agosto de 1976, relatava entrevistas com passageiros e o motorista do ônibus envolvido, o condutor da carreta e outras pessoas que chegaram ao local logo após a tragédia. Naquele período, o Jornal do Brasil (JB) mantinha postura editorial claramente crítica ao governo militar, diferente de O Globo, que adotava uma linha mais moderada em relação ao regime.
Um dos peritos ouvidos pelo JB, que estava de plantão na delegacia de Resende (RJ), comentou que dias antes já haviam ocorrido dois graves sinistros no mesmo trecho da Via Dutra: um envolvendo uma Kombi com vários feridos graves e outro que resultou na morte de um empresário e de familiares.
O automóvel em que viajava JK, um Chevrolet Opala aparentemente modelo 1970, de seis cilindros, teria sofrido uma leve colisão lateral com um ônibus da Viação Cometa. No local havia desnível no asfalto devido ao recapeamento da pista. Segundo os relatos da época, o motorista perdeu totalmente o controle do veículo, invadiu a pista contrária e colidiu frontalmente com uma carreta carregada de gesso. Naquele período praticamente não existiam dispositivos de proteção capazes de impedir a invasão da pista oposta.
O perito Nelson Ribeiro, responsável pela análise do sinistro, afirmou que o veículo provavelmente trafegava em velocidade elevada para o trecho, cujo limite oficial era de 80 km/h. Já o motorista da carreta, Ladislau Borges, estimou que o Opala estaria a cerca de 130 km/h.
Outra reportagem mencionava que JK teria viajado por aproximadamente duas horas e meia entre São Paulo e Engenheiro Passos, onde teria permanecido cerca de uma hora e meia no Hotel Villa Forte, pertencente a um amigo.
Caso esse tempo de deslocamento esteja correto, considerando que a distância entre o início da Via Dutra em São Paulo e Engenheiro Passos é de aproximadamente 250 quilômetros, a velocidade média da viagem teria ficado próxima de 100 km/h, considerada elevada até mesmo para os padrões atuais. Hoje, os trechos mais rápidos da Dutra têm limite de 110 km/h. Em 1976, o limite predominante era de 80 km/h.
Experiência do editor no trecho
Sem a pretensão de contestar oficialmente as conclusões da Comissão da Verdade, mas relatando sua experiência pessoal na região, Rodolfo Rizzotto, editor do Estradas.com.br e coordenador do SOS Estradas, faz algumas observações.
“Em primeiro lugar, acredito que seria necessário um atirador extremamente habilidoso para acertar a cabeça do motorista de JK e provocar a perda de controle do veículo em alta velocidade”, comenta.
Rizzotto recorda que viajava frequentemente pela região entre 1973 e 1981.
“Meu pai tinha um sítio na região e todos os fins de semana seguíamos para lá. Também tínhamos amigos fazendeiros e comerciantes em Engenheiro Passos, Itatiaia, Arrozal, Piraí e Resende. Em 1976 eu tinha 17 anos e viajava sempre no banco da frente até tirar minha carteira de motorista, em 1977. Comentávamos muito sobre os riscos daquele trecho, principalmente quando havia recapeamento da pista, por causa do desnível do asfalto e da sinalização precária durante a noite.”
Segundo ele, após a morte de JK o local passou a ser conhecido como “Curva do JK”.
“Não é uma curva extremamente fechada, mas até hoje o limite ali permanece em 80 km/h. Sempre que passávamos pelo trecho tentávamos entender o que poderia ter acontecido. Respeitando o limite de velocidade, era um trecho relativamente tranquilo. Mas, com recapeamento e desnível no asfalto, a situação mudava bastante. Quanto mais com o Opala, um carro muito instável com tendência de sair de traseira. Sei disso porque tive um.”
Rizzotto afirma ainda que, nas conversas que ouviu ao longo dos anos em fazendas, postos de combustível e até no próprio Hotel Villa Forte — onde eventualmente almoçava com a família — nunca ouviu relatos sobre disparo de arma de fogo contra o motorista.
“O que sempre escutei era que o veículo provavelmente estava em excesso de velocidade. Com a experiência que adquiri ao longo dos anos acompanhando perícias de sinistros rodoviários, a hipótese de acidente me parece mais plausível do que a de assassinato.”
Ele ressalta, porém, que novas evidências eventualmente poderão permitir interpretações diferentes no futuro.






