Em São Paulo, motorista drogado, dirigindo Porsche, avançou sinal em alta velocidade e quase matou duas pessoas Imagem: Mídias sociais
Milhares de postagens na internet revelam que muitos usuários de drogas conseguiam receber do Estado a primeira CNH por falta de controle
Logo após as críticas do ministro dos Transportes, Renan Filho, ao exame toxicológico, feitas durante o programa Bom Dia Ministro, da EBC, em que afirmou que buscará alternativas para derrubar a exigência do exame para a primeira habilitação nas categorias A e B, usuários de drogas passaram a se manifestar de forma intensa nas redes sociais, principalmente no X (antigo Twitter).
Imediatamente, milhares de usuários vieram a público criticar a exigência do exame, em concordância com o ministro. Em alguns casos, não houve cerimônia em marcar perfis do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de Detrans, como ocorreu com o órgão de São Paulo.
É o caso do perfil Lucas Zonta, que escreveu: “Senhor Presidente tira esse exame toxicológico pra tira a CNH pelo amor de Deus.”
Já o Detran de São Paulo recebeu o apelo do perfil Lucas Carolina: “..galera vamos voltar a trás quanto a esse tal de exame toxicológico para tirar carteira A B?”
Há também quem agradeça por já ter obtido a habilitação antes da exigência. É o caso da jovem responsável pelo perfil b@sosaturn, que publicou: “O fato de pedirem exame toxicológico pra cnh logo após eu tirar a minha só prova como Deus está em tudo mesmo!!”
Alguns usuários defendem a organização de um movimento contra o exame. Isa propôs: “…todos da comunidade assumir o fim da obrigatoriedade do exame toxicológico pra cnh isso é uma injustiça com nós que gostamos da erva da jamaica.” 
Há ainda quem demonstre preocupação com a reação da família. Uma usuária escreveu: “..como que eu vou explicar pro meu pai que não vou tirar minha carta agora por causa do exame toxicológico?”

As postagens são encontradas com facilidade em várias plataformas, principalmente no X, antigo Twitter, onde basta pesquisar os tweets com postagem mais recente e incluindo as palavras: toxicológico, exame toxicológico, toxicológico cnh.

Qualquer pessoa vai encontrar imediatamente centenas de manifestações de usuários reclamando do exame. Vários admitem o uso sem nenhum constrangimento.

Há  usuários que revelam a importância do exame ser exigido também na renovação, o que ainda não ocorre. Na postagem deste perfil de Igor (@igorthurow) ele afirma: “ainda bem que pra renovar não precisa, se não pra tirar, só em outra vida… exame toxicológico pega meses ne!?” 
Este caso é provavelmente semelhante ao ‘influenciador” conhecido como Gato Preto, cujo veículo aparece na foto principal, após avançar o sinal vermelho e colidir brutalmente contra um outro carro, deixando duas pessoas feridas. O exame toxicológico comprovou que o motorista fez uso de álcool e drogas.
A boa notícia é que tem gente admitindo que terá que parar de usar. Muitos tweets confirmam esta tendência. Até de quem usa há muitos anos. Como a jovem que admite usar desde os 14 anos e que, possivelmente desconhece as consequências na formação do cérebro: “Eu  tenho que parar de fumar por 6 meses pra não aparecer no exame toxicológico, porque eu fumo desde os 14..”

Caminhoneiros aprovam a exigência do exame

Do outro lado do debate estão os caminhoneiros, que já são obrigados a realizar o exame toxicológico desde 2016. Entre eles, a maioria aprova a medida.
No Facebook do Estradas, há centenas de comentários de caminhoneiros e usuários das rodovias. Hilton Rocha Dias afirmou: “Acho justo, direitos e deveres iguais pra todos.”
Já o veterano Sérgio Medeiros, motorista profissional desde 1996, declarou: “Sou motorista profissional desde 1996 e acho muito válido o toxicológico para a primeira habilitação, assim como o periódico para os motoristas profissionais e acho que os demais deveriam fazer também na renovação.”
O caminhoneiro Cajau Antonelli, conhecido por seus vídeos sobre segurança viária e direção defensiva, enviou um vídeo defendendo o exame. Ele enfatiza:“Dirigir é uma das maiores responsabilidades na nossa vida adulta. Quando você pega um carro ou uma moto você não está cuidando só de você mas também de pedestres, ciclistas e outras famílias na rua.”
Entre 390 mil e 870 mil usuários de drogas obtêm CNH todos os anos
Dados da Fiocruz e da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas indicam que cerca de 13% dos jovens entre 14 e 17 anos já fizeram uso de drogas e que 29% dos jovens entre 18 e 24 anos têm histórico de consumo.
Como essas faixas etárias concentram a maior parte dos candidatos à primeira CNH, é razoável estimar que o exame toxicológico possa barrar entre 13% e 29% dos candidatos.
Em números absolutos, considerando a emissão anual de cerca de três milhões de Permissões Provisórias para Dirigir (PPDs), isso significa que entre 390 mil (13%) e 870 mil (29%) usuários de drogas — eventuais ou frequentes — vinham obtendo habilitação todos os anos. Com a exigência do exame, esse contingente tende a ser significativamente reduzido. A estimativa é do SOS Estradas.
Ministro conseguiu agradar crime organizado, traficantes e usuários de drogas
Para o coordenador do SOS Estradas, Rodolfo Rizzotto, as declarações do ministro Renan Filho agradam o crime organizado, traficantes e usuários de drogas. Por outro lado, não são bem recebidas pela maioria da população, formada majoritariamente por pessoas que sequer possuem habilitação, mas que correm riscos diariamente no trânsito como pedestres e passageiros.
Segundo ele, o ministro deveria considerar que, ao reduzir o custo da CNH em milhares de reais, a exigência do exame toxicológico — cujo valor gira em torno de R$ 120,00 — representa um custo baixo diante da economia gerada e da garantia de que o Estado não está entregando habilitação a usuários frequentes de drogas.
“Pegou muito mal a declaração do ministro ao avisar que vai lutar contra uma medida que não só impede o Estado de entregar habilitação para usuários de drogas, como também desestimula o uso. Caiu na mesma armadilha que o presidente da República há poucas semanas, com outra declaração infeliz, em que colocou traficantes como vítimas dos usuários”, explica Rizzotto.
No canal do SOS Estradas, é possível conferir a avaliação completa do especialista sobre o que ele classifica como um equívoco do ministro e sobre as consequências fatais da simplificação excessiva das exigências para obtenção da primeira CNH.