
Estradas havia apurado tal informação menos de 24 horas após o sinistro, que foi confirmada pela Agência
A ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) informou, após praticamente 48 horas do tombamento do ônibus com torcedores do Flamengo na Rodovia Presidente Dutra (BR-116), que a empresa não tinha autorização para realizar a viagem até a Argentina. A transportadora somente poderia ir até Porto Alegre (RS).
O Estradas obteve essa informação menos de 24 horas depois do ocorrido, que deixou mais de 30 feridos, sendo 4 em estado grave. A demora da ANTT em prestar essa informação é injustificável, porque todos os detalhes da viagem estavam disponíveis no sistema. Tanto que as informações obtidas pelo Estradas foram confirmadas pela ANTT.
Veja o que disse a ANTT, no seu comunicado via assessoria de imprensa:
“O veículo de placa KNT6D69 encontra-se habilitado na empresa WF LIBOTI TRANSPORTES LTDA., inscrita no CNPJ nº 11.954.975/0001-75, devidamente autorizada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres – ANTT para a prestação do serviço de fretamento interestadual de passageiros. A referida empresa emitiu Licença de Viagem para o veículo em questão, com origem no Rio de Janeiro (RJ) e destino a Porto Alegre (RS), com data de início em 27/10/2025 e 44 (quarenta e quatro) passageiros registrados. Não há autorização para viagens para outros países. ….”
O Estradas conseguiu apurar que o veículo estava autorizado a realizar o trecho Rio de Janeiro (RJ) – Porto Alegre (RS), com saída na segunda-feira (27), e chegada em Porto Alegre (RS), nesta terça-feira (28). A autorização para viagem de retorno de Porto Alegre (RS) foi obtida para quinta-feira (30).
O Estradas divulgou, antes das informações oficiais, o nome da torcida organizada que contratou a viagem, bem como os dos motoristas, que a empresa informou que estariam conduzindo o veículo em 1.600 quilômetros na ida e outros tanto no retorno. De Porto Alegre (RS) até Buenos Aires, na Argentina, seriam mais 2.000 quilômetros entre ida e volta.
Viagem clandestina
Há indícios de que o trajeto a partir de Porto Alegre seria feito clandestinamente. Mas o fato concreto é que os motoristas estariam em excesso de jornada em qualquer uma das possibilidades; seja a viagem somente até a capital gaúcha, seja até Buenos Aires.
Além disso, os nomes dos motoristas indicados não confirmam a presença de nenhum Vitor, nome que as torcidas organizadas postaram nas mídias sociais como o motorista reserva ferido, que sofreu amputação, em decorrência do corpo ser projetado para fora veículo. Provavelmente por falta do cinto de segurança, assim como ocorreu com a maioria dos passageiros feridos.
Truque para evitar a fiscalização
A estratégia de solicitar autorização de viagem somente até Porto Alegre (RS) provavelmente foi utilizada por outras empresas que levaram os torcedores flamenguistas para acompanhar a classificação para a final da Libertadores contra o Racing.
A demora da ANTT em informar sobre situação do ônibus, que fazia parte de uma caravana, prejudicou a apuração da imprensa e atuação dos fiscais da Agência e da Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Caso fossem informados da provável irregularidade da viagem do ônibus que tombou, poderiam tomar providências evitando viagens de risco, com motoristas em excesso de jornada. No retorno, estarão com autorização, ao menos de Porto Alegre para o Rio.
Essa postura da ANTT pode ser indício de tolerância na fiscalização das viagens realizadas por torcidas organizadas. Normalmente empresas de maior porte, que somente viajam dentro das normas, não aceitam transportar torcidas organizadas, com exceção de grupos específicos.
Ponto de parada bloqueiam a entrada de ônibus de torcida
A maioria dos postos de rodovia não aceitam sequer receber esses ônibus. A principal razão, segundo os proprietários, é que ocorrem muitos furtos e até ameaças aos funcionários.
Um dos proprietários de ponto de parada na BR-116 explicou: “Como comerciante você somente vai recusar a parada de dez ônibus, com centenas de potenciais clientes, quando tem certeza, pela experiência passada, de que o provável prejuízo será maior que a possível receita. Quanto mais quando, além do prejuízo, ainda pode colocar em risco a segurança dos funcionários. Por isso, quando tem esses jogos, já nos preparamos para bloquear a entrada.”
Para justificar o perfil violento dos ônibus que transportam esse tipo de passageiro, citou ainda a briga entre torcedores do Flamengo em plena rodovia, quando o ônibus estava tombado e pessoas feridas, conforme este vídeo divulgado nas mídias sociais revelou.
Em alguns casos, viaturas das polícias rodoviárias ficam na entrada dos pontos de parada mandando os ônibus seguirem. Deveriam parar e fiscalizar, mas até os policiais têm medo de fazer essa abordagem. Um dos policiais rodoviários – que preferiu não se identificar – esclareceu para o portal Estradas: “Temos um efetivo pequeno e mesmo quando estamos com equipes da ANTT, a situação é de risco porque geralmente viajam em caravanas. Fica difícil controlar tanta gente, alguns com ficha criminal, sem colocar em risco a segurança dos policiais e fiscais.”
Para o policial, a solução seria a ANTT e demais órgãos serem mais rigorosos nas autorizações de viagens, já que é comum as empresas, que transportam estes passageiros, apresentarem várias irregularidades, tais como: tacógrafo irregular, motorista com exame toxicológico vencido e manutenção precária, dentre outras.
Ele alerta ainda que, com a classificação do Flamengo para a final da Libertadores em Lima, no Peru, a tendência é que muitos torcedores viagem em ônibus clandestinos ou em precárias, colocando em risco suas vidas por uma questão de preço.
São quase 5.000 quilômetros somente de ida, praticamente o dobro da distância do Rio de Janeiro até Buenos Aires. O que pode obrigar o torcedor a viajar, entre ida e volta, praticamente 8 dias dentro de um ônibus, durante 10.000 quilômetros.
Lei também:
Ônibus do acidente com torcedores do Flamengo não tinha autorização para viajar até Argentina




