Os ônibus e microônibus que circulam nas zonas norte e leste da capital paulista foram os principais alvos do Primeiro Comando da Capital (PCC) nas três ondas de atentados deflagradas pela facção desde 12 de maio. Um balanço feito pela reportagem mostra que os veículos das áreas 2 e 3 (zonas norte e leste), conforme a divisão da cidade feita pela Prefeitura, foram os que mais atacados, com 27 carros destruídos cada.

Os delegados seccionais responsáveis por essas regiões e que comandam as investigações têm leituras diferentes sobre a motivação dos ataques. Para o delegado Darci Sassi, da 7ª Seccional Norte, o ataque aos ônibus da região têm relação direta com uma disputa de mercado entre perueiros e empresários.

No dia 19 de maio, policiais militares prenderam no Jardim Japão, zona norte, Rodrigo de Melo Faria, de 20 anos. Ele havia acabado de atear fogo em um ônibus da viação Sambaíba. Em depoimento à polícia, Faria disse que receberia R$ 1 mil por veículo incendiado e que tinha planos de fazer mais dois ataques. O rapaz afirmou estar agindo a mando da Transcooper, cooperativa de perueiros que opera nas áreas 1, 2 e 4 (zonas noroeste, norte e leste) e que hoje teve um de seus diretores assassinados.

À época, o presidente da Transcooper, Guilherme Correa Filho, negou que seus filiados tivessem ordenado os ataques. “Por que esse rapaz não deu nomes?”, perguntou. “Eu respondo: o PCC domina as penitenciárias e ele sabe que será morto se delatar alguém.”

Na opinião do delegado responsável pelas investigações, esse não foi um caso isolado. “Debito tudo isso a uma disputa entre perueiros e empresários”, afirma Sassi. “Temos denúncias anônimas nesse sentido e, por enquanto, esse é um dos poucos casos esclarecidos sobre ônibus atacados.”

Na zona leste, o retrato apresentado pelos policiais é outro. Para Marcelo Lessa, delegado assistente da 8ª Seccional (São Mateus), a maioria dos atentados a ônibus ocorridos na região foram feitos a mando de integrantes do PCC. “Pode ter um ou outro oportunista, mas, no geral, os ataques têm relação mesmo com o crime organizado”, disse.

Pelo balanço oficial da São Paulo Transportes (SPTrans), empresa que gerencia o transporte coletivo na cidade, 145 veículos foram atacados nas três ondas de violência. Desse total somente 20 são de propriedade das cooperativas de perueiros, o que mais uma vez levantou suspeitas sobre a relação da categoria com o PCC.

Relações perigosas – A relação de perueiros e diretores de cooperativas com o PCC é alvo de investigações policiais desde 2003, quando o transporte alternativo foi legalizado na cidade.

Recentemente, essa suspeita anda sendo citada por políticos tucanos durante a campanha eleitoral. No início do mês a Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo pediu que a Polícia Federal investigasse um episódio de julho em que o candidato do PSDB ao governo do Estado, José Serra, disse que via indícios de ligação entre integrantes do PT, ligados a perueiros, e
a facção. Citado por Serra e pelo secretário de Segurança Pública, Saulo Abreu, o ex-secretário de Transportes da gestão Marta Suplicy (PT), Jilmar Tatto, negou acusações e disse que os adversários querem envolver o PT no caso para não serem os únicos prejudicados
pela crise de segurança.

A possível ligação também é invocada por tucanos para tentar explicar porque a facção praticamente só queimou ônibus durante os ataques que praticou no Estado de São Paulo. Durante os atentados de julho, houve mais ônibus queimados nas áreas onde há mais disputa entre empresas e perueiros.