Auditoria identifica irregularidades graves em contrato do Dnit para reconstrução da ponte que desabou na BR-226/TO/MA
TRISTEZA: Negligência, alertas ignorados, custos inesperados e suspeitas confirmadas são alguns dos problemas que culminaram na queda da ponte na BR-226/TO/MA. Foto: Reprodução/Redes Sociais

Após tragédia, que deixou pelos menos 14 mortos, CGU encontra indícios de sobrepreço milionário na reconstrução da ponte JK, entre Aguiarnópolis (TO) e Estreito (MA)

Falta de manutenção e atitude foram principais fatores que contribuíram para a morte de 14 pessoas e de 3 desaparecidas, em 22 de dezembro de 2024. Além do drama humano, a contratação de empresa responsável pela reconstrução da ponte, aprovada pelo ministro dos transportes Renan Filho, está sob suspeita, segundo auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU).

Negligência dos governos Bolsonaro e Lula contribuíram para a tragédia

A queda da Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, na BR-226, ligação entre os municípios de Aguiarnópolis (TO) e Estreito (MA), revelou mais do que um desastre estrutural: expôs uma série de falhas administrativas, alertas públicos ignorados ao lono de anos, decisões emergenciais questionáveis e agora suspeitas de sobrepreço em contratos, segundo auditoria oficial da Controladoria-Geral da União (CGU).

O sinistro (acidente) não foi apenas uma tragédia isolada. Por anos, moradores, lideranças locais e usuários da rodovia denunciaram sinais de deterioração visíveis na estrutura. Um vereador da região chegou a filmar o início do colapso enquanto alertava sobre o risco iminente de desabamento, cenas que mais tarde se tornariam um registro chocante do que muitos já temiam.

Negligência antes da queda

Em dezembro de 2024, partes da ponte cediam gradualmente, tendo histórico de rachaduras e desgaste estrutural conhecidos por engenheiros e pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), responsável pela manutenção de pontes federais.

Apesar de diversas advertências, ações preventivas não foram implementadas a tempo. A ponte desabou no dia 22 de dezembro de 2024, por volta das 14h50, resultando em 14 mortos, três desaparecidos e veículos caindo no rio, entre eles automóveis, motocicletas e caminhões carregados com cargas perigosas.

O momento do desabamento

Enquanto caminhava pelo acostamento da ponte, o vereador registrou as condições precárias da estrutura e relatou o risco iminente:

A ponte estava visivelmente deteriorada, sem manutenção há tempos. Veículos de carga passavam frequentemente, agravando a situação.

Pouco depois, enquanto Elias Júnior e outras pessoas estavam na cabeceira da ponte, começaram a ouvir estalos vindos da estrutura. De repente, a ponte cedeu, levando parte do asfalto e veículos que estavam no trecho.

Um vídeo gravado no momento mostra o instante em que uma caminhonete atravessa a rachadura segundos antes do colapso, enquanto um motociclista consegue frear a tempo de evitar a queda. Assustados, os presentes na cabeceira da ponte correram para se afastar do local.

Custo da travessia temporária: balsas emergenciais

Com a ponte destruída e sem alternativa viável de travessia imediata, o Governo Federal, por meio do Dnit, teve de contratar uma solução temporária para restabelecer a circulação de pessoas e veículos entre Aguiarnópolis (TO) e Estreito (MA).

Após dois meses do desabamento, o Dnit assinou um contrato emergencial com a empresa Amazônia Navegações LTDA no valor de R$39.959.771,81 para operação de balsas no Rio Tocantins por até um ano, com travessia gratuita de pedestres e veículos leves. O serviço começou em março de 2025.

O contrato prevê a disponibilização de três balsas e quatro reboques para caminhões de carga, além de outras duas balsas e dois rebocadores para veículos menores e passageiros.

Esse valor faz parte de uma conta que já se aproximava de R$ 210 milhões, quando se soma aos cerca de R$ 171 milhões anunciados para a reconstrução definitiva da nova ponte.

Recursos “inexistentes”, antes; disponíveis, depois

É revelador que os recursos que supostamente não existiam para manutenção ou obras preventivas apareceram prontamente após a tragédia. Embora a reconstrução da ponte e o contrato das balsas tenham sido tratados como emergenciais, o contexto levanta questões sobre prioridades de investimento e planejamento.

Além disso, levantamento preliminar do portal Estradas.com.br mostrou que algumas das empresas contratadas no contexto da reconstrução já enfrentavam restrições ou desqualificações em processos licitatórios anteriores, o que suscitou dúvidas sobre a idoneidade técnica na escolha das empresas responsáveis por tais serviços.

Auditoria da CGU: suspeitas ganham respaldo

Agora, uma auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) reforça o nervo dessa investigação jornalística: o relatório técnico aponta indícios de sobrepreço milionário nos contratos relativos à reconstrução e à operação emergencial da ponte. Essa constatação oficial parece confirmar, sob aspectos econômicos, aquilo que muitos já suspeitavam desde o início — que decisões foram tomadas rapidamente, sem a devida transparência e com potenciais desvios de eficiência no uso do dinheiro público.

Tragédia não deveria ter acontecido

Ao integrar todos esses fatos — alertas públicos ignorados, decisões emergenciais com custo elevado, contratações questionáveis e agora uma auditoria oficial sinalizando sobrepreço — a história da ponte entre Maranhão e Tocantins deixa de ser um episódio isolado para se tornar um alerta sobre a importância da manutenção preventiva, da gestão pública transparente e da fiscalização rigorosa de contratos, especialmente em obras de infraestrutura críticas para a vida e economia das regiões.

Atualização

Esta matéria será atualizada à medida que novos documentos — especialmente o relatório completo da CGU — forem tornados públicos pelas autoridades competentes.

Leia também:

Até o fim do mês, Dnit promete entregar ponte na BR-226/MA/TO

Empresas contratadas para obra na BR-226 foram desqualificadas

Chega a 14 o total de corpos encontrados na queda da ponte na BR-226/TO/MA

Ponte da BR-226 que liga Maranhão ao Tocantins desaba matando pelo menos 1 pessoa