
Crescem os golpes envolvendo o novo sistema de pagamento de tarifas, e reclamações seguem no mesmo ritmo
A rápida implantação do sistema de pedágio eletrônico free flow no Brasil vem sendo acompanhada por uma onda crescente de reclamações de usuários, ações judiciais, projetos de lei e agora também pela explosão de golpes digitais envolvendo cobranças falsas.
Desde o início do ano, somente os especialistas em segurança digital da Kaspersky identificaram mais de 400 sites fraudulentos relacionados ao pagamento de pedágios eletrônicos. Os criminosos utilizam anúncios patrocinados, redes sociais e dados reais de veículos para enganar motoristas e desviar pagamentos.
O crescimento das fraudes ocorre justamente em meio à falta de transparência e às dificuldades enfrentadas por usuários do sistema free flow em diferentes rodovias do país.
Nos últimos meses, o Estradas mostrou diversos problemas do modelo:
- deputados do Paraná pediram à Justiça Federal a suspensão do sistema em rodovias do Lote 4;
- o Ministério Público Federal recomendou a suspensão de multas na BR-364, em Rondônia;
- ações civis públicas questionaram multas aplicadas na Via Dutra;
- usuários relataram dificuldades para identificar cobranças e realizar pagamentos;
- especialistas criticaram a falta de transparência da ANTT e da concessionária Motiva na Dutra;
- projetos de lei passaram a defender a suspensão de milhões de multas por evasão involuntária;
- o próprio governo federal acabou ampliando os prazos de regularização diante da enorme quantidade de autuações e reclamações.
A principal crítica de usuários e entidades ligadas à defesa do consumidor é que o sistema foi implantado de forma precipitada, sem padronização nacional de cobrança, sem comunicação eficiente e sem uma plataforma única que permitisse ao motorista consultar facilmente seus débitos.
Em muitos casos, motoristas sequer sabem que passaram por um trecho operado em free flow até receberem multas ou encontrarem supostas cobranças na internet. Agora, o governo busca soluções e posa como ‘salvador da Pátria’ quando foi responsável pelo caos.
Como funciona o golpe
Os criminosos criam páginas falsas que imitam concessionárias e sistemas oficiais de pagamento. Ao inserir a placa do veículo, o motorista visualiza um suposto débito e realiza o pagamento via PIX para contas controladas por golpistas.
Segundo especialistas, os valores normalmente são baixos justamente para reduzir desconfianças e aumentar o número de vítimas.
“O que observamos no caso do golpe do free flow é uma evolução rápida e estruturada da fraude digital. Em poucos meses, os criminosos passaram de dezenas para centenas de domínios falsos, o que indica uma operação altamente escalável e provavelmente automatizada. Eles combinam engenharia social, uso de dados reais de veículos e anúncios patrocinados para aumentar a taxa de conversão dos golpes. Esse tipo de campanha tende a acompanhar a adoção de novos serviços digitais, explorando justamente momentos de transição e desconhecimento do público”, afirma Fabio Assolini, Lead Security Researcher da Equipe Global de Pesquisa e Análise da Kaspersky para a América Latina.
Como evitar cair no golpe
Especialistas recomendam:
- evite clicar em anúncios patrocinados;
- acesse diretamente os canais oficiais das concessionárias;
- verifique cuidadosamente os dados do recebedor antes de pagamentos via PIX;
- desconfie de cobranças recebidas por links em redes sociais;
- utilize ferramentas de segurança digital para bloquear páginas fraudulentas.
Enquanto o sistema não tiver comunicação mais clara, integração nacional e maior transparência, especialistas avaliam que tanto os problemas operacionais quanto os golpes digitais tendem a continuar crescendo.
Usuário de rodovia não é funcionário de concessionária
Na avaliação do Estradas.com.br, num país com tanto talento para golpes era preciso mais responsabilidade e qualidade de informação para evitar tantos transtornos e riscos para os usuários de rodovias. Eles estão dispostos a pagar mas que não aceitam viverem como “funcionários” das concessionárias, em busca da forma de pagamento segura. Para o editor do Estradas, Rodolfo Rizzotto, está na hora dos governos e concessionárias criarem o Pedágio Free Fraude, ou seja, livre das fraudes.




