Oscar Schmidt - um grande carona que nos deixou na pista da saudade
"MÃO SANTA": Oscar deixou um "até breve", na entrevista de 1999. Foto: Ayrton Baffa

Há 27 anos, a RDE – Revista das Estradas, onde nasceu o nosso portal, teve o privilégio de entrevistar o maior ídolo do basquete brasileiro — um nome que certamente será lembrado enquanto o esporte existir.

Ele contava como era sua relação com automóveis, sua preocupação com a segurança viária e fazia críticas construtivas sobre o início do processo de concessão de rodovias.

Como forma de reconhecimento ao seu talento, simplicidade e extraordinária vontade de viver, tomamos a liberdade de republicar esta matéria, que reúne reflexões desse ser humano especial sobre temas que interessam a quem percorre as estradas — e onde ele já demonstrava seu compromisso com a preservação da vida e risco de dirigir sob efeito de álcool, muito anos de existir a “Lei Seca”.

Na foto da entrevista, realizada pelo extraordinário repórter, Ayrton Baffa, que também já nos deixou, Oscar deixou um simplório “tchau” para todos que seguem a estrada da vida.

Oscar: Cadeia para quem bebe ao dirigir

Como é que o grandalhão Oscar, com dois metros e quatro centímetros de altura, consegue entrar, sentar em carros de passeio e deslocar-se? Ainda mais agora, com esses veículos modernos, pequenos, apertados?

Suado, depois de duas horas de treinos matinais no Flamengo, na Gávea — metade correndo ao redor do campo e outra no ginásio, fazendo arremessos na cesta — o aquariano Oscar Daniel Bezerra Schmidt, 41 anos, nascido em Natal, pai de dois filhos, esclarece a dúvida:

— Bem, peço à concessionária para dar ajustada no banco, alongar o trilho, tirar a barreira que o segura, pôr para trás, que já é o suficiente.

O campeoníssimo de basquete — que guarda como maior momento de sua vida profissional a conquista do Pan-Americano de Indianápolis, em 1987 — faz questão de ressalvar que não é chegado a dirigir automóveis, que prefere ser carona e que até deixou o carro em São Paulo, ao se transferir para o Rio de Janeiro. Costuma ir embora para Ipanema ao lado direito do colega, que lhe dá carona.

Em entrevista exclusiva à RDE — Revista das Estradas — lembrou que, ao longo de 20 anos de seleção brasileira, fez numerosas viagens para todos os lados, incluindo o exterior, e que, depois do Brasil, gosta dos Estados Unidos.

— Quase não andava de carro, à exceção da Itália, onde morei durante 11 anos.

Oscar Schmidt - um grande carona que nos deixou na pista da saudade

Brincadeiras

Simples, jovial, atencioso, o “garotão” Oscar, que manteve silêncio durante a corrida que fez ao redor do gramado do Mengão, não parou de brincar com os colegas e, especialmente, com o técnico Cláudio Mortari, durante o treino no ginásio do clube.

Numa contagem do repórter desta revista, Oscar fez 72 lançamentos sucessivos, acertando 60. O técnico, também em tom de brincadeira, insistia em gritar que ele errava mais do que acertava. Foi quando Oscar, após cesta feita pelo lado direito — que disse preferir mais do que o esquerdo — respondeu que já havia batido o recorde, numa ocasião, acertando 89 cestas sem erro.

O campeão Oscar ensinou que, se frustração porventura existir para ele, no basquete, passa logo, porque as vitórias ficam mais do que qualquer derrota.

— Há a possibilidade de se refazer imediatamente, pois permanecem mais os fatos positivos do que os negativos. Temos, sim, a tristeza da derrota, mas ocorre o perde-ganha e você logo esquece as tristezas e só lembra das alegrias.

Nossas rodovias

O que pensa Oscar de nossas rodovias, onde foi visto em algumas paradas?

— Se funcionarem como as da Europa e Estados Unidos, entendo como válida a privatização delas. Mas, a partir do momento em que não dão atendimento necessário, não vale a pena privatizar.

— Paga-se pedágio altíssimo. Então, deve-se ter retorno também altíssimo, em investimentos, nas estradas. Em muitas delas, você não vê esse retorno.

Para ele, a fiscalização das condições dos veículos seria um dos elementos necessários à redução de acidentes:

— O brasileiro tem a mania de beber uma cervejinha dirigindo e isso é crime. Tem que ser punido de maneira ferrenha, com cadeia.

— Deve também haver solidariedade no trânsito. O brasileiro tem mania de apostar corrida, gosta de correr demais. Já tive essa mania também, quando era moleque. Superei, graças a Deus. Deve-se respeitar quem está dirigindo.

Na imagem abaixo a capa da Revista das Estradas, em 1999, com Oscar em destaque.

Oscar Schmidt - um grande carona que nos deixou na pista da saudade