Detrans permitem que motoristas usuários de drogas continuem dirigindo impunes
Usuários de drogas provocam tragédias mortais nas rodovias Foto: Reprodução/Redes Sociais

Com mais de 37 mil mortes no trânsito em 2024, especialistas alertam para o impacto do álcool e das drogas nos acidentes e defendem o exame toxicológico como ferramenta essencial de prevenção e segurança viária.

O Brasil enfrenta uma escalada preocupante de mortes e internações provocadas por acidentes de trânsito, cenário que transforma a segurança viária em uma das maiores urgências de saúde pública do país. Em meio à campanha Maio Amarelo 2026, o alerta deste ano reforça uma mensagem direta: “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”.

A discussão ganha força diante dos números alarmantes registrados em 2024. Segundo dados do DATASUS, o país ultrapassou a marca de 37 mil mortes por sinistros de trânsito. Paralelamente, mais de 220 mil internações hospitalares relacionadas a acidentes terrestres foram registradas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), conforme levantamento da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (ABRAMET).

Especialistas apontam que parte significativa desses casos está relacionada ao consumo de álcool e drogas por condutores. Durante evento que marcou os dez anos do exame toxicológico de larga janela, promovido pela Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, o ortopedista e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), Dr. Marcos Musafir, apresentou dados preocupantes: o álcool esteve presente em cerca de 29% dos atendimentos envolvendo vítimas de trânsito, enquanto drogas ilícitas apareceram em aproximadamente 16% dos casos.

O perfil das vítimas fatais permanece concentrado entre homens jovens, principalmente na faixa de 20 a 29 anos, com crescimento expressivo da participação de motociclistas em acidentes graves.

Nesse contexto, o exame toxicológico ganha protagonismo como ferramenta preventiva. Realizado a partir de fios de cabelo ou pelos corporais, o teste é capaz de detectar o uso recorrente de substâncias psicoativas nos 90 dias anteriores à coleta, incluindo cocaína, maconha, anfetaminas, metanfetaminas, ecstasy e opioides.

Para o diretor técnico de Toxicologia do Grupo Fleury e médico toxicologista, Alvaro Pulchinelli, o exame representa uma medida concreta de proteção coletiva. “O exame toxicológico não deve ser visto apenas como uma exigência legal, mas como uma ferramenta de proteção coletiva. O motorista que dirige sob efeito de substâncias coloca em risco não apenas a própria vida, mas a de todos ao redor. Quando identificamos o uso recorrente dessas substâncias, conseguimos atuar preventivamente e reduzir riscos antes que eles se transformem em acidentes”, afirma.

Segundo ele, o tema se torna ainda mais relevante com a ampliação da exigência do exame toxicológico para candidatos à primeira habilitação nas categorias A e B. “A segurança no trânsito começa muito antes de ligar o motor. Ela passa por decisões individuais, responsabilidade e consciência coletiva. O exame toxicológico contribui justamente para fortalecer essa cultura de prevenção e cuidado”, acrescenta.

O impacto do exame também é percebido no comportamento dos motoristas. Especialistas em segurança viária defendem que a medida exerce papel educativo ao estimular decisões mais responsáveis fora e dentro do volante.

O coordenador do SOS Estradas e fundador da entidade TrânsitoAmigo, Rodolfo Rizzotto, destaca que os efeitos positivos vão além da fiscalização. “Quando o motorista entende que suas escolhas fora do volante também interferem diretamente na segurança de todos, há uma mudança de comportamento. O exame toxicológico completa dez anos produzindo resultados importantes na prevenção de sinistros e no estímulo a decisões mais responsáveis”, afirma.

Com o aumento da vulnerabilidade dos motociclistas e o avanço dos acidentes graves nos centros urbanos, especialistas reforçam que preservar vidas no trânsito começa, muitas vezes, antes mesmo da partida.