Realizado anualmente pelo Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), o levantamento que aponta as condições das rodovias federais mostrou um resultado favorável a Santa Catarina, mas o trecho que afeta diretamente a região, no limite entre Guaramirim e Jaraguá do Sul, está longe de ser um ponto positivo.

Em contrapartida às condições gerais das rodovias catarinenses, o trecho urbano da BR-280 foi considerado “péssimo” e está entre o menor percentual, uma vez que apenas 11,7% das estradas federais obtiveram o selo negativo.

O maior percentual foi o de rodovias com o selo “bom”, 42,9% e regular, 27,4%. Já as rodovias consideradas ruins ficaram com 18% do total.

O ponto citado como péssimo no levantamento realizado pelo Dnit está dentro do trecho estadualizado há mais de três anos. Dessa maneira, a manutenção da rodovia deve ser realizada por órgãos estaduais, como o Deinfra.

São cerca de nove quilômetros de rodovia que passaram ao governo do Estado – o trecho não está no projeto federal de duplicação, que teve o traçado alterado para retirá-la do meio urbano.

O ICM (Índice de Condição da Manutenção) é obtido através de uma metodologia que considera a soma dos índices de pavimento e conservação, em que o primeiro tem peso de 70% na nota final.

Conforme explica o Dnit, os critérios de avaliação consideram a ocorrência de defeitos no asfalto. Já os critérios de avaliação da conservação analisam fatores de manutenção, como a altura da vegetação, a drenagem e as sinalizações verticais e horizontais.

“Uma pista em boas condições não tem buracos, tem poucas ocorrências de remendos ou trincas, tem canteiros centrais e áreas vegetais laterais podadas, e sinalização visível. Por outro lado, uma pista com vários remendos, panelas (cavidades), de sinalização precária e mato alto pode ser considerada ruim ou péssima”, esclarece.

Segundo a metodologia aplicada para obtenção do resultado, se o ICM estiver entre 50 e 70, o estado é ruim e requer serviços de recomposição, se for mais que 70, é considerada de péssimo estado e requer intervenção pesada.

Sem perspectiva de investimentos

A estadualização do trecho urbano da BR-280 foi oficializada ainda em junho de 2015, quando a decisão foi publicada no Diário Oficial, após aprovação do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes).

À época, a expectativa era trazer o trecho urbano da rodovia para a alçada estadual e tirar do papel as obras de duplicação, que já haviam sido licitadas com investimento de R$ 85,8 milhões sinalizado pelo então governador Raimundo Colombo. Porém, de lá para cá, nada mudou.

Mais de três anos após a estadualização, a rodovia segue sem duplicação e as condições da via se deterioraram a ponto do levantamento pontar  a rodovia como “péssima”neste trecho.

Para o superintendente da regional Norte do Deinfra (Departamento Estadual de Infraestrutura), Ademir Vicente Machado, é preciso considerar a situação em que a rodovia estava quando foi colocada sob responsabilidade do governo estadual.

“Na verdade, eles passaram um trecho para o Estado em condições precárias”, afirma. O superintendente sustenta ainda que Santa Catarina não tem orçamento suficiente capaz de dar conta da “intervenção pesada” que o trecho requer, segundo resultado do ICM apresentado pelo Dnit.

“O Estado não tem verba a não ser para fazer ações paliativas e, além disso, não tem previsão de recursos para revitalizar o trecho porque, na verdade, ele precisa ser revitalizado”, argumenta.

Segundo Machado, o único “projeto” que existe atualmente é uma ação corretiva na qual o trecho acaba “entrando no pacote”. A operação tapa buracos, explica o superintendente, está sendo realizada em todas as rodovias estaduais e o trecho estadualizado da BR-280 também será contemplado.

O superintendente afirma ainda que nesta semana as obras devem ser realizadas no trecho de pouco mais de nove quilômetros entre o acesso à Rodovia do Arroz e a “ponte de ferro” de Jaraguá do Sul. “Agora nós estamos fazendo a manutenção corretiva, mas o ideal é fazer a revitalização desse trecho com recapeamento e tudo mais, mas para esse ano não há orçamento para isso e não tem sequer previsão de verba”, enfatiza.

O superintendente destaca ainda que a rodovia era considerada “péssima” e que o estado se agravou com o tempo. Apesar disso, Machado não dá qualquer esperança de que haverá mudança em médio prazo.

“Não basta só fazer a operação tapa buraco. Ali tem que revitalizar, mas não há como estimar quando o cenário será alterado nessa região”, finaliza.

Moradores reclamam

A cada parada do ônibus no ponto para embarque e desembarque de passageiros, uma nuvem de poeira toma conta da frente da casa do cabeleireiro Maurício Urbanski.

Segundo ele, essa é a realidade de todos os moradores e comerciantes da região há mais de um ano e meio, quando o acostamento da rodovia foi quebrado e não foi mais restaurado.

O trecho, que conta ainda com uma faculdade, sofre com a falta de espaço para os pedestres e ciclistas. O cabeleireiro ressalta que os buracos também são presença garantida tanto no pavimento quanto onde deveria estar o acostamento.

“Essa semana vieram colocar essas pedras para amenizar um pouco o pó, mas estamos há mais de um ano sem acostamento e mais ali pra frente é ainda pior, cheio de buraco e ninguém faz nada”, conta.

A sinalização deficiente e a falta de segurança para travessia de pedestres também são reclamações de Urbanski, que chama a atenção para o fato de a faculdade promover um intenso movimento, o que para ele, deveria motivar mais atenção das autoridades com o local.

“Falta iluminação, só tem aquela faixa de pedestres e isso não é seguro. Felizmente não acontece muito acidente, mas não porque é seguro e sim porque quando dá movimento fica tudo parado”, argumenta.

O empresário César Schneider reclama do “asfalto quebrado, buraqueira e falta de acostamento”. Para ele, o estado no qual a rodovia se encontra é realmente “péssimo”, porém, ele não consegue enxergar mudança em médio prazo.

“Isso vai demorar muito para mudar, estou aqui há 18 anos e nada. O problema é que não tem nada na beirada, acostamento, nada e quando você vai cobrar, um joga para o outro. E vão revitalizar como? Não tem dinheiro nem para tapar os buracos”, reclama.

Concessão à iniciativa privada

Prefeito em exercício durante o período de férias de Luis Antônio Chiodini, o vice-prefeito Osvaldo Devigili defende a concessão da rodovia para a iniciativa privada. “Temos consciência de que a privatização é o melhor caminho para o rápido desenvolvimento da rodovia”, destaca.

Ele afirma que o município estará acompanhando as ações sobre a possível concessão da rodovia para a iniciativa privada. O projeto de privatização foi mobilizado pelo governo do Estado e enviado ao Ministério dos Transportes.

Além disso, o vice-prefeito garante que a cobrança ao novo governo será intensa para que seja realizada uma manutenção efetiva e de qualidade na rodovia.

Devigili ressalta que para quem trafega diariamente pelo trecho da rodovia, é um sofrimento ter que lidar com os defeitos no pavimento, além do grande fluxo de veículos.

O prefeito chama a atenção ainda para a insegurança que a má conservação traz para motoristas e pedestres e ressalta que, apesar de a manutenção ser de total responsabilidade do Estado, o município procura realizar roçada e limpeza no entorno da rodovia.

“Esses resultados são retrato fiel daquilo que todos os motoristas, que nós, enfrentamos diariamente. É necessário dar maior atenção com urgência para a BR-280 e para as demais rodovias do entorno, pois da forma como está, a situação só se agrava”, enfatiza.

A duplicação, para ele, é o ponto mais importante, que pode melhorar o fluxo e dar mais segurança ao trecho. “Porém, enquanto ela [duplicação] não sai, é necessário que se faça a manutenção com regularidade, tanto no asfalto quanto na sinalização e limpeza.

Deveria ser usado como exemplo o recapeamento que foi feito no trecho federal e fazer isto também no trecho sob responsabilidade do Estado, como forma de amenizar os problemas existentes”, finaliza.

Municipalização da rodovia

Descontente com o que chama de “descaso muito grande” com a cidade e com a região, o prefeito Antídio Lunelli defende a municipalização da rodovia. O prefeito reconhece as más condições e admite a necessidade de melhorar a segurança, mas ressalta que o município não pode intervir.

“Gostaríamos que o trecho desde a rua Presidente Epitácio Pessoa até a rotatória de Nereu Ramos fosse municipalizada. Com isso, poderíamos fazer adequações e implantar ciclovia, redutores de velocidade, melhorar os acessos aos bairros, a iluminação, entre outros itens, ou seja, deixar este acesso com a cara de Jaraguá do Sul, mas, infelizmente, não podemos”, disse.

Com a estadualização da rodovia, Lunelli destaca que havia a esperança de investimento pesado na revitalização, obra que não aconteceu. Com isso, ressalta o prefeito jaraguaense, o município tem perdido força empresarial.

“Infelizmente, Jaraguá do Sul está cada vez mais isolada em relação aos transportes. Estamos perdendo investimentos importantes de empresas que saem daqui por causa das dificuldades de logística, outras que pretendem investir aqui, desanimam quando tomam conhecimento das condições da rodovia, que é um corredor de exportações. É um descaso muito grande. Somos um pólo industrial importante para o país e sendo tratados desta maneira”, finaliza.

Fonte: https://ocp.news/

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