Caminhoneiro confessa que simulou sequestro no Rodoanel, e responderá por falsa comunicação de crime
Caminhoneiro confessa que simulou sequestro no Rodoanel, e responderá por falsa comunicação de crime. Foto: Reprodução/TV Globo

Dener Laurito dos Santos, de 52 anos, confessou a farsa durante interrogatório realizado nessa quarta-feira (19)

A Polícia Civil de São Paulo concluiu que o caso do caminhoneiro supostamente sequestrado no km 44+800 do Rodoanel Mário Covas (SP-021), em Itapecerica da Serra (SP), foi uma encenação planejada pelo próprio motorista.

Depois de apresentar versões contraditórias, Dener Laurito dos Santos, de 52 anos, confessou a farsa durante interrogatório realizado nesta quarta-feira (19). A motivação apresentada por ele seria “chamar atenção para a causa dos caminhoneiros”.

Segundo as investigações, o motorista quebrou o para-brisa do caminhão arremessando uma pedra, manobrou o veículo até deixá-lo atravessado na pista e, em seguida, prendeu-se a um simulacro de explosivo.

Conforme o Estradas tinha alertado, a concessionária tinha imagens do trecho o que permitiria verificar a versão do motorista. Outro motorista que passava no local quando o caminhoneiro colocava o veículo atravessado na pista, já havia dito que a versão era falsa.

A irresponsabilidade do caminhoneiro gerou um caos por horas no trecho, além de obrigar o deslocamento de equipes especializadas em bombas e sequestros. Ele estava retornado para a empresa depois de levar carga de explosivos para o Peru.

Delegado explica como descobriram a farsa

O delegado da Dise de Taboão da Serra, Marcio Fruet, disse que a polícia conseguiu comprovar de forma técnica, confrontando provas com as afirmações que a suposta vítima prestou.

“Conseguimos confirmar que esse crime não ocorreu e muito menos daquela forma que o autor nos declarou. Os policiais trabalharam de forma muito técnica fazendo o confronto das imagens da localização do caminhão, verificação dos outros veículos e tudo confirmou que ele estava mentindo. Quando ele foi prestar declarações, ainda tentou prosseguir na mentira, mas tudo foi esclarecido”, disse Fruet.

Por meio de nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) informou que “o homem foi indiciado por falsa comunicação de crime, conforme o artigo 340 do Código Penal, após confessar em depoimento que ele próprio produziu o simulacro de bomba. As investigações continuam sob responsabilidade da DISE de Taboão da Serra para o completo esclarecimento dos fatos e a devida responsabilização criminal do indiciado.”

A pena para falsa comunicação de crime é de detenção de 1 mês a 6 meses ou multa.

Versões mentirosas que enganaram a imprensa

Santos foi encontrado no último dia 12 de novembro em estado de surto, amarrado ao dispositivo falso e com o caminhão bloqueando a via. Inicialmente, alegou ter sido abordado por seis criminosos em dois carros.

Declarou que três homens teriam entrado na cabine do veículo, amarrado numa falsa bomba e que teriam desistido do crime após sua reação. Posteriormente, já no hospital, mudou a versão afirmando que os supostos criminosos ordenaram que ele deixasse o caminhão atravessado na pista para facilitar a fuga.

As contradições levaram os policiais a desconfiar da narrativa, resultando na admissão da armação. Ele foi indiciado por falsa comunicação de crime nesta terça-feira (17), após depoimento à Polícia Civil. Mas há possibilidade de ser enquadrado em outros crimes

A investigação continua porque a versão de que seria para chamar atenção para as dificuldades da classe dos caminhoneiros não convenceram os policiais.

Em nota, a empresa Sitrex — responsável pelo veículo — afirmou que o caminhão retornava vazio para a matriz em São Bernardo do Campo após a entrega de uma carga de explosivos no Peru a um cliente. A empresa, até o momento, colaborou com as autoridades.

Caminhoneiro foi expulso da PM de São Paulo por atos desonrosos

O caminhoneiro irresponsável ainda deu entrevistas para vários veículos de comunicação, com cenas constrangedoras envolvendo seus familiares. Jornalistas de boa fé foram iludidos e abriram espaço nobre.

Segundo registros da Polícia Militar de São Paulo, o caminhoneiro  foi policial, entre 1994 e 2005, e integrava o 22° Batalhão. Em 2006, foi expulso da corporação pela “prática de atos desonrosos, consubstanciando transgressão disciplinar de natureza grave”, segundo portaria que divulgou a decisão.

Ele alega que está passando por tratamento psicológico. Ainda não foram apresentados os laudos dos exames toxicológicos do condutor, que poderiam indicar uso de drogas no dia do ocorrido. Não há informações se as autoridades vão utilizar também o chamado exame toxicológico de larga janela, que permite identificar o uso frequente de drogas nos últimos 90 dias.

O que poderia contribuir para verificar o comportamento do condutor e não apenas o possível uso de drogas no dia do falso sequestro.