Governo admite que 1 em cada 9 motoristas de veículos pesados está com toxicológico vencido
REALIDADE: Engavetamento no Anel Viário de BH envolveu veículo com 14 multas, inclusive toxicológico vencido. Foto: Reprodução/TV Globo

Mais de 1,3 milhão de motoristas estão com toxicológico vencido e omissão dos Detrans agrava a situação

O número de motoristas das categorias C, D e E, com exame toxicológico periódico vencido voltou a crescer no país. Os dados obtidos com exclusividade pelo Estradas.com.br mostram que, dos 11,7 milhões de motoristas habilitados nas categorias C, D e E — aptos a dirigir caminhões, ônibus, vans, micro-ônibus e carretas — nada menos que 1,35 milhão circulam atualmente com o exame obrigatório fora da validade.

Na prática, isso significa que um em cada 8,7 condutores dessas categorias está provavelmente evitando o exame porque são usuários de drogas. O exame é obrigatório a cada 30 meses, além de exigido na obtenção da habilitação nas categorias C, D e E, bem como renovação, assim como na admissão nas empresas.

Conhecido como teste do cabelo, detecta o uso frequente de drogas nos últimos 90 dias passou a ser exigido por lei desde 10/12/25 para primeira habilitação mas Senatran está evitando sua aplicação.

Engavetamento no Anel Viário de BH revela a gravidade do problema

Na tarde desta terça-feira(12) um motorista com caminhão desgovernado provocou diversas colisões contra 13 veículos no Anel Rodoviário de Belo Horizonte (MG) e, por milagre apenas duas pessoas ficaram feridas.

O Estradas.com.br apurou com exclusividade que existem 14 multas recentes registradas neste veículo, sendo que uma delas, aplicada pela Polícia Rodoviária Federal em março de 2025 na BR-040, ocorreu porque o motorista que conduzia na ocasião estava com o exame toxicológico vencido. Pelo histórico de apurações do portal,  veículos envolvidos neste tipo de sinistro(acidente) normalmente apresentam várias irregularidades. Dentre elas excesso de jornada, abuso de velocidade, más condições de manutenção e, eventualmente, toxicológico vencido. Conforme foi o caso desta terça-feira em Minas.

Pelos dados apurados pelo Estradas, Minas Gerais é o terceiro estado da União com mais motoristas com exame toxicológico periódico vencido: 96.639. 

Segundo o Detran de Minas Gerais, existem no estado 1.197.479 condutores habilitados nas categorias C, D e E, e suas variações. Este ano, de 01/01/2026 a 30/04/2026 foram aplicadas 25.260 infrações por Infrações deixar de realizar o exame toxicológico previsto no parágrafo 2 do art 148-a após 30 dias do vencimento. Ano passado, de 01/01/2025 a 31/12/2025 foram aplicadas 77.246 infrações. O órgão não informou quantos condutores continuam com o exame toxicológico periódico vencido.

Aumento de mais de 200 mil casos em seis meses

O crescimento dos motoristas com exame vencido é acelerado. Em dezembro do ano passado, a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) informou que o número de condutores com toxicológico vencido era de 1,1 milhão. Em apenas seis meses, houve aumento de aproximadamente 200 mil motoristas nessa condição.

Há indícios de que a redução na fiscalização do descanso entre jornadas dos motoristas profissionais, está contribuindo para esse aumento, em virtude do desespero de muitos profissionais que estão voltando a usar drogas para suportar a jornada. O aumento de 13% dos mortos nas rodovias federais, nos primeiros dois meses do ano, pode ter relação com isso.

Um caminhoneiro que trabalha no transporte de frutas, que não quis ser identificado, afirmou: ” A pressão é grande e ano passado o patrão mandava segurar a onda porque a PRF estava fazendo a Operação Descanso Legal. A multa era pesada. Agora, ninguém mais fala nisso e ele manda tocar a noite toda. Muitos acabam cedendo e aí só com droga para aguentar dirigir sem dormir.”

Os números também expõem a negligência dos Departamentos Estaduais de Trânsito (Detrans), responsáveis por aplicar a chamada “multa de balcão”. A infração prevê penalidade de R$ 1.467,35, sete pontos na CNH e abertura de processo de suspensão do direito de dirigir até apresentação de laudo negativo para drogas. A autuação pode ser feita automaticamente pelo sistema.

Entretanto, a maioria dos Detrans não está sequer notificando os motoristas, apesar da obrigação legal prevista na legislação de trânsito. O resultado é que 1,3 milhão seguem dirigindo normalmente mesmo em situação irregular. A impunidade estimula esse comportamento e prejudica a política pública, além de colocar vidas em risco.

Ao mesmo tempo, os dados indicam que a limitação por amostragem da fiscalização nas rodovias tem resultados modestos. Em grande parte dos estados, o número de motoristas autuados dirigindo com exame vencido é próximo de zero, embora a infração em abordagem de pista tenha a mesma penalidade: multa de R$ 1.467,35 e sete pontos na carteira. Quem atua com mais afinco no combate aos abusos de jornada e drogas é a Polícia Rodoviária Federal. Na área urbana não há registro de fiscalização desse tipo.

Exame Toxicológico 10 x 1 Lei Seca

Nas rodovias federais, com o olhar policial selecionando quem será abordado, a fiscalização da Lei Seca pela PRF, autua apenas 1,4% do total por dirigir sob efeito de álcool ou recusar fazer o teste do etilômetro. Neste caso trata-se de droga lícita (álcool), testando motoristas de todas as categorias de A até E e suas variações.

Já os dados da Senatran revelam que 11,5% dos habilitados nas categorias C, D e E , não comparecem para fazer um exame que detecta quem faz uso frequente de drogas e que conduz veículo pesado. Percentualmente são praticamente 10 vezes mais que os 1,4% da Lei Seca da PRF.

Quem não comparece para realizar o toxicológico comporta-se como os que recusam fazer o teste do etilômetro. Neste caso evitam o exame para drogas ilícitas, diferente do álcool, que é legalizado. Portanto, é possível afirmar que são usuários frequente de drogas e que ainda circulam regularmente dirigindo porque possuem CNH que permite dirigir profissionalmente.

São Paulo tem maior número de casos de toxicológico vencido

São Paulo lidera o ranking nacional de motoristas com exame toxicológico vencido. O estado registra 415.815 condutores irregulares.

Na sequência aparecem:

  • Paraná: 118.706;
  • Minas Gerais: 96.639;
  • Rio de Janeiro: 90.559;
  • Santa Catarina: 70.761.

Os números reforçam a concentração do problema justamente nos estados com maior circulação de veículos de carga e transporte coletivo. Veja a tabela por estado.

Toxicológicos vencidos em 11/5/26 por categoria de CNH
UFCat. CCat. DCat. ETotal
AC9033.9765085.387
AL9187.3711.0889.377
AM1.1808.4951.42011.095
AP6263.3854834.494
BA4.85840.6475.36150.866
CE3.12725.9062.55331.586
DF1.54126.7942.60730.942
ES2.45816.7133.71822.889
GO10.62044.09311.04565.758
MA4.22923.1622.41429.805
MG12.64171.66812.33096.639
MS5.51310.8084.43820.759
MT8.96721.4469.68740.100
PA4.11334.0986.30044.511
PB2.49911.8231.60615.928
PE3.92635.1456.06445.135
PI1.77111.8451.38715.003
PR36.00556.31926.382118.706
RJ16.24866.5537.75890.559
RN2.2599.7111.41513.385
RO4.34111.4943.60019.435
RR6133.1453754.133
RS14.74225.1047.61247.458
SC25.08231.13714.54270.761
SE1.2498.2911.43910.979
SP86.521272.79356.501415.815
TO2.34911.9202.93317.202
Total Geral259.299893.842195.5661.348.707
Fonte: Senatran e SOS Estradas
O Detran do Espírito Santo informou que possui 270.201 habilitados nas categorias C, D e E. Destes 27.819 estão com o toxicológico vencido. O número representa praticamente 5 mil condutores a mais que os divulgado pelo governo federal que foram 22.889. O órgão não informou quantos foram autuados.

Já o  Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM) informa que, em 2025, foram autuados 9.029 condutores por conduzir com exame toxicológico vencido após o prazo de 30 dias.

O órgão também informou que atualmente, estão com o exame periódico vencido condutores das categorias C (5.878), E (1.343) e D (10.039). Portanto, 17.260, número bem superior ao informado pela Senatran: 11.095.

Do Distrito Federal vem a confirmação da falta de fiscalização. Enquanto o 30.942 condutores habilitados nas categorias C, D e E , estão com o exame toxicológico periódico vencido, o Detran-DF informou: “O Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) informa os dados referentes às autuações por flagrante com base no artigo 165-D do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), que trata da não realização do exame toxicológico obrigatório previsto no § 2ºdo art. 148-A:

Número de autuações por flagrante registradas pelo Detran-DF:

1) 2026 (janeiro a abril): 7 autuações; 2)2025 (janeiro a abril): 3 autuações; 3)2025 (ano completo): 11 autuações. *Os dados se referem ao total de autuações registradas pelo Detran-DF, DER-DF e PMDF.

Estas autuações são realizadas na pista, o que confirma a baixa efetividade da fiscalização aleatória. O órgão ainda não informou quantas “multas de balcão” , que podem ser feitas automaticamente pelo sistema, foram aplicadas pelo Detran-DF, considerando que 30.492 motoristas aparecem com exame vencido no sistema da Senatran.

O mesmo caso ocorre no Paraná, onde o Detran daquele estado informou que foram autuados 173 motoristas em 2025 e 70 este ano, por dirigirem com toxicológico vencido.

Estas autuações não incluem os 118.706, informados pela Senatran, que estão com o exame toxicológico periódico vencido e que deveriam ser autuados automaticamente pelo órgão. Solicitamos ao órgão que esclareça os dados porque os 243 autuados na pista representam 0,2% do total de motoristas com exame vencido.

Mais uma vez confirma que a prevenção, com a chamada multa de balcão, é muito mais eficiente que a fiscalização na pista.

Estradas.com.br solicitou aos Detrans que informem quantos condutores estão com exame vencido e quantos foram autuados mas até o momento não recebeu resposta da maioria. Conforme os dados chegarem a matéria será atualizada.

Transporte de passageiros concentra maior parte dos casos

A categoria D, que permite conduzir vans, micro-ônibus e ônibus — inclusive no transporte escolar — concentra a maior parte dos motoristas com toxicológico vencido. Além disso, motoristas da categoria D também podem dirigir caminhões e outros veículos de carga acima de 3,5 toneladas.

Segundo os dados levantados pelo Estradas.com.br, são 893.842 condutores da categoria D em situação irregular, o equivalente a aproximadamente 66% de todos os casos registrados no país.

O dado chama atenção porque envolve justamente motoristas autorizados a transportar passageiros e crianças no transporte escolar.

Embora a categoria E — necessária para dirigir carretas, bitrens e rodotrens — tenha forte exposição pública no debate sobre drogas nas estradas, o universo de motoristas da categoria D é muito maior. Hoje existem quase cinco motoristas habilitados na categoria D para cada um habilitado na categoria E, com exame vencido.

Mudanças em discussão no Congresso preocupam especialistas

O cenário preocupa ainda mais porque avança no Congresso Nacional um movimento para flexibilizar regras de descanso dos motoristas profissionais.

Entre as propostas em discussão está uma PEC 22/25, já aprovada no Senado que praticamente elimina a obrigatoriedade das 11 horas de descanso entre jornadas, fragiliza o controle de jornada e enfraquece os limites de tempo contínuo de direção.

A flexibilização tende a estimular ainda mais o uso de drogas entre motoristas profissionais, já que muitos recorrem a substâncias estimulantes para suportar longas jornadas sem dormir.

Para o coordenador do SOS Estradas, Rodolfo Rizzotto, o país vive uma situação crítica. A combinação entre falta de fiscalização e flexibilização das regras trabalhistas cria um ambiente perigoso nas estradas brasileiras.

“A situação é dramática e revela o poder dos “escravocratas dos transportes”. Ao flexibilizar descanso e tempo de direção, o sistema empurra o motorista para jornadas desumanas e estimula o uso de drogas para permanecer acordado.”

“Positividade escondida” preocupa especialista

Segundo Rizzotto, existe ainda um fenômeno que chama de “positividade escondida”: motoristas que deixaram de buscar habilitação nas categorias C, D e E, consideradas categorias profissionais, após a implantação da exigência do exame toxicológico.

De acordo com dados oficiais, a queda no número de habilitados nas categorias C, D e E após março de 2016 — especialmente a partir de 2017, quando decisões judiciais deixaram de suspender a exigência — mostra que muitos usuários frequentes de drogas deixaram de conseguir acesso às categorias profissionais. Em março de 2016 eram 13,2 milhões, habilitados nas categorias C, D e E. Atualmente são 11.7 milhões e deveriam ser mais de 16 milhões.

“Isso demonstra que o exame atua preventivamente ao impedir que usuários frequentes de drogas obtenham habilitação para conduzir veículos pesados”, afirma Rizzotto.

Os dados demonstram o grau de exploração dos motoristas profissionais e a necessidade de combater a exploração da jornada, ao mesmo tempo em que usam as informações do toxicológico para evitar que esses condutores circulem nas ruas e rodovias. 

Pesquisas do Ministério Público do Trabalho, com motoristas testados para drogas, já comprovou a relação direta que existe entre o excesso de horas na direção e o uso de drogas. Ao mesmo tempo, revelou que motoristas profissionais usuários de drogas em mais de 70% dos casos são a favor do toxicológico. O dado revela o desespero dos profissionais que apoiam o controle de drogas porque sabem da relação direta com a exploração dos maus transportadores e maus embarcadores.

Senatran permite habilitação sem exame toxicológico

Enquanto motoristas das categorias C, D e E continuam sujeitos à multa e suspensão da CNH por ausência do exame periódico, candidatos à primeira habilitação nas categorias A e B estariam obtendo a carteira sem apresentar o toxicológico exigido em lei desde dezembro de 2025.

Conforme já demonstrado SOS Estradas, uma orientação da Senatran aos Detrans estimula a emissão da primeira habilitação sem que o candidato passe pelo exame toxicológico, apesar da exigência legal em vigor.

Com isso, usuários de drogas vêm relatando nas redes sociais que conseguiram obter habilitação aproveitando a flexibilização adotada pelos órgãos de trânsito. Muitos inclusive alertam outros usuários a tirarem a habilitação o quanto antes, evitando assim o controle de drogas.

A matéria abaixo aborda o tema com mais profundidade:

Senatran orienta Detrans a não exigirem exame toxicológico, que beneficia usuários de drogas