Caminhoneiro é flagrado dirigindo na BR-262/MG fora do horário, com maconha e em excesso de jornada
PERIGO: Caminhoneiro é flagrado dirigindo na BR-262/MG fora do horário, com maconha e em excesso de jornada. Foto: Divulgação/PRF

Novas exigências da NR-1 e aumento dos afastamentos por transtornos mentais ampliam debate sobre saúde dos motoristas.

A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) é a regra oficial do Ministério do Trabalho e Emprego que define as diretrizes gerais de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil. Ela serve como base para todas as outras normas da área.

Saúde e segurança no transporte – Setembro Amarelo 2026

A saúde mental dos caminhoneiros passou a ocupar um espaço maior nas estratégias de segurança das transportadoras brasileiras. A entrada em vigor das novas exigências da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), em maio de 2026, reforçou a responsabilidade das empresas de identificar, avaliar e prevenir riscos psicossociais relacionados ao trabalho.

No transporte rodoviário de cargas, a medida amplia o debate sobre as condições enfrentadas pelos motoristas e a necessidade de integrar o cuidado emocional à prevenção de acidentes.

A discussão ganha força durante o Setembro Amarelo, campanha nacional de conscientização e valorização da vida, em um cenário de crescimento dos afastamentos por transtornos mentais e comportamentais.

Dados preliminares da Previdência Social mostram que o Brasil registrou 546.254 benefícios por incapacidade relacionados a esses transtornos em 2025, um aumento de 15,66% em comparação com 2024. Desse total, 166.489 benefícios foram concedidos por transtornos de ansiedade e 126.608 por episódios depressivos.

Os números reforçam a necessidade de ampliar as estratégias de prevenção, especialmente em atividades profissionais que exigem atenção constante e estão sujeitas a jornadas prolongadas, pressão operacional e períodos de afastamento do convívio familiar.

Conforme já identificado pelo Estradas.com.br e pesquisas do Ministério Público do Trabalho, abusos de jornada e longos períodos longe de casa, sem contar pressão de horário e financeira, levam muitos caminhoneiros ao uso de drogas.

NR-1 amplia responsabilidade das transportadoras sobre a saúde mental

Desde 26 de maio de 2026, a nova redação do capítulo 1.5 da NR-1 passou a incluir expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).

Na prática, as empresas precisam identificar, avaliar e adotar medidas preventivas diante de condições de trabalho que possam comprometer a saúde dos profissionais.

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, esses fatores estão associados à organização e à gestão das atividades profissionais. Entre os exemplos estão excesso de trabalho, metas inadequadas, falta de apoio, conflitos, assédio e baixa autonomia.

A nova regulamentação reforça que a prevenção não deve se limitar ao atendimento individual dos trabalhadores, mas também envolver a avaliação dos processos, das relações profissionais e das condições em que o trabalho é realizado.

No Transporte Rodoviário de Cargas (TRC), responsável por mais de 60% do volume transportado no país, segundo dado da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) citado no levantamento, o desafio envolve características próprias da atividade.

Longos períodos longe de casa, jornadas ao volante, pressão por resultados, riscos do trânsito e alterações nos horários de sono e alimentação são fatores que precisam ser considerados pelas transportadoras ao estruturar suas políticas de saúde e segurança ocupacional.

Fadiga e falta de descanso estão relacionadas aos acidentes rodoviários

A relação entre as condições de trabalho dos motoristas e a segurança nas estradas também aparece em pesquisas sobre acidentes rodoviários.

Um estudo publicado em 2026 na Revista do Sistema Único de Segurança Pública, com base em dados coletados entre janeiro de 2024 e outubro de 2025, identificou uma relação relevante entre o descumprimento das regras de descanso e a ocorrência de sinistros envolvendo veículos sujeitos ao uso de cronotacógrafo.

Entre os acidentes analisados no grupo de condutores infratores, a reação tardia e a ausência de reação estiveram entre os principais fatores associados às ocorrências.

Embora a pesquisa trate especificamente do descanso e da fadiga, seus resultados contribuem para a discussão sobre a necessidade de considerar as condições físicas e psicológicas dos motoristas nas políticas de prevenção de acidentes.

Para Luigi Rosolen, diretor da West Cargo, a segurança rodoviária deve estar associada ao cuidado com os profissionais que atuam nas operações.
“Um motorista emocionalmente equilibrado consegue manter a atenção por mais tempo, tomar decisões melhores e reagir com mais consciência diante de situações de risco. Por isso, enxergamos o cuidado com as pessoas como parte da nossa estratégia de segurança, e não como um tema isolado da operação”, afirma.

Transportadora investe em acolhimento psicológico e prevenção
Na West Cargo, as ações voltadas à saúde mental começaram antes da entrada em vigor das novas exigências da NR-1.

Segundo Rosolen, a transportadora desenvolve há mais de quatro anos uma cultura de cuidado com os colaboradores. Há aproximadamente dois anos, a empresa também estruturou sua área de Desenvolvimento Humano Organizacional (DHO), responsável por treinamento, desenvolvimento, acolhimento e acompanhamento de profissionais em situações de afastamento ou maior vulnerabilidade emocional.

Os acolhimentos são realizados semanalmente. Quando identificada a necessidade de acompanhamento especializado, o profissional pode ser encaminhado para sessões recorrentes de terapia remota, oferecidas por meio de parceiros como a Auster.

A estrutura de apoio inclui ainda iniciativas de saúde e bem-estar desenvolvidas com o TotalPass, Grupo Ritacco, SEST SENAT e entidades de classe do setor de transportes.

De acordo com a empresa, essas ferramentas integram uma estrutura de identificação de necessidades, orientação e encaminhamento dos colaboradores, sem substituir o atendimento realizado por profissionais de saúde quando necessário.

Treinamentos semanais aproximam segurança e saúde emocional

O trabalho de prevenção também faz parte da rotina de treinamento dos motoristas da West Cargo. Todas as segundas-feiras, a transportadora reúne grande parte de seus motoristas na matriz, localizada em Guarulhos, São Paulo. Os encontros são transmitidos para representantes das filiais.

A programação aborda segurança operacional, situações vivenciadas nas estradas, saúde e questões relacionadas ao bem-estar dos profissionais.

Além de orientar os trabalhadores, os treinamentos permitem compartilhar experiências e transformar ocorrências registradas durante as operações em oportunidades de aprendizado coletivo.

A proposta é integrar as atividades de treinamento, gestão de pessoas e segurança, estabelecendo uma rotina de diálogo sobre os desafios enfrentados pelos motoristas.

Apoio psicológico também é oferecido após acidentes e afastamentos

O acompanhamento dos trabalhadores ganha atenção especial após acidentes, afastamentos ou episódios potencialmente traumáticos.

Nessas situações, a área de Desenvolvimento Humano Organizacional mantém contato individualizado com o profissional, oferece espaço de escuta e avalia a necessidade de encaminhamento para atendimento psicológico especializado.

O acompanhamento também contempla o processo de retorno às atividades, considerando as condições emocionais do colaborador após o período de afastamento.

“A intenção é que nenhum motorista ou colaborador precise enfrentar uma situação delicada sozinho. O cuidado não termina quando o afastamento acaba. Precisamos entender como aquele episódio afetou a pessoa e garantir condições para que ela retorne de forma segura, inclusive emocionalmente”, explica Rosolen.

Prevenção dos riscos psicossociais foi tema de campanha nacional em 2026

A preocupação com a saúde mental dos trabalhadores também ganhou destaque na agenda nacional de segurança e saúde ocupacional.

A Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho de 2026, promovida pela Inspeção do Trabalho, adotou o tema “Pela prevenção dos riscos psicossociais no trabalho”.

A iniciativa reforça a aplicação da nova NR-1 e a necessidade de ampliar as estratégias de identificação, prevenção e controle dos fatores psicossociais dentro das organizações.

A mudança regulatória também evidencia a importância de uma abordagem integrada de segurança e saúde ocupacional, considerando riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e psicossociais.

Para o transporte rodoviário de cargas, essa perspectiva significa ampliar as estratégias de prevenção para além das condições dos veículos, das rodovias e dos equipamentos de segurança, incluindo a organização do trabalho e o cuidado com os profissionais.

Na avaliação da West Cargo, a mudança representa uma oportunidade de fortalecer iniciativas que ultrapassem o cumprimento das obrigações legais.
“Cuidar da saúde mental não é apenas uma exigência legal ou uma tendência. O motorista é essencial para a operação e merece atenção tanto à saúde física quanto à emocional. Quando investimos nisso, estamos investindo diretamente na preservação da vida e em um transporte mais seguro para todos”, finaliza Luigi.

Exame toxicológico revelou a ponta do iceberg

A exigência do exame toxicológico para condutores das categorias C, D e E, revelaram o grau de exploração dos motoristas por maus transportadores e criminosos embarcadores. Essa é a avaliação do Coordenador do SOS Estradas, Rodolfo Rizzotto.

“Quando as pesquisas com testes do Ministério Público do Trabalho revelaram que mais de 30% dos motoristas de carga normal e 50% de carga perecível, faziam uso de drogas, descobrimos um grau de exploração dos seres humanos sem precedentes. Afinal, esses profissionais usavam drogas para sobreviver. Depois, quando o exame toxicológico entrou em vigor, caiu imediatamente em 30% a renovação dos motoristas das categorias C, D e E. É a chamada positividade escondida. São motoristas que fazem uso de drogas para suportar a jornada  mas não vão pagar para fazer o exame, pois já sabem que o laudo será positivo. Portanto, precisamos valorizar as empresas que trabalham em prol do transporte rodoviário socialmente responsável e combater a escravidão sobre rodas. Valorizar os bons exemplos e punir com rigor os maus.”

 

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